Báal Shem Tov e os Salmos

Mário Moreno/ setembro 26, 2017/ Yom Kippur

Báal Shem Tov e os Salmos

Durante Yom Kipur, devemos aproveitar os momentos auspiciosos do mais santo dos dias, proclamando orações sinceras. Assim, costuma-se preencher o tempo livre com a leitura dos Salmos de David.

Em relação a este fato, segue-se a seguinte narrativa.

O santificado Báal Shem Tov tinha grande amor por todo seu povo. Ele amava os jovens e os velhos, o povo da cidade e os moradores do campo, os eruditos e os sem estudo. A todos amava com a alma e o coração. Não é de se estranhar que os judeus afluíam a ele, de longe e de perto, pois o coração é como um espelho. E é por isso que tantos judeus procuravam o Báal Shem Tov.

Alguns vinham ouvir suas palavras sobre a Torah; a eles o Báal Shem Tov revelava os segredos mais ocultos da Torah, fazendo seus corações encherem-se de alegria. Outros, inclusive os não instruídos, vinham pedir conselhos e bênçãos ou apenas ver sua santa face e ficavam inspirados pelas melodias que ouviam; as músicas eram cantadas sem palavras ou com vocábulos muito simples para que todos pudessem entender.

O povo simples e sem instrução sentia-se envergonhado por não ter tido maior oportunidade de estudar na juventude. O Báal Shem Tov percebia como se sentiam e sabia que não tinham culpa. Assim, dizia frequentemente para que não se sentissem infelizes, pois D’us ama a sinceridade, a simplicidade, a honestidade e a humildade; e estas qualidades encontram-se em abundância entre os menos instruídos. Neste aspecto não eram superados por ninguém.

O Báal Shem Tov era particularmente amistoso e atencioso com estas pessoas simples e sinceras. Quando se sentava à mesa, cercado por seus discípulos, célebres por sua sabedoria, o Báal Shem Tov convidava também pessoas pobres para repartir com elas o vinho com o qual fazia o kidush; dava-lhes grandes fatias de bolo de mel, fazendo-as sentir-se como seus filhos favoritos.

Os eruditos sentados à mesa não compreendiam por que o Báal Shem Tov dispensava tanta atenção a pessoas não instruídas.

O Báal Shem Tov percebia também como se sentiam os eruditos.

Certa vez lhes disse:

Vocês estão surpresos por que me dedico tanto à gente humilde? É verdade que não estudaram tanto quanto vocês. Alguns deles nem mesmo sabem o significado das preces que recitam diariamente, mas seus corações são de ouro; estão transbordando de amor pela humanidade e por todas as criaturas de D’us. São humildes e honestos. Cumprem todas as mitsvot da Torah com simplicidade e fé, mesmo não conhecendo muita coisa a respeito delas. E além do mais, arde um fogo Divino em seus corações, como o arbusto em chamas que não se consumia. Como invejo seus maravilhosos corações e almas judaicas!

Os discípulos mal acreditaram no que o mestre acabara de proferir. O Báal Shem Tov fitou-os com seriedade e disse: “Em breve lhes mostrarei que não exagerei.”

Isto aconteceu durante a Seudá Shelishit (a terceira refeição) de Shabat. Como era de costume, o Báal Shem Tov sentava-se à cabeceira da mesa cercado por seus discípulos.
Esta era a ocasião em que lhes ensinava os segredos da Torah. O povo sem poder compreender os mistérios da Torah recolhia-se, nesta hora, a uma sala adjacente onde recitava os Salmos do rei David da melhor maneira que conseguia.

O Báal Shem Tov fechou os olhos e ficou profundamente absorto. Em seu santo semblante notava-se concentração profunda, e gotas de suor lhe apareciam na fronte. De repente, seu rosto iluminou-se com uma intensa alegria interior. Abriu os olhos e todos os discípulos sentiram-se imersos em felicidade.

O Báal Shem Tov voltou-se ao discípulo a sua direita: “Ponha o braço direito no ombro de seu vizinho.” Ordenou ao seguinte para fazer o mesmo e assim por diante, formando uma cadeia. Então pediu que cantassem certa melodia, entoada somente nas ocasiões mais solenes e disse: “Cantem com todo o coração, como nunca o fizeram antes!”

Enquanto cantavam, sentiam os corações elevando-se cada vez mais alto. Quando terminaram o canto, o Báal Shem Tov colocou seu braço direito no ombro do discípulo à sua direita e seu braço esquerdo no ombro do aluno à esquerda, fechando o círculo.

Fechemos os olhos e nos concentremos“— disse o Báal Shem Tov. Logo, ouviram muitas vozes maravilhosas, melódicas, cantando os Salmos. As vozes eram tão doces e emocionantes que sentiam cada fibra de seus corações vibrar num ritmo maravilhoso.
Algumas vozes transmitiam fé inabalável, outras eram plenas de alegria; outras ainda exprimiam um apelo que conquistava os corações. Podiam distinguir claramente as palavras dos Salmos com as quais estavam tão familiarizados e as frequentes exclamações que se mesclavam ao próprio texto: “Ó Pai Celestial” ou “Ó Doce Pai do Céu!” ou “Ó Mestre do Universo!”

O círculo de discípulos que se juntou ao Báal Shem Tov neste passeio celeste permanecia sentado, fascinado, em completo silêncio. Eles perderam todo o senso de tempo e espaço.
Lágrimas brotavam de seus olhos fechados e seus corações estavam repletos de êxtase, a ponto de estourar. De repente, cessou o canto, pois o Báal Shem Tov retirou seus braços, quebrando o elo. Um momento a mais e as almas dos discípulos teriam certamente deixado seus corpos.

Quando se refizeram desta experiência comovente, o Báal Shem Tov lhes disse o quanto D’us ama ouvir os Salmos, principalmente quando provêm de corações puros de gente simples, honesta e humilde.

Mas de quem eram as vozes que ouvimos há pouco?” — perguntaram os discípulos.
Eles ficaram realmente surpresos quando o Báal Shem Tov respondeu:

Vocês escutaram, por um breve instante, os Salmos recitados pelo povo humilde na sala adjacente, da maneira pela qual os anjos dos Céus os ouvem!