Jardim Bíblico

Mário Moreno/ novembro 14, 2017/ Artigos

Jardim bíblico

Eira

A eira poderia ser construída por um muro baixo de pedras de forma circular ou também poderia ser uma área de terra batida próxima à casa do agricultor ou num local público.

Os métodos de debulha poderiam ser três: o primeiro consistia simplesmente em malhar o cereal com um bastão para que o grão se soltasse da casca. Na ocasião em que o mensageiro do IHVH apareceu a Gideão ele estava justamente malhando o trigo (Jz 6.11).

O segundo método consistia em fazer o animal pisar o cereal. Isso fazia com que os grão se soltassem da casca, podendo ser feita a seguir a separação entre os grãos e a palha.

No terceiro, o trilho, que é uma prancha de madeira com dentes de pedra ou de ferro, é puxado sobre as espigas espalhadas pelo chão da eira por um boi ou jumento, a quem é permitido comer livremente (Mq 4.12, 13; Dt 25.4; I Co 9.9, 10). O trilho quebra os grãos, separando-o da palha (Is 41.15). Depois de trilhado, os grãos são peneirados, com a ajuda do tridente atirando-os para o ar (Jr 15.7). O vento sopra a palha e os grãos caem na eira. Esta separação pelo vento (que em hebraico é a mesma palavra para Espírito), é um símbolo do julgamento (Os 13.3; Lc 3.17).

Numa terra onde as chuvas são incertas, esperanças e medos sobre o ano vindouro se encontram na eira. Cerimônias religiosas na eira portanto são muito antigas (Nm 15.20). A Festa bíblica dos Pães Asmos e das Semanas (Shavuot) são relacionadas com a ceifa da cevada e do trigo (Ex 34.22; Lv 23.4-21; At 2.1). O altar do rei David, na eira de Arauna em Jerusalém (futuro lugar do templo) substitui o culto aos ídolos pela adoração ao D-us vivo (II Sm 24.16-25). Veja Rute 3.1-18.

Nascente e riacho

Juncos e papiros cresciam nas frescas águas que correm ao lado da eira com direção ao pequeno lago mais abaixo. A falta de rios que fluem o ano todo na maior parte de Israel, tornam as fontes essenciais para a sobrevivência (Dt 8.7; Sl 104.10, 11). Várias cidades e aldeias bíblicas foram edificadas ao lado de fontes.

Nascentes e riachos são imagens da salvação numa terra seca (Is 12.3; 41.17, 18; 49.10). Suas águas dançantes – águas vivas – na linguagem bíblica, são em si mesmas, símbolo de vida e do próprio D-us, doador de toda a vida (Jr 2.13; 17.13; Jô 4.10-14; 7.37-39).

Árvore de amêndoas

Perto do lago estão as amendoeiras. Na primavera seus ramos são os primeiros a desabrocharem numa profusão de flores, um símbolo do D-us Protetor e Desperto (Jr 1.11,12). A palavra em hebraico significa “atento”. Amendoeiras foram usadas na decoração da Menorah do Tabernáculo (Ex 25.31-34). A amendoeira segue bem ainda com escassez de água. Jacó envia amêndoas de presente ao Egito apesar dos sete anos de severa seca na terra (Gn 43.11).

Oliveira

Oséias pronuncia uma metáfora de grande beleza quando profetiza sobre Israel: “O seu esplendor será como o da oliveira! (Os 14.6; Sl 52.8). A oliveira pode produzir até 80 litros de azeite por árvore por ano. Sendo cultivada em solo pedregoso pode suportar longas estiagens.

Como um produto necessário à vida a azeitona é valiosa (I Sm 8.14; II Rs 5.26). Na parábola de Jotão, quando se pergunta a oliveira para reinar sobre eles, ela responde: “Deixaria eu meu óleo, que D-us e homens a mim prezam?” (Jz 9.9). O apóstolo Sha´ul compara os gentios convertidos a enxertos de galhos de oliveira brava, para lembrar as raízes judaicas de sua fé (Rm 11.17).

Pedreira

Partindo do lago, um caminho segue até a pedreira. A roda grande e as estacas funcionam como um guindaste. A pedreira é original tendo sido utilizada no período Bizantino (500 a d.). Gretas cortadas ao redor da pedra a separa por todos os lados menos um. Madeiras são metidas nas gretas e encharcadas com água. A madeira incha, forçando a pedra a se separar da pedreira (I Rs 5.17; Is 51.1).

Pedra é o material de mais fácil uso em construção em Israel (Is 28.16; Sl 118.22; I Pe 2.4-8). Ieshua trabalhava como construtor (techon em grego), provavelmente construiu em pedras e madeira. O rei David, nos seus tempos de pastor nos campos ao lado leste do Jardim bíblico, descansou muitas horas nas sombras fornecidas pelos penhascos rochosos (Sl 91.1; 121.5; Is 32.2).

Sepulcros

O maior, abertura retangular, é o interior do Sepulcro do período do Primeiro Templo, ainda incompleto (Is 22.16). O menor, fechado por uma pedra circular, representa um sepulcro do período do Segundo Templo (Mc 15.46). É comum cavar-se sepulcros em pedreiras abandonadas, como no tradicional túmulo onde Ieshua foi sepultado (Lc 24.1-9). A abertura conduz a uma sala com três mesas onde o corpo era posto a decompor-se (Sl 139.8; 49.14), os ossos então eram ajuntados e depositados num recipiente contendo os restos mortais dos antepassados, nos dando a expressão “reunidos aos seus ancestrais” (Gn 25.8; Lc 16.22).

Lagar

Duas aberturas de pedras rebocadas contém as uvas que os vindicultores pisam com cantos de alegria (Jr 48.33). O “Sangue das uvas” (Gn 49.11), corem pelos canais do lagar (Is 5.2; Jl 3.18). O suco é filtrado no linho antes de ser depositado em jarros ou odres (Jó 32.19; Mt 9.17).

O fruto da videira, símbolo da bênção, era oferecido a D-us em louvor (Gn 27.28; Lv 23.13). Na comunhão o vinho tem uma simbologia muito importante (Mt 26.27-29).

Altar

O altar preenche recomendações bíblicas como o uso de pedras naturais, com as medidas de 5 x 5 x 3 côvados (Ex 20.25). Os escritos rabínicos Mishnah (Midot 3.4), diz que as pedras utilizadas no Altar no templo de Herodes vieram do vale Beit Kerem, identificado por alguns como sendo o vale onde o Jardim Bíblico está situado.

O Altar era o centro do sistema de sacrifícios em Israel. No Templo animais sacrificados eram queimados total ou parcialmente no altar. O sangue era aspergido sobre os lados, derramado na base ou colocado sobre os chifres do Altar (Lv 1-7). Na Brit Hadasha a morte de Ieshua é identificada como sacrifício pelos pecados (Hb 10.10, 12; I Co 5.7).

Os quatro terrenos

Os quatro tipos de terrenos na parábola do semeador, são típicos da agricultura em terraços (75% da terra). Quase todo terraço tem uma parte rochosa com pouca terra, espinhos crescendo contra o muro, ocasionalmente um caminho e a parte com terra profunda (Mt13.3-9, 18-23; Gn 3.17-19).

Poço e bebedouros

Os poços eram cobertos por tampas de pedras que preveniam a reprodução de algas. Poços de 30 a 50 metros de profundidade não são raros (Gn 26.18-33). Um tremendo esforço era exigido para saciar a sede de um rebanho de ovelhas ou uma caravana de camelos (Gn 24.10-14; Ex 2.16,17). Quando era possível uma nascente era sempre preferível (Jô 4.7-15).

Tenda de pelos de cabra

Tendas são tecidas com pelos negros de cabras e as partes costuradas juntas com barbante ou pregos (Ex 36.14). Elas são geralmente montadas em lugares protegidos contra os ventos oeste, com a abertura voltada para o leste, pretendendo absorver os raios matutinos do sol (Sl 19.4,5). Hoje cada família de beduínos tem pelo menos dois compartimentos na tenda: lado das mulheres, armazenagem, cozinha e dormitório, e o lado dos homens, para receber visitas. Esta tenda tem espaço para duas unidades familiares a “hamula” (parentes).

Tendas, as casas móveis da antiguidade, representam a vulnerabilidade da vida (Jo 4.20, 21; II Co 5.1-10). A tenda móvel (Tabernáculo) no deserto era um símbolo da presença de D-us com os israelitas (Ex 25.8). A Brit Hadasha aplica esta imagem a Ieshua, “Eis o tabernáculo de D-us” (Ap 21.3).

Cisternas

Um canal coleta a água da chuva que cai na superfície e conduz a um reservatório onde a terra acenta, então a água limpa flui para as duas cisternas abaixo. A cisterna situada ao norte era aberta e suas águas utilizadas durante o inverno. Originalmente coberta, na segunda cisterna as águas eram reservadas para o longo e seco verão e o outono.

Beber águas de sua própria cisterna é um sinal de estabilidade (II Rs 18.31). Porém, a cisterna rota que não retém água é sinal de futilidade (Jr 2.13).

Torre de vigia

Na antiguidade em Israel havia dois tipos de torre de vigia: as grandes que tinham como finalidade a proteção das cidades contra ataques inimigos, e as de menor porte, que eram erguidas em vinhas.

NA maioria dos casos eram construídas de pedra, e algumas eram bem elaboradas, possuindo dois pavimentos. O andar inferior oferecia espaço para a armazenagem e até aposentos para pernoite. Na época da colheita das uvas o vindicultor e sua família acampam na torre de vigia para estar perto de sua colheita (Is 1.8; 5.1,2). Um vigia está sempre alerta contra predadores e ladrões (Ct 2.15). A torre de vigia serve de símbolo da proteção de D-us (Sl 121.4). E anseio do coração humano pela comunhão com D-us (Sl 130.6).

Caverna e aprisco

O aprisco podia ter dois níveis, sendo a parte inferior uma caverna e a superior a entrada (Sf 2.6; Mq 2.12,13). Os espinhos sobre o muro servem para desencorajar os predadores, com as macias peles de seus ventres. Depois de contar e cuidar das ovelhas, o pastor se deita para passar a noite na entrada, literalmente tornando-se a porta do aprisco (Jô 10.7-18).

Quarto de visitas romano

No quintal aberto pelos edifícios se encontra o quarto de visitas (kataluma, em grego), com uma mesa triclinium (latim para três, (tri), reclinar para (clinium); mesa de três lados para reclinar. Visitantes comeriam e dormiriam no mesmo quarto. Este é provavelmente o arranjo da última ceia (Pessach) de Ieshua e seus discípulos. Kataluma com mesa e colchões ao redor (Lc 22.12, 14. 27) a ceia de Pessach originalmente comida às pressas (EX 12.11), era observada no período romano reclinando.

Prensa de azeite

O peso da alavanca mais o das pedras, imprensa sacos de azeitonas quebradas. O azeite é coletado num recipiente abaixo. O peso da primeira pedra produz o azeite puro, usado para cerimônias (Ex 30.22-33). Outras pedras acrescidas produzem azeite de qualidade inferior para uso doméstico, iluminação e sabão (Dt 8.8; Ex 27.20; Ml 3.2).

Na agonia de Ieshua no jardim de Getsemani (Getsemani significa “prensa de azeite”) no monte das Oliveiras. Ele foi comprimido pela realidade de sua crucificação até que seu suor se tornou em gotas de sangue, relembrando o óleo que é vertido na prensa de azeite (Lc 22.44).

Estábulo e manjedouras

Manjedouras e estábulos poderiam ser feitos em pedra (Pv 14.4; Is 1.3). O estábulo onde Ieshua nasceu, relembrando como uma caverna nas proximidades de Beit Lehem, provavelmente continha manjedouras de pedras deste tipo (Lc 2.7, 12, 16).

Cruzes romanas

Os romanos crucificaram muitos judeus durante sua ocupação. A história nos mostra que frequentemente as cruzes eram oliveiras arraigadas, com os galhos cortados e a barra horizontal amarrada ao tronco. O pequeno suporte prolonga a agonia de morte, facilitando a respiração. A inscrição em hebraico, grego e latim é uma cópia de inscrições encontradas em túmulos do primeiro século (Dt 21.22,23; Mt 27.33-50).

Figueira

Na sequência temos a figueira. A fresca e acolhedora sombra da figueira com sua grande produção (4 a 5 colheitas por ano), a faz uma adição ideal a qualquer pomar. “Cada um embaixo de sua videira e figueira” é o resumo bíblico para paz e prosperidade (I Rs 4.25). Por outro lado uma figueira sem frutos é sinal de calamidade (Jô 1.7, 12; Ap 6.13). Antecipação dos primeiros figos, fazem-na uma árvore muito observada na primavera (Is 28.4). O símbolo perfeito da vigilância da volta de Ieshua (Mc 13.28,29).

Mário Moreno.