Parasha Vayeshev

Mário Moreno/ dezembro 5, 2017/ Parasha da semana

Vayeshev

(Ele habita)

Gn 37.1–40.23/ Am 2:6–3:8 / Mt 1:1-6,16-25

O fato que precipitou os últimos eventos na porção da Torah desta semana é a queixa que os irmãos tinham devido ao favoritismo que Ia´aqov demonstrava para com Iosef. Os sábios do Talmud extraem deste incidente que a pessoa nunca deve tratar um dos filhos de maneira especial. Embora Ia´aqov desse apenas o valor de duas moedas a mais de seda (o casaco especial) a Iosef que aos outros filhos, os irmãos de Iosef tornaram-se invejosos e o venderam como escravo. A conseqüência mais importante deste ato, enfatizam os sábios, foi o exílio de nossos antepassados no Egito.

A Torah descreve Iosef como sendo um “ben zecunim” para Ia´aqov, que literalmente significa filho de um pai idoso. Onkelos, entretanto, interpreta este termo como “filho sábio”, ao passo que Rashi acrescenta que Iosef era o aluno mais estudioso de Ia´aqov, e que o notável sábio ensinou ao filho tudo que havia aprendido. Rabi Samson Raphael Hirsch explica, no mesmo teor, que o casaco era um símbolo da transmissão da sabedoria de pai para filho, e isso era o que fazia Iosef especial.

Ia´aqov via Iosef como uma continuação na linhagem dos Patriarcas que começou com Avraham. Havia um problema essencial em destacar Iosef. Seus irmãos não zombavam da sabedoria do pai, como fez Esav com Itshaq e Ishmael com Avraham. Os irmãos nada mais queriam além de ser uma parte na corrente de tradição e colher as recompensas pela sabedoria do pai. Percebendo que Ia´aqov não havia lhes transmitido a atenção que sentiam merecer, odiaram Iosef. Os irmãos sentiram que Iosef e seu casaco eram ambos sinais da inferioridade deles.

A inveja os impediu de se comunicarem com Iosef. Quando atiraram Iosef no fosso, referiram-se ao irmão usando o pronome “ele” numerosas vezes, jamais chamando Iosef pelo nome. Cobiçaram tanto o amor do pai que viam Iosef como um mero “ele”, disponível para ser jogado fora, se necessário fosse.

Apenas Iehuda se levanta e chama Iosef de “achenu – nosso irmão”.

Apenas com o reconhecimento do vínculo familiar, que implicitamente inclui responsabilidade e uma forma de posse (nosso irmão), os irmãos se comportam mais civilizadamente para com Iosef.

Claramente, a Torah mostra que as conseqüências do favoritismo dos pais podem ser desastrosas, e que é importante que os pais reconheçam as boas qualidades de todos os filhos, mesmo se um deles é especialmente exemplar.

Da mesma forma, apenas quando nos lembramos de que os outros são “nossos irmãos”, iremos nos comportar de uma maneira que sobrepuje a inveja e a ira.

Nesta Porção da Torah estaremos penetrando num universo que ainda nos é desconhecido: o do sofrimento humano por uma traição familiar! Aqui nos é mostrado como Iosef e seus irmãos administram uma condição familiar de não aceitação por parte dos irmãos mais velhos de Iosef. Ele é incompreendido, criticado, odiado e por fim vendido à estrangeiros como escravo! Aí é que começa a grande aventura da vida de Iosef, que comprova de forma muito clara a presença do Eterno em sua vida e em cada atitude dele no cativeiro.

A Escritura começa nos informando que Ia´aqov já estava tomando posse da terra que lhe fora prometida e também a seus pais. É ali que os fatos tem início na vida de Iosef. “E Ia´aqov habitou na terra das peregrinações de seu pai, na terra de Canaã” (Gn 37:1). Ia´aqov toma posse da promessa – que agora se torna para ele um fato – e assim tem início uma nova etapa de vida com o Eterno, depois de muitos sofrimentos nas mãos de seu sogro Labão. Ia´aqov deixou de buscar aquilo que o Eterno lhe prometera, pois agora ele se apossara definitivamente daquilo que o D-us de seus pais havia lhe prometido. Ia´aqov entrou no descanso de suas peregrinações, e agora Canaã para ele é o lugar onde ele deve repousar e colher aquilo que ele plantou e também receber de forma mais clara as bênçãos do Eterno, pois não existe mais “sociedade” entre ele e outra pessoa. Tudo o que o Eterno lhe prometeu, agora lhe dará da forma como sempre esteve no coração do Senhor fazer.

        As coisas transcorriam assim: “Estas são as gerações de Ia´aqov. Sendo Iosef de dezessete anos, apascentava as ovelhas com seus irmãos; sendo ainda jovem, andava com os filhos de Bila, e com os filhos de Zilpa, mulheres de seu pai; e Iosef trazia más notícias deles a seu pai. E Israel amava a Iosef mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice; e fez-lhe uma túnica de várias cores” (Gn 37:2-3). A palavra nos fala sobre as gerações de Ia´aqov. A palavra “gerações” em hebraico é toledot, e significa “gerações, nascimentos”. A palavra refere-se àquilo que é produzido ou levado a existir por alguém ou aquilo que procede de tal pessoa. É interessante notarmos que a palavra fala de gerações, nascimentos, mas somente um dos filhos de Israel é citado: Iosef! Fica claro que Israel amava mais a Iosef do que os seus outros filhos! A palavra “amar” em hebraico é ‘ahab e significa “amor”. Porém esta palavra descreve freqüentemente o amor entre seres humanos. A Escritura nos esclarece que este amor maior de Israel por Iosef é pelo fato de ele ser o filho de sua velhice, mas aí há algo mais. Iosef é filho de Raquel, a sua amada esposa e Israel parece aqui “transferir” este amor que ele sentia por Raquel e devotá-lo à Iosef! Creio que a cada atitude no relacionamento entre Israel e Iosef algo transparecia em seu favor e fazia Israel lembrar-se de Raquel! Justamente por isso Iosef recebe de seu pai uma túnica de várias cores. A palavra “túnica” é kuttonet e significa “túnica”; uma vestimenta parecida com um camisão bastante longo e era feita geralmente de linho. Isso – aliado ao fato de Iosef já ser declaradamente o filho preferido de Israel – causou um certo mal-estar entre os demais irmãos de Iosef!

Versículo 37:2

E ele era jovem.

Iosef se envolvia em brincadeiras infantis, anelando seu cabelo e pintando os olhos. (Comentário de Rashi)

Perguntaram certa vez a Rabi Menachem Mendel de Horodov: “Está sempre exaltando o dom da humildade. Então, por que usa roupas tão elegantes?”

Replicou Rabi Mendel: “O local mais seguro para ocultar um baú de tesouros é um buraco cheio de lama e lodo…”

OS JORNAIS ALEMÃES

Quando o terceiro Rebe e líder do chassidismo Chabad, Rabi Menachem Mendel de Lubavitch, faleceu em 5626, deixou sete filhos devotos e eruditos. Cada um deles tinha um grupo de seguidores que desejavam ver seu mentor assumir o lugar do pai.

Rabi Grunem Estherman, um dos mais notáveis nos anais de Lubavitch, era jovem naquela época, e não havia ainda decidido a qual dos filhos do Rebe se voltar em busca de liderança e aconselhamento. Quando expôs seu dilema ao afamado chassid Rabi Shmuel Ber de Barisov, este lhe disse: “Ouça, Grunem, são todos filhos do Rebe. São também amados, poderosos, e são todos santos. Mas deixe-me contar-lhe um incidente, e então faça como lhe aprouver.

“Durante uma de minhas visitas a Lubavitch, houve algo no discurso de nosso finado Rebe que achei difícil entender – parecia contradizer uma certa passagem em Êtz Chayim. Nenhum dos meus chassidim mais velhos foi capaz de dar uma resposta que me fosse satisfatória, então, naquela noite, fiz uma ronda entre os filhos do Rebe. Visitei Rabi Yehuda Leib, Rabi Chaim Schneur Zalman e os outros. Cada qual ofereceu-me uma explicação, mas novamente, nenhuma de suas idéias satisfez minha mente.

“Já era então tarde da noite. Encaminhava-me a meu alojamento quando percebi uma luz brilhando na janela de Rabi Shmuel. Não havia pensado em consultá-lo – ele é o mais jovem dos filhos e, como sabe, seu comportamento é próprio de um indivíduo comum e sem nada de especial. Entretanto, fiquei curioso para saber o que estaria fazendo àquela hora tão tardia. Então, perscrutei, colocando a cabeça para dentro da janela. O que vi foi Rabi Shmuel imerso na mesma seção de Êtz Chayim onde eu encontrava dificuldade! Percebi então que seria melhor entrar e discutir com ele.

“Contornei a casa até a porta e bati. ‘Só um minuto,’ respondeu ele. Após certo tempo a porta se abriu. Contemplei a cena: jornais estavam espalhados sobre a mesa, jornais alemães, jornais russos. Quanto ao Êtz Chayim, nem sinal.

“‘Reb Shmuel Ber! Um tanto tarde, não é?’ disse ele. ‘Como posso ajudá-lo?’

Contei-lhe minha dificuldade com o discurso que o Rebe havia feito aquele dia, e a passagem em Êtz Chayim. ‘Ah, Reb Shmuel Ber,’ disse ele, ‘dizem que é um judeu bem esperto. Ora, eu lhe pergunto, vem a mim com uma dúvida em Êtz Chayim…?’

“‘Escute, meu amigo,’ disse eu. Seu jogo acabou. Há cinco minutos, vi você com o Êtz Chayim. Agora, ou você me diz como o entende, ou caso contrário amanhã toda Lubavitch saberá dos truques interessantes que prega com seus jornais alemães.’

“Sentamo-nos e discutimos o problema até o dia clarear”, Rabi Shmuel Ber concluiu sua história, “e saí de lá completamente impressionado com a extensão e a profundidade de seu conhecimento. Isto é o que posso dizer-lhe, Grunem, agora faça como achar melhor…”

…Isso trouxe ainda mais problemas para Iosef no relacionamento com seus irmãos! “Vendo, pois, seus irmãos que seu pai o amava mais do que a todos eles, odiaram-no, e não podiam falar com ele pacificamente. Teve Iosef um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais” (Gn 37:4-5). Aqui temos a postura dos irmãos de Iosef quanto à sua pessoa. Ele não falavam com ele pacificamente. A palavra “falar” em hebraico é dabar e significa “falar, declarar, conversar”. Entendemos que já não havia mais um diálogo entre os irmãos e Iosef. Existe uma preposição de negação em hebraico que é aqui colocada: “lo”, que significa “não”. A palavra “pacificamente” é shalom e significa “paz, prosperidade, bem, saúde, inteireza, segurança”. Isso nos mostra o nível de palavras que estavam sendo ministradas pelos irmãos à Iosef! Suas palavras não eram de paz, prosperidade, bem, saúde, inteireza e segurança. Eles certamente falavam ocultamente sobre como proceder caso houvesse uma oportunidade de “livrarem-se” do incômodo irmão! E ainda haviam outros fatores que complicavam mais o relacionamento familiar entre Iosef e seus irmãos. Iosef, sonhava com revelações que o Eterno lhe transmitia e inocentemente as contava à seus irmãos! Isso causava um profundo desagrado à todos os demais irmãos de Iosef! O interessante é que a palavra “sonho” em hebraico é halam e significa “sonhar”; porém a palavra vem de uma raiz que significa “ser forte”. Há aqui uma revelação imensa para nossas vidas: assim como Iosef sonhava e se fortalecia a cada dia mais, devemos também proceder da mesma forma! Os sonhos não são somente projeções da alma humana, mas são também os veículos de comunicação que o Eterno D-us usa a fim de nos trazer à mente as realidades futuras que estão ainda em seu coração para nossas vidas. Certamente Iosef sonhava e continuamente “repassava” o sonho diante de si, vendo aquilo que ainda não existia; contemplando aquilo que era somente um sonho, mas que ele sabia poderia tornar-se parte integrante de sua vida! Iosef nunca deixou de sonhar e fortalecer assim seus laços com o Eterno e com sua alma, dizendo à si mesmo que Aquele que lhe implantara tal sonho em seu coração era poderoso para fazer com que se cumprisse aquilo da forma e no tempo que lhe aprouvesse!

Os sonhos de Iosef mostravam-no como alguém que estaria numa posição de liderança e também mostrava que muitos lhe estariam sujeitos neste tempo. Porém sua família não conseguia entender isso e revoltavam-se com ele por isso. “Teve Iosef um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais. E disse-lhes: Ouvi, peço-vos, este sonho, que tenho sonhado: eis que estávamos atando molhos no meio do campo, e eis que o meu molho se levantava, e também ficava em pé, e eis que os vossos molhos o rodeavam, e se inclinavam ao meu molho. Então lhe disseram seus irmãos: Tu, pois, deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós? Por isso ainda mais o odiavam por seus sonhos e por suas palavras” (Gn 37:5-8). Novamente aqui ocorre a expressão “lo shalom”, literalmente “não paz”. Como dissemos acima temos aqui um fato que demonstra que a disposição de coração dos irmãos de Iosef era totalmente contrária à ele e aquilo que era por ele dito.

Justamente por essas razões os irmãos de Iosef tinham ciúmes dele. “Seus irmãos, pois, o invejavam; seu pai porém guardava este negócio no seu coração” (Gn 37:11). A palavra “inveja” aqui é qana e significa “ter ciúme, ter inveja”. Esse verbo indica uma emoção muito forte em que o sujeito deseja alguma qualidade ou posse do objeto. Percebemos aqui que a atitude dos irmãos de Iosef era muito forte para com ele, pois eles realmente desejavam ser como ele! Certamente eles não tinham a simplicidade e a coragem de Iosef em ser ele mesmo, e isso lhes causava uma forte indignação que era manifesta através do ciúme, pois eles desejavam ter as qualidades de Iosef e certamente desejavam ser fortes como ele demonstrava ser em sua personalidade!

Os irmãos de Iosef foram apascentar os rebanhos de seu pai em Israel envia Iosef para ir ter com eles a fim de dar-lhe notícias sobre os filhos. “E seus irmãos foram apascentar o rebanho de seu pai, junto de Siquém. Disse, pois, Israel a Iosef: Não apascentam os teus irmãos junto de Siquém? Vem, e enviar-te-ei a eles. E ele respondeu: Eis-me aqui. E ele lhe disse: Ora vai, vê como estão teus irmãos, e como está o rebanho, e traze-me resposta. Assim o enviou do vale de Hebrom, e foi a Siquém. E achou-o um homem, porque eis que andava errante pelo campo, e perguntou-lhe o homem, dizendo: Que procuras? E ele disse: Procuro meus irmãos; dize-me, peço-te, onde eles apascentam. E disse aquele homem: Foram-se daqui; porque ouvi-os dizer: Vamos a Dotã. Iosef, pois, seguiu atrás de seus irmãos, e achou-os em Dotã” (Gn 37:12-17). Notemos a progressão dos fatos: os irmãos de Iosef estavam em Hebron e depois a Siquém. A palavra Hebron significa “confederação, associação, liga”. Vem da raiz habar que significa ser ajuntado, reunido, ter comunhão com. Isso parece demonstrar que os irmãos de Iosef estavam coesos e “fechados” em seu grupo, no qual deveriam certamente ter seus planos e finalidades. Tudo isso em unidade perfeita, pois tinham comunhão entre si. Depois disso vão até Siquém, que em hebraico significa “ombro, costas”. Novamente, parecem estar dano as costas para algo ou alguém! Certamente isso reflete sua atitude para com Iosef e seus sonhos!

        Quando Iosef encontra seus irmãos, encontra também um clima muito “pesado”, “carregado” quanto à sua presença ali. Mal sabia ele que seus irmãos já haviam delineado um plano a fim de “dar cabo” de sua vida! “E viram-no de longe e, antes que chegasse a eles, conspiraram contra ele para o matarem. E disseram um ao outro: Eis lá vem o sonhador-mor! Vinde, pois, agora, e matemo-lo, e lancemo-lo numa destas covas, e diremos: Uma fera o comeu; e veremos que será dos seus sonhos. E ouvindo-o Rúben, livrou-o das suas mãos, e disse: Não lhe tiremos a vida. Também lhes disse Rúben: Não derrameis sangue; lançai-o nesta cova, que está no deserto, e não lanceis mãos nele; isto disse para livrá-lo das mãos deles e para torná-lo a seu pai. E aconteceu que, chegando Iosef a seus irmãos, tiraram de Iosef a sua túnica, a túnica de várias cores, que trazia. E tomaram-no, e lançaram-no na cova; porém a cova estava vazia, não havia água nela” (Gênesis 37:18-24). Mal sabia Iosef que aqui iria ter início uma nova etapa em seu relacionamento com o Eterno e consigo mesmo! Seus irmãos o tratam como se ele nem humano fosse! Eles jogaram-no num poço qualquer à espera de uma decisão sobre o que fazer com este moço, que somente por um mero acaso era irmão deles!

Enquanto eles pensavam e conversavam sobre o destino de Iosef – parece que seus irmãos se reúnem como se pudessem decidir acerca da vida e da morte; parecem querer bancar “D-us” – uma coisa inesperada aconteceu: eles viram uma tropa de mercadores que se aproximava! “Depois assentaram-se a comer pão; e levantaram os seus olhos, e olharam, e eis que uma companhia de ismaelitas vinha de Gileade; e seus camelos traziam especiarias e bálsamo e mirra, e iam levá-los ao Egito” (Gn 37:25). Nesta companhia de ismaelitas – árabes- estava a esperança dos irmãos de Iosef em darem um fim ao irmão sonhador!

Quantas dores deve ter sentido o garoto sendo já jogado num poço como um animal sem qualquer valor; quanto mais agora que está para ser vendido como uma mercadoria qualquer num estabelecimento comercial! Estes fatos marcaram profundamente a alma de Iosef que certamente deve ter sofrido muito ao ver seus irmãos fazerem aquilo consigo. Mas o pior ainda estava por vir. “Passando, pois, os mercadores midianitas, tiraram e alçaram a Iosef da cova, e venderam Iosef por vinte moedas de prata, aos ismaelitas, os quais levaram Iosef ao Egito” (Gn 37:28). Agora, definitivamente, Iosef é vendido como um objeto e vai para o Egito para ali novamente ser negociado e ser comprado por alguém! A cena que deve ter ficado gravada na mente de Iosef certamente levou muito tempo para ser, pelo menos, amenizada em suas lembranças. Enquanto era vendido e depois levado pelos ismaelitas ele certamente deve ter implorado aos seus irmãos que não fizessem aquilo com ele. E eles não o escutaram; certamente até mesmo fingiram não saber que ele era seu irmão!

Após a venda de Iosef, os seus irmãos deveriam então preparar algo a fim de “enganar” Israel quanto a Iosef. “Então tomaram a túnica de Iosef, e mataram um cabrito, e tingiram a túnica no sangue. E enviaram a túnica de várias cores, mandando levá-la a seu pai, e disseram: Temos achado esta túnica; conhece agora se esta será ou não a túnica de teu filho. E conheceu-a, e disse: É a túnica de meu filho; uma fera o comeu; certamente Iosef foi despedaçado. Então Ia´aqov rasgou as suas vestes, pôs saco sobre os seus lombos e lamentou a seu filho muitos dias. E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; recusou porém ser consolado, e disse: Porquanto com choro hei de descer ao meu filho até à sepultura. Assim o chorou seu pai” (Gn 37:31-35). Os irmãos de Iosef tomaram um “cabrito”, em hebraico ‘ez, que significa “bode, cabra, cabrito”. Este animal forneceu o sangue para que a túnica de Iosef fosse “tingida”! A palavra “sangue” em hebraico é dam e significa “sangue; vermelho”. A túnica que Israel dera à Iosef como uma “marca” de distinção familiar agora retorna para ele recoberta de sangue! Israel toma um choque e num ímpeto rasga os seus vestidos, sentindo a dor da perda de seu filho querido!

Enquanto isso acontece, do outro lado, a história continua tomando rumos inesperados e Iosef passa para um novo estágio em sua “aventura” com o Eterno!

Já na vida quotidiana da família de Israel, outras coisas continuam a acontecer e seus filhos continuam a dar-lhe motivos para que ele se preocupe! A narrativa bíblica nos informa sobre a postura de Iehuda. “E aconteceu no mesmo tempo que Iehuda desceu de entre seus irmãos e entrou na casa de um homem de Adulão, cujo nome era Hira, e viu Iehuda ali a filha de um homem cananeu, cujo nome era Sua; e tomou-a por mulher, e a possuiu. E ela concebeu e deu à luz um filho, e chamou-lhe Er. E tornou a conceber e deu à luz um filho, e chamou-lhe Onã” (Gn 38:1-4). A primeira coisa que devemos perceber é que Iehuda vai à casa de um homem chamado Hira e ali vê uma mulher cananita. A palavra “ver” em hebraico é ra’ah e significa “ver, olhar, prestar atenção”. Iehuda certamente gastou tempo em contemplar aquela mulher e logo a toma por mulher. Seu nome é significativo. A palavra Sua em hebraico significa “depressão”. Parece que Iehuda teria grandes problemas por se casar com uma mulher cujo nome significa “depressão”. Nós bem sabemos que a depressão é uma “doença” que ataca a alma das pessoas causando-lhes males quase que irreparáveis! Mas Iehuda parece não se importar com isso e mesmo assim une-se à elea. A escritura não nos informa se seu pai – Israel – teve conhecimento e consentiu nessa união. O fato dele casar-se com uma mulher cananita já é muito sério! A palavra “cananita” em hebraico é kena’ani e significa “cananita, mercador, comerciante”. Dessa união nascem-lhe dois filhos: o primeiro chamou-se Er, que em hebraico significa “vigia”. O segundo chamou-se Onã que em hebraico significa “forte”. Parece que Iehuda tenta imprimir à personalidade de seus filhos um caráter profético – assim como fizera seu pai com ele e com seus irmãos – mas isso parece não dar resultado, pois há um profundo desagrado no coração do Eterno quanto aos filhos de Iehuda com essa mulher. “Er, porém, o primogênito de Iehuda, era mau aos olhos do IHVH, por isso o IHVH o matou” (Gn 38:7). Esta é uma porção muito forte da Escritura, onde nos é dito que Er era mau e a palavra “mau” aqui é ra’a e significa “ser ruim, ser mau”. A palavra traz a idéia de infortúnio, calamidade e também de perversidade. Isso demonstra o quanto o eterno se desagradava desse homem, pois sua conduta em nada poderia ser aprovada pelo Senhor, pois ele traz consigo em seus atos uma carga de infortúnio, calamidade e perversidade! Justamente o primogênito de Iehuda tinha de portar-se assim! Isso pareceu tão sério aos olhos do Senhor que ele o matou! A palavra que define o Eterno aqui é o tetragrama – IHVH – o que significa que o Eterno tornou-se aquilo que ele necessitava: juízo, que lhe trouxe a morte!

Já seu outro filho, Onã, agora deveria cumprir a lei do levirato, suscitando descendência masculina ao seu irmão. Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram! “Então disse Iehuda a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do IHVH, pelo que também o matou” (Gn 38:8-10). Onã aqui recebe uma ordem: suscita descendência ao teu irmão. A palavra “suscitar” é yabam e significa “cumprir o dever de cunhado”. O sentido básico desta palavra é “assumir” a responsabilidade de casar-se com a cunhada viúva a fim de suscitar um herdeiro homem para o irmão falecido. Isso não foi feito por Onã, que quando mantinha relações sexuais com sua cunhada, no momento da ejaculação fazia com que essa acontecesse fora da mulher. A isso chama-se de “coito interrompido”. E era feito assim justamente para evitar que houvesse a concepção e a geração de uma nova vida, o que certamente traria um descendente homem a uma descendência para Er que havia morrido. O fato certamente foi relatado à Iehuda, mas não somente ele e sua família tomaram conhecimento do que acontecia na intimidade daquele casal, mas também o Eterno, que ao ver a atitude de desobediência para com seus preceitos e também algo mais que provavelmente era um reflexo de seu relacionamento com seu irmão já morto, pois a sua recusa em suscitar descendência ao seu irmão demonstra que as coisas não deveriam andar muito bem entre eles e somente agora isso vem à tona, com sua morte e também com a obrigação de Onã em dar-lhe um descendente!

Isso foi tão mau – tanto aos olhos humanos quanto aos de D-us –  que o Eterno toma então providências radicais. Novamente a palavra que define o Eterno é o – IHVH – o tetragrama, que demonstra que o Eterno tornou-se aquilo que ele necessitava. Onã então é morto pelo Senhor. Parece algo muito duro de ser dito, mas a desobediência de Onã e a sua postura de coração para com os fatos apresentados certamente atraíram sobre ele o juízo do Senhor. A palavra “matar” em hebraico é mot e significa “matar, assassinar, mandar matar. Isso nos mostra que o próprio D-us pode tê-lo matado ou então enviou um emissário seu para executar esta tarefa!

Após tal fato ter acontecido, Iehuda pede à sua nora que espere até o tempo em que seu filho Selá – em hebraico, “Elevação” – atinja a maturidade e possa casar-se para que então ele assuma-a a fim de dar-lhe um filho. Mais uma vez as coisas não ocorreram como fora combinado entre eles! “Então disse Iehuda a Tamar sua nora: Fica-te viúva na casa de teu pai, até que Selá, meu filho, seja grande. Porquanto disse: Para que porventura não morra também este, como seus irmãos. Assim se foi Tamar e ficou na casa de seu pai. Passando-se pois muitos dias, morreu a filha de Sua, mulher de Iehuda; e depois de consolado Iehuda subiu aos tosquiadores das suas ovelhas em Timna, ele e Hira, seu amigo, o adulamita. E deram aviso a Tamar, dizendo: Eis que o teu sogro sobe a Timna, a tosquiar as suas ovelhas. Então ela tirou de sobre si os vestidos da sua viuvez e cobriu-se com o véu, e envolveu-se, e assentou-se à entrada das duas fontes que estão no caminho de Timna, porque via que Selá já era grande, e ela não lhe fora dada por mulher” (Gn 38:11-14) grifo nosso. Aqui é que Tamar tem uma idéia ousada, mas que irá realmente mostrar à Iehuda que sua postura não foi correta para com ela. Ela sentou-se disfarçada de prostituta e Iehuda vendo-a não a reconhece e entra a ela a fim de possuí-la! “E vendo-a Iehuda, teve-a por uma prostituta, porque ela tinha coberto o seu rosto. E dirigiu-se a ela no caminho, e disse: Vem, peço-te, deixa-me possuir-te. Porquanto não sabia que era sua nora. E ela disse: Que darás, para que possuas a mim? E ele disse: Eu te enviarei um cabrito do rebanho. E ela disse: Dar-me-ás penhor até que o envies?” (Gn 38:15-17).

Tamar usa de um artifício a fim de fazer com que fosse reconhecido o homem que estivera consigo acaso ela concebesse nesta relação sexual. Ela toma como penhor de Iehuda os objetos que eram particulares e que certamente identificavam o seu proprietário! “Então ele disse: Que penhor é que te darei? E ela disse: O teu selo, e o teu cordão, e o cajado que está em tua mão. O que ele lhe deu, e possuiu-a, e ela concebeu dele” (Gn 38:18). Tamar pede de Iehuda justamente seu “selo”, que em hebraico é hotam e significa “selo, sinete”. Era usado para autenticar um documento. Também pegou dele o seu “cordão”. Esta palavra em hebraico é patil e significa “corda, fio, linha”. Por fim ela pega também o seu cajado. A palavra “cajado” em hebraico é matteh e significa “vara, bordão, bastão, haste, tribo”. O seu poder (autoridade) estava no cajado! Tamar pede de Iehuda como penhor as coisas que o identificavam e que atestavam quem ele ela e também a sua autoridade! Agora tudo isso estava em suas mãos e Iehuda fora “despojado” daquilo que lhe era mais precioso e que de forma nenhuma deveria ser dado à ninguém! Mas Iehuda, no ímpeto de possuir aquela mulher cede à concupiscência de sua carne e lhe entrega aquilo que o Eterno lhe concedera como um presente! Iehuda, de certa forma, desprezou-as quando as deu à Tamar!

Após o fato ocorrido, passaram-se três meses e então apareceu o resultado deste encontro: Tamar estava realmente grávida! Mas isso produziu uma situação muito desagradável entre eles, pois Tamar era viúva e agora aparecera grávida! Agora a Torah deveria ser aplicada ao seu caso, que era de fornicação e a punição seria a morte. “E aconteceu que, quase três meses depois, deram aviso a Iehuda, dizendo: Tamar, tua nora, adulterou, e eis que está grávida do adultério. Então disse Iehuda: Tirai-a fora para que seja queimada. E tirando-a fora, ela mandou dizer a seu sogro: Do homem de quem são estas coisas eu concebi. E ela disse mais: Conhece, peço-te, de quem é este selo, e este cordão, e este cajado. E conheceu-os Iehuda e disse: Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá meu filho. E nunca mais a conheceu” (Gn 38:24-26). Quando foi dado o aviso à Iehuda sobre Tamar, disseram-lhe que Tamar havia “adulterado”. A palavra usada aqui em hebraico é zana e significa “cometer fornicação, praticar prostituição”. Isso eqüivale a dizer que ela havia deixado para trás qualquer ordenança e determinação e buscado uma solução por si só e fora da Torah! Mas o que realmente acontecera fora que Tamar buscara uma solução para uma promessa não-cumprida de suscitar à seu marido a descendência que lhe era de direito. Então ela, usando de um artifício, fizera que seu sogro lhe desse aquilo que os seus filhos não puderam dar-lhe: um filho! Quando Iehuda reconhece seus objetos, então ele cai em si e lembra-se da promessa não cumprida, e com isso ele também reconhece que havia agido injustamente para com Tamar e agora precisava “consertar” esta situação. Ela então não deveria ser condenada à pena de morte, mas sim honrada como uma mulher justa! Aprendemos que os filhos resultantes desta união foram Perez e Zerá. Da descendência de Perez vieram aqueles que entrariam na rota para trazerem à existência Ieshua o Messias! Que caminhos tem o Eterno para demonstrar sua justiça e sua vontade! Foi justamente através dessa mulher – nora de Iehuda – que vieram filhos justos e que agradaram ao coração do Eterno e assim entraram na linha de descendência do Mashiach.

Agora a Escritura retorna ao nosso personagem: Iosef! “E Iosef foi levado ao Egito, e Potifar, oficial de Faraó, capitão da guarda, homem egípcio, comprou-o da mão dos ismaelitas que o tinham levado lá” (Gn 39:1). A palavra “levado” em hebraico é yarad e significa “descer, ir para baixo, baixar”. Sempre que encontramos a palavra Egito na Escritura há uma associação com o verbo “descer”. Isso nos mostra que o Egito é um lugar onde as pessoas então numa condição inferior àquelas que estão em outras posições. Sabemos que o Egito é um símbolo do mundo e que as pessoas que ainda estão “no mundo” certamente estão numa posição inferior, se comparadas com aquelas que são filhos de D-us e também obedientes à sua palavra. O mais interessante nesta situação é que Iosef precisou descer ao Egito! Não era possível prová-lo em sua própria terra, na casa de seus familiares. O Eterno precisou fazê-lo descer a fim de poder prepará-lo para o seu verdadeiro chamado! Muitas vezes somos levados pelo Eterno a descer ao Egito. Isso nos fala de momentos nos quais nós perdemos momentaneamente nossas posições, bens, amigos, irmãos e tudo o que nos liga à nosso passado e família! É ali e então que o Eterno inicia um processo de profundo tratamento com aqueles a quem Ele escolhe para cumprirem um chamado especial: o de serem servos tão bons, que por fim se transformarão em grandes líderes e até senhores em terras alheias!

A seguir a Escritura nos mostra como Iosef era temente ao Eterno e as consequências disso no Egito. “E o IHVH estava com Iosef, e foi homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio” (Gn 39:2). A primeira coisa interessante que notamos aqui é que a palavra que define o Eterno em hebraico é o tetragrama! Isso novamente nos fala que Ele tornou-se aquilo que Iosef precisava! Neste caso Ele trouxe a Iosef sucesso naquilo que ele fazia! A palavra “prosperidade” em hebraico é tsalach e significa “vencer, ter sucesso, ser útil, dar bom resultado, experimentar abundância”. Nós percebemos que o sucesso de Iosef estava atrelado à sua relação de intimidade com o Eterno. Isso fez com que seu trabalho produzisse resultados extraordinários, muito além da expectativa de seu senhor egípcio. Ele trouxe para seu senhor a experiência da abundância e a razão para isso acontecer foi por que o Eterno – IHVH – estava com ele de tal forma que suas necessidades eram supridas de forma imediata. Mas isso aconteceu porque Iosef era fiel ao Eterno e mantinha uma profunda comunhão com o D-us de Israel, seu pai! Isso fez com que Iosef obtivesse um profundo respeito e confiança de seu senhor egípcio! Nós deveríamos aprender com Iosef a termos uma postura tal diante dos nossos “senhores egípcios” que eles mesmos pudessem verificar que, através de nossa fidelidade e comunhão com o Eterno tudo o que fosse colocado em nossas mãos geraria os melhores resultados! Esse é o verdadeiro significado de tsalach, pois aí há a combinação de trabalho com a presença do Eterno, que transforma esse trabalho em grande abundância! “Vendo, pois, o seu senhor que o IHVH estava com ele, e tudo o que fazia o IHVH prosperava em sua mão, Iosef achou graça em seus olhos, e servia-o; e ele o pôs sobre a sua casa, e entregou na sua mão tudo o que tinha” (Gn 39:3-4). Iosef recebeu uma posição ou cargo de confiança baseado em dois aspectos fundamentais para o sucesso: competência e a aprovação do Eterno! Essas duas coisas fizeram de Iosef o segundo – ou vice-diretor, gerente – da casa de seu senhor!

        Mas o sucesso às vezes atrai também os olhos de pessoas que estão muito mal intencionadas e querem nos derrubar e acabar com nosso relacionamento com o Eterno. Iosef era um homem “vistoso” fisicamente e isso fez com que houvessem olhares maliciosos sobre ele! “E deixou tudo o que tinha na mão de Iosef, de maneira que nada sabia do que estava com ele, a não ser do pão que comia. E Iosef era formoso de porte, e de semblante” (Gn 39:6). Aqui a palavra “formoso” é yapeh e significa “belo, lindo”. A palavra denota “beleza no sentido de aparência exterior”. O inimigo tenta então de várias maneiras nos “seduzir” a fim de que abdiquemos de nosso relacionamento com o Eterno e possuamos aquilo que nos é oferecido de forma muito fácil. Daí surgem o pecado da corrupção, da cobiça que nos fazem decair de nossa posição de justiça diante de D-us e que também dá direito legal ao inimigo para operar em nossas vidas. Isso foi o que tentou o inimigo fazer com Iosef. Só que Iosef não cedeu à estas tentações e permaneceu firme em sua posição. As tentativas vieram de uma pessoa muito próxima dele: sua senhora (esposa de seu senhor egípcio). Não conseguindo fazer com que Iosef pecasse, ela então usou do recurso da mentira a fim de derrubar Iosef. E assim foi feito. “E aconteceu depois destas coisas que a mulher do seu senhor pôs os seus olhos em Iosef, e disse: Deita-te comigo. Porém ele recusou, e disse à mulher do seu senhor: Eis que o meu senhor não sabe do que há em casa comigo, e entregou em minha mão tudo o que tem; ninguém há maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porquanto tu és sua mulher; como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Elohim? E aconteceu que, falando ela cada dia a Iosef, e não lhe dando ele ouvidos, para deitar-se com ela, e estar com ela, sucedeu num certo dia que ele veio à casa para fazer seu serviço; e nenhum dos da casa estava ali; e ela lhe pegou pela sua roupa, dizendo: Deita-te comigo. E ele deixou a sua roupa na mão dela, e fugiu, e saiu para fora. E aconteceu que, vendo ela que deixara a sua roupa em sua mão, e fugira para fora, chamou aos homens de sua casa, e falou-lhes, dizendo: Vede, meu marido trouxe-nos um homem hebreu para escarnecer de nós; veio a mim para deitar-se comigo, e eu gritei com grande voz; e aconteceu que, ouvindo ele que eu levantava a minha voz e gritava, deixou a sua roupa comigo, e fugiu, e saiu para fora. E ela pôs a sua roupa perto de si, até que o seu Senhor voltou à sua casa. Então falou-lhe conforme as mesmas palavras, dizendo: Veio a mim o servo hebreu, que nos trouxeste, para escarnecer de mim, e aconteceu que, levantando eu a minha voz e gritando, ele deixou a sua roupa comigo, e fugiu para fora” (Gn 39:7-18).

Após os fatos terem decorrido, vem então a resposta de seu senhor, Potifar quanto ao fato que havia sucedido: “E aconteceu que, ouvindo o seu senhor as palavras de sua mulher, que lhe falava, dizendo: Conforme a estas mesmas palavras me fez teu servo, a sua ira se acendeu” (Gn 39:19). A mulher de Potifar fala sobre Iosef como “teu (de seu marido) “servo”, que em hebraico é ebed, e significa “servo, escravo”. Esta fala incita-lhe a ira. A palavra “ira” em hebraico é ‘ap e significa “narina, face, ira”. A palavra dá ênfase específica ao aspecto emocional da ira e do furor. A Escritura nos fala aqui sobre a reação visível de Potifar quando soube o que havia acontecido! Houve uma transformação em seu semblante e ficou claro que ele recebera essa notícia de uma forma muito negativa!

Mas, apesar do quadro tão confuso e de certa forma “negro” que se apresenta na vida de Iosef, o Eterno continuava a cuidar de seu servo! “O IHVH, porém, estava com Iosef, e estendeu sobre ele a sua benignidade, e deu-lhe graça aos olhos do carcereiro-mor” (Gn 39:21). Aqui temos o nome do é IHVH – aquele que se torna aquilo que a pessoa precisa – e Ele agora traz sobre Iosef a “benignidade”. A palavra em hebraico é hesed, e significa “bondade, bondade amorosa, misericórdia”. Tal coisa foi dada ao carcereiro-mor a fim de que tratasse Iosef com a devida dignidade, pois apesar de estar preso continuava sendo um homem justo! Iosef estava na prisão não por ter cometido algum crime, mas sim por ter se recusado a dar lugar à propostas que iam contra seus princípios éticos e morais – sem dizer dos religiosos – e por isso, por recusar-se a dobrar-se ante às propostas mundanas ele recebe como prêmio a cadeia! No entanto, ali o Eterno estava tratando de Iosef e dando-lhe a oportunidade de levar à outros o conhecimento do D-us de seu pai Israel! E até mesmo na cadeia Iosef conservava sua conduta de justiça e isso fazia com que ele prosperasse em tudo o que recebia para fazer. “E o carcereiro-mor não teve cuidado de nenhuma coisa que estava na mão dele, porquanto o IHVH estava com ele, e tudo o que fazia o IHVH prosperava” (Gn 39:23). Novamente aqui temos duas palavras chave para o sucesso de Iosef: IHVH (o tetragrama) e também tsalach que significa “vencer, ter sucesso, ser útil, dar bom resultado, experimentar abundância”. Isso trouxe à Iosef – mesmo preso – o sucesso e os bons resultados em seus afazeres diários.

Agora Iosef demonstra uma outra habilidade que até então era desconhecida: a habilidade de interpretar sonhos! Iosef ouve os sonhos de dois de seus companheiros – presos – e os interpreta: “E eles lhe disseram: Tivemos um sonho, e ninguém há que o interprete. E Iosef disse-lhes: Não são de Elohim as interpretações? Contai-mo, peço-vos. Então contou o copeiro-mor o seu sonho a Iosef, e disse-lhe: Eis que em meu sonho havia uma vide diante da minha face. E na vide três sarmentos, e brotando ela, a sua flor saía, e os seus cachos amadureciam em uvas; e o copo de Faraó estava na minha mão, e eu tomava as uvas, e as espremia no copo de Faraó, e dava o copo na mão de Faraó. Então disse-lhe Iosef: Esta é a sua interpretação: Os três sarmentos são três dias; dentro ainda de três dias Faraó levantará a tua cabeça, e te restaurará ao teu estado, e darás o copo de Faraó na sua mão, conforme o costume antigo, quando eras seu copeiro” (Gn 40:8-13). Na interpretação do primeiro sonho Iosef dá ao copeiro a esperança de que ele seria restaurado ao seu cargo original. Isso certamente alegrou muito ao coração daquele homem! Mas já no segundo caso, a notícia não seria tão agradável: “Vendo então o padeiro-mor que tinha interpretado bem, disse a Iosef: Eu também sonhei, e eis que três cestos brancos estavam sobre a minha cabeça; e no cesto mais alto havia de todos os manjares de Faraó, obra de padeiro; e as aves o comiam do cesto, de sobre a minha cabeça. Então respondeu Iosef, e disse: Esta é a sua interpretação: Os três cestos são três dias; dentro ainda de três dias Faraó tirará a tua cabeça e te pendurará num pau, e as aves comerão a tua carne de sobre ti” (Gn 40:16-19). A um deles veio a notícia de que seria restaurado, já ao outro veio a notícia de sua morte! E assim como Iosef havia interpretado os sonhos o Eterno faz então cumprir!

O resultado foi o seguinte: “E aconteceu ao terceiro dia, o dia do nascimento de Faraó, que fez um banquete a todos os seus servos; e levantou a cabeça do copeiro-mor, e a cabeça do padeiro-mor, no meio dos seus servos. E fez tornar o copeiro-mor ao seu ofício de copeiro, e este deu o copo na mão de Faraó, mas ao padeiro-mor enforcou, como Iosef havia interpretado. O copeiro-mor, porém, não se lembrou de Iosef, antes se esqueceu dele” (Gn 40:23) Iosef demonstra ter uma comunhão tremenda com o Altíssimo, pois o resultado agora torna-se visível. Tudo o que ele dissera aconteceu! Mas, para seu desespero, ele havia sido “esquecido” pelo homem a quem profetizara sua soltura! Mesmo assim Iosef continua a manter sua postura e sua conduta e isso faria com que o Eterno o levasse a uma posição muito mais exaltada do que ele sequer sonhara!

Aprendemos com Iosef a não desistirmos de nossos sonhos, ainda que todas as coisas pareçam estar “presas” e nada estar acontecendo! Mesmo assim nós temos a plena certeza de que o Eterno está trabalhando nos bastidores por nós e preparando o momento certo para que surjamos e então tomemos posse daquilo que nos foi preparado por Ele.

Que nossas vidas sejam plenas em justiça e comunhão com o Eterno em todos os nossos dias!

Mário Moreno.