Algo corriqueiro, não é?

Mário Moreno/ novembro 5, 2026/ Artigos

Avraham ouviu Efron e pesou para ele a prata que havia mencionado diante dos filhos de Het: 400 siclos de prata, aceitos pelo comerciante. Algo corriqueiro, certo? É possível visualizar a cena: um grande grupo de pessoas comuns cuidando de seus afazeres diários — comprando, vendendo, conversando, lidando com seus filhos — enquanto um homem, um verdadeiro “príncipe”, está ali negociando com o proprietário o direito de sepultar sua esposa em uma caverna, na época ainda desconhecida. Para aquelas pessoas, não havia nada de extraordinário ali; mas, para Avraham, aquilo estava abaixo de sua dignidade.

No entanto, eis o que o GR”A tem a dizer sobre isso:

Trata-se dos 400 mundos que os “tzaddikim” (justos) herdarão no mundo vindouro, a partir daquela “Chivarta” (brancura). Como está escrito na “Idra Rabba”, 128b: 400.000 mundos emanam da “brancura” do crânio de “Arich Anpin”; e, a partir da luz dessa “brancura”, os justos herdarão 400 mundos no tempo futuro. Encontramos uma alusão a isso no que a Torah registra: “400 siclos de prata, aceitos pelo comerciante”. (“Biur HaGR”A”, “Sifra D’Tzniusa”, cap. 1, p. 19c)

Se você estuda Kabalah e reconhece todos esses termos, aproveite. Se não, por onde começar, senão pelo início?

A luz original de D-us, chamada “Ohr Ain Sof” (Luz Sem Fim), é espiritualmente intensa demais para permitir a existência de qualquer outra coisa que não seja ela mesma. Por isso, D-us reduz sua intensidade para possibilitar a existência da Criação e conferir ao ser humano o livre-arbítrio. O sistema que Ele criou para realizar isso é composto pelas “Sefirot” e “Partzufim” — estruturas numerosas, com as mais variadas denominações, que desempenham diversas funções com o único propósito de concretizar a vontade de D-us. Esta é a discussão central nos domínios da Kabalah.

Não por acaso, as sefirot estão estruturadas como um corpo humano — não fisicamente, mas espiritualmente. Assim, as três primeiras — Keter, Chochmá e Biná — funcionam como as três partes do nosso cérebro. Keter, por ser a mais elevada, desempenha também o papel do crânio, no contexto das sefirot. Pois, embora percebamos as partes do nosso corpo em termos físicos, elas são, na verdade, definidas primordialmente por sua função.

Cada parte do corpo encontra representação nas sefirot em algum nível; de modo geral, Chessed corresponde a todo o braço direito, do ombro à ponta dos dedos. Guevurá corresponde a todo o braço esquerdo, e Tiferet equivale ao tronco — a parte do corpo que vai da cintura ao pescoço. Os órgãos internos também estão representados, mas, em vez de fluidos corporais, o que circula por eles é a luz Divina. Tudo isso existe apenas para sustentar a Criação e permitir que a história siga seu curso, sempre em conformidade com a vontade de D-us.

Em seguida, temos Netzach, que representa a perna direita; Hod, a perna esquerda; e Iesod, o órgão reprodutor — a principal via pela qual a luz Divina flui de dentro do sistema para o mundo em que vivemos. Malchut, de modo geral, é considerada a “terra” sobre a qual toda a estrutura se apoia.

Se você observar o topo da sua cabeça, notará que o couro cabeludo é claro (a menos que você seja careca e tenha se bronzeado ali). No ser humano, trata-se apenas de pele oculta sob o cabelo; mas, nas sefirot, isso representa um nível elevadíssimo de luz — uma luz que, hoje, só alcançamos após um processo de filtragem extrema, mas que, no Mundo Vindouro, será vivenciada de forma muito mais direta. Atualmente, sentimos mais prazer ao saborear um bom hambúrguer, uma salada ou algo realmente divertido; mas, acredite ou não, isso é apenas uma fração do prazer que se pode obter da luz Divina direta. Neste mundo, se você perguntasse a alguém: “Um bife delicioso ou D-us?”… Muitas pessoas talvez precisem refletir um pouco sobre isso.

Mas não no Mundo Vindouro. Nem mesmo na Era Messiânica, quando finalmente poderemos ver como é a luz de D-us, sem tantos filtros. Então, ninguém terá dúvidas sobre qual prazer é maior. Ainda desfrutaremos de um bom bife, mas nem de longe tanto quanto ao vivenciar níveis mais elevados da luz Divina. Neste mundo, algumas pessoas mais afortunadas e espiritualmente inclinadas conseguem provar um pouco dessa luz de tempos em tempos, e elas já escolhem o prazer espiritual em detrimento do prazer físico.

Na verdade, essa não é a questão central agora. O ponto que queremos destacar é como algo tão mundano, como uma transação comercial, pode ter consequências espirituais fenomenais. O mundo físico está completamente entrelaçado com o espiritual; quando algo se move aqui embaixo, isso provoca um movimento lá em cima — e vice-versa. Contudo, isso ocorre de uma forma tão oculta que não percebemos; acabamos nos entusiasmando apenas com aquilo que atrai nossos sentidos no aqui e agora.

Obviamente, ainda restam pelo menos “400” perguntas — talvez até “400.000”. O GR”A explica tudo isso em seu comentário, e o “Sha’arei Chochmah” — um comentário sobre o comentário dele — complementa o que o GR”A deixou de fora. Se você se dedicar ao estudo, também poderá compreender. Mas, por ora, o objetivo principal é ilustrar como algo aparentemente tão simples e direto na Torah pode aludir aos mais profundos segredos cabalísticos. Você ficaria surpreso — na verdade, maravilhado.

Tradução: Mário Moreno.

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