Avraham ouviu Efron e pesou para ele a prata que havia mencionado diante dos filhos de Het: 400 siclos de prata, aceitos pelo comerciante. Algo corriqueiro, certo? É possível visualizar a cena: um grande grupo de pessoas comuns cuidando de seus afazeres diários — comprando, vendendo, conversando, lidando com seus filhos — enquanto um homem, um verdadeiro “príncipe”, está ali negociando com o proprietário o direito de sepultar sua esposa em uma caverna, na época ainda desconhecida. Para aquelas pessoas, não havia nada de extraordinário ali; mas, para Avraham, aquilo estava abaixo de sua dignidade. No entanto, eis o que o GR”A tem a dizer sobre isso: Trata-se dos 400 mundos que os “tzaddikim” (justos) herdarão no mundo vindouro, a partir daquela “Chivarta” (brancura). Como está escrito na “Idra Rabba”, 128b: 400.000 mundos emanam da “brancura” do crânio de “Arich Anpin”; e, a partir da luz dessa “brancura”, os justos herdarão 400 mundos no tempo futuro. Encontramos uma alusão a isso no que a Torah registra: “400 siclos de prata, aceitos pelo comerciante”. (“Biur HaGR”A”, “Sifra D’Tzniusa”, cap. 1, p. 19c) Se você estuda Kabalah e reconhece todos esses termos, aproveite. Se não, por onde começar, senão pelo início? A luz original de D-us, chamada “Ohr Ain Sof” (Luz Sem Fim), é espiritualmente intensa demais para permitir a existência de qualquer outra coisa que não seja ela mesma.
Há algumas semanas, escrevi sobre Ismael. Na verdade, escrevi sobre sua mãe, e o texto não foi muito gentil com ela. Recebi dezenas de e-mails: alguns elogiando o texto, outros criticando-o por não ser contundente o suficiente e outros, ainda, condenando-o, chegando a sugerir que beirava o racismo. Hoje, volto a escrever sobre Ismael. Mas, antes que você se prepare para o embate, adianto que não falarei do Ismael bíblico, e sim de seu homônimo: o Rabino Ismael. Acontece que um dos grandes sábios do Talmud chamava-se Rabino Ismael — um fato que talvez choque nossos leitores mais refinados. De fato, o Talmud está repleto de citações do Rabino Ismael. Mas como ele recebeu esse nome? Afinal, por que alguém daria a seu filho o nome daquele “homem indomável, cuja mão está contra todos, e a mão de todos está contra ele” (Gn 16.11)? As opiniões do Rabino Ismael estão entre as mais significativas de todo o Talmud; contudo, seu nome não parece ser, à primeira vista, um nome rabínico. Ou será que há algo mais sobre Ismael do que realmente sabemos? A resposta é bastante simples. Ela se baseia em duas palavras na Torah: “Isaac e Ismael”. Deixe-me situá-las no contexto. A Torah nos conta: “Avraham expirou e morreu em uma boa velhice, maduro e satisfeito, e foi reunido ao seu povo. Seus filhos, Isaac e Ismael,
Para enriquecer a sonoridade do texto para seu público, os autores bíblicos exploraram as profundezas do léxico hebraico em busca de palavras raras e aliterativas — algumas das quais aparecem apenas uma vez na Bíblia. Um “hapax legomenon” (ou “hapax”, abreviadamente; plural: “hapax legomena”) é uma palavra que ocorre apenas uma vez em um determinado “corpus” literário. Derivado da expressão grega “ἅπαξ λεγόμενον”, que significa “dito uma vez” ou “pronunciado uma vez”, o termo foi cunhado por estudiosos de Homero em Alexandria, durante o período helenístico, enquanto analisavam a “Ilíada” e a “Odisseia”.[1] Provavelmente sob a influência da tradição acadêmica grega — que perdurou até o início da Idade Média —, o esforço para identificar, explicar e definir os “hapax legomena” chegou aos estudiosos do hebraico por volta do século X d.C. Saʿadya Gaon (882‒942) escreveu a primeira obra dedicada a palavras que aparecem apenas uma vez na Bíblia: “Kitab al-Sabʿin Lafẓah” (traduzido para o hebraico como “Pitron Shivʿim Millim”, ou “O Livro das Setenta Palavras”).[2] Os estudiosos medievais criaram diversas expressões para designar tais palavras únicas: “ein lo ach” (“não tem irmão”); “ein lo reaʿ” (“não tem companheiro”); “ein lo dimyon” (“não tem equivalente”); e assim por diante.[3] O estudo dessas palavras singulares continuou na era moderna, começando com um artigo pioneiro do notável Abraham S. Yahuda (1877–1951)[4] — a primeira pessoa a ocupar uma cátedra acadêmica
Na Parashá Vayerá, Sarah, a esposa de Avraham, aos 90 anos, recebe uma informação surpreendente de uma fonte ainda mais inesperada. Nômades — que encontraram acolhida na casa de Avraham — dizem a ela que, dentro de um ano, ela terá um filho. Instintivamente, ela reage com descrença a essa previsão. Ela ri. Imediatamente, Hashem aparece para Avraham. Ele está contrariado: “Por que Sarah riu? Haveria algo que estivesse além do Todo-Poderoso? No tempo determinado, retornarei, e eis que Sarah terá um filho” (Gn 18.12-13). A indignação de Hashem precisa ser explicada. Afinal, não foi o próprio Hashem quem disse a Sarah que ela teria um bebê; a informação veio de pessoas que pareciam ser apenas nômades. E, embora o Talmud explique que esses três nômades eram, na verdade, anjos enviados pelo Todo-Poderoso, eles não se identificaram como tal. Então, o que D’us esperava de Sarah? Certa vez, um homem entrou no pequeno escritório do reverenciado Steipler Gaon, Rabi Yaakov Yisrael Kanievski, com um pedido: “Gostaria de uma bênção do Rav. Minha filha está tentando se casar há vários anos. Todas as amigas dela já se casaram, e ela também deseja se casar, mas nada dá certo. O Rosh Yeshivá poderia abençoá-la para que ela encontre sua “bashert” (sua alma gêmea)?” O Steipler voltou-se para o homem e perguntou: “Esta é a sua primeira filha?” “Não”, respondeu o
D-us disse a Avram: “Parta… e Eu tornarei o seu nome grande”. O “Brit Milá” (circuncisão) mudou tudo. Isso não fica tão claro na “parashá” (leitura semanal da Torah), mas ficará evidente ao final da história. A narrativa continua de onde parou na semana passada — assim como os participantes de um “Brit” seguem para a “seudá” (refeição festiva) logo após a cerimônia, sem refletir muito sobre o que acabou de acontecer. Foi apenas mais um “Brit” — e, de fato, foi; milhões deles foram realizados desde que Avraham cumpriu o primeiro. Com esse rito de passagem, mais um menino foi introduzido na aliança original. Tudo isso é verdade, mas há muito mais envolvido. Se você não compreende como a história funciona, o significado do “Brit” lhe escapará. Isso ocorre porque grande parte do que o “Brit” realiza no mundo acontece abaixo da superfície, nos bastidores. É preciso olhar mais a fundo para perceber os impactos incrivelmente dinâmicos que um único “Brit” exerce sobre a Criação e a retificação do mundo. Yechezkel (Ezequiel), ao falar sobre a redenção final, diz: “E lhes darei um novo coração, e um novo espírito porei dentro de vocês; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” (Ez 36.26) Obviamente, o profeta não estava se referindo a uma cirurgia cardíaca em escala nacional — pelo menos
E ele (Avraham) creu em Hashem, e Ele considerou isso para ele como “tzedaká” (justiça/retidão). (Gn 15.6) E ele (Avraham) creu em Hashem: ele não Lhe pediu um sinal a esse respeito; contudo, no que tange à herança da terra, ele pediu um sinal, dizendo: “Como saberei?” – Rashi Eis um daqueles episódios na história judaica que, se a Torah não nos tivesse revelado, teria passado despercebido pela consciência humana. Houve um diálogo direto entre Hashem e Avraham a respeito de ele ter filhos. Hashem acabara de prometer a Avraham que sua descendência seria como as estrelas. Ele creu em Hashem. Seu coração encontrou, então, serenidade e sossego. Avraham não proferiu uma única palavra. Hashem, que lê o coração de Avraham, considera que Avraham praticou “tzedaká”. Com quem, afinal, Avraham praticou “tzedaká”? Se eu não tivesse ouvido isso de um dos meus “rebeim” (mestres), teria receio de dizê-lo em voz alta. Considera-se que Avraham praticou “tzedaká” com Hashem. Mas como podemos praticar “tzedaká” com Hashem? Hashem é onisciente e perfeito, para além de qualquer medida de perfeição. É verdade que Hashem sabe tudo; contudo, justamente por isso, existe algo que um ser humano pode fazer e que Hashem — por assim dizer — não pode fazer por Si mesmo: confiar e crer em Hashem. É isso que o homem pode oferecer a Hashem. “Emuná” (fé) não é uma
Hashem possui diferentes maneiras de Se revelar aos seres humanos mortais. A Torah nos diz que Moshé era especial. A revelação de Moshé foi descrita como sendo “face a face”. Outros, contudo, viram Hashem por meio de uma visão. Nesta semana, a Torah nos relata a visão de Avram. Trata-se de algo que vai além de uma simples visão; na verdade, é uma experiência extremamente vívida. “E a palavra de Hashem veio a Avram em uma visão: ‘Não temas, Avram’. E Ele levou Avram para fora e disse: ‘Conta as estrelas, se fores capaz de contá-las… Assim será a tua descendência’” (Gn 15.1-5). Avram sai e tenta contar as estrelas. Depois, ele retorna, e a Torah nos conta que Avram tem uma outra visão. Esta, contudo, manifesta-se de uma forma diferente: “o sol pôs-se, e um sono profundo caiu sobre Avram; e eis que um temor sombrio desceu sobre ele” (Gn 15.12). É interessante notar o contraste entre as duas visões. A primeira parece dinâmica e esperançosa. A segunda começa com uma sensação de desgraça. Os comentários explicam que a primeira visão trouxe a boa nova sobre o crescimento e a prosperidade futura dos descendentes de Avram. A segunda visão previu a desgraça e o exílio do povo judeu no Egito. É por isso que Avram estremeceu. Mas parece que Avram estremeceu — no momento em que “um
D-us disse a Avram: “Vai… e farei com que o teu nome seja grande…” (Gn 12.1–2). Espere um pouco: ter um nome não era, por acaso, o problema com as pessoas que construíram a Torre de Babel? Elas disseram: “Vamos, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus, e façamos para nós um nome…” D-us disse: “[Eles são] um só povo, e todos falam uma única língua; e é isto que começaram a fazer?” (Gn 11.4, 6). A diferença é sutil, mas importante. D-us não falou em criar um nome para Avram — da mesma forma que o povo da torre planejou fazer para si mesmo. D-us apenas prometeu tornar o nome que Avram já possuía maior, mais grandioso. É uma distinção importante. As pessoas frequentemente falam sobre “fazer um nome” para si mesmas neste mundo. Da mesma forma, falam sobre deixar sua marca na história. Elas parecem nutrir o medo de serem esquecidas após a morte, ou de passarem despercebidas enquanto ainda estão vivas. Construir um nome para si torna-se uma forma de autoafirmação. Essa, evidentemente, não é uma ideia estranha à tradição judaica. A Mishná, em “Pirkei Avot”, aborda o tema: Quem adquire um bom nome, adquire algo para si mesmo. (“Pirkei Avot” 2:5) Rabbi Shimon diz: Existem três coroas — a coroa da Torah, a coroa do sacerdócio e a
“E Sarai era estéril; não tinha filhos” (Gn 11.30). Formei-me na faculdade há mais de 46 anos e, na época, trabalhava no meu primeiro emprego de verdade: era orientador profissional e professor de um programa de conclusão do ensino médio para jovens porto-riquenhos que haviam abandonado os estudos, no Bronx. Para inspirar os alunos, costumávamos convidar palestrantes que pudessem explicar como conseguiram superar suas circunstâncias de origem e seguir em frente. Certa vez, fiz o convite a um homem — um cavalheiro elegantemente vestido e muito articulado. Ele aceitou, mas impôs uma condição: o encontro com os alunos deveria ocorrer no Metropolitan Museum of Art, onde ele havia trabalhado como curador. Concordei e, numa terça-feira de manhã, levamos 80 alunos em dois ônibus até lá. Eu mal sabia que minha vida estava prestes a mudar. Ele nos mostrou exemplos de arte negra, indígena e espanhola. Depois, pediu que todos nos sentássemos no chão de mármore daquelas salas imponentes do Metropolitan Museum of Art e começou a falar com uma cadência quase de sermão. Com grande eloquência e profundidade, ele explicou: “Trouxe vocês aqui e apresentei estas culturas e suas artes porque a identidade porto-riquenha é composta por esses três elementos. Sei que, às vezes, ao se olharem no espelho, o lado negro em vocês não aceita o lado espanhol ou o indígena; o lado indígena rejeita o espanhol
“…’Venham, vamos fazer tijolos e queimá-los no fogo.’ E o tijolo lhes serviu de pedra, e a cal lhes serviu de argamassa.” (11:3) A Torah introduz o episódio da construção da Torre de Bavel com uma descrição dos materiais de construção utilizados. Rashi comenta que como Bavel era uma planície, sem montanhas e rochas, os habitantes da região foram obrigados a fabricar seus próprios tijolos {Gn 11.3}. Qual é o significado desta informação para a compreensão geral de todo o episódio? Antes do advento dos tijolos e dos materiais de construção, os edifícios eram construídos com pedras extraídas de uma pedreira. Há uma diferença crucial entre viver numa casa construída de tijolos e numa casa construída de pedra; ao habitar um edifício de pedra, a pessoa sente que está vivendo no mundo de Hashem, pois está cercada por materiais que vêm diretamente da natureza e são relativamente intocados pelo homem. Quando uma pessoa assa tijolos, usando-os para construir sua casa, ela pode ter a sensação de que sua morada é separada de Hashem, pois ela mesma processou os materiais usados para construí-la. Rashi comenta sobre o versículo “u’devarim achadim” – “de propósito comum” que os habitantes de Bavel conspiraram contra o “yichudo shel olam”, a noção de que Hashem é o único poder sobre todo o universo {Gn 11.1, De acordo com a primeira interpretação de Rashi, eles
