Entenda a Advertência

Mário Moreno/ abril 22, 2026/ Teste

“…os dois serão mortos…” (Lv 20:11)

A Parashá Kedoshim contém as consequências que recaem sobre uma pessoa que se envolve em relações consanguíneas proibidas. Na parashá anterior, Acharei Mot, a Torah proíbe os filhos de Israel de se envolverem nessas relações. (Lv 18:6-22) Isso reflete o ditado talmúdico “ein onshim elah im kein mazhirim” – “Uma ação punitiva não é aplicada pela transgressão de uma proibição, a menos que haja uma advertência bíblica prévia.” (Veja Makkot 17b) Por que a Torah divide as advertências e as punições em duas parashiot separadas?

Um sistema legal que espera que seus cidadãos cumpram suas leis por medo das consequências que ocorrem se as leis forem quebradas está fadado ao fracasso. Se a única restrição for a punição, o homem arriscará as consequências negativas para obter os benefícios percebidos. Somente um sistema que instrui seus adeptos a cumprirem as leis porque a transgressão delas é inerentemente errada e prejudicial ao indivíduo, pode ser bem-sucedido. Portanto, a Torah separa as diretrizes que nos proíbem de praticar esses atos ilícitos das consequências que os acompanham para ilustrar que não devemos aderir a essas regras por medo de punição, mas porque elas são inerentemente destrutivas.

Defenda-se

Na presença de um ancião você se levantará…” (Lv 19:32)

A Torah instrui uma pessoa a se levantar em respeito à sagacidade de um erudito. O versículo conclui “veyareisa meilokecha ani Hashem” – “e você temerá o seu D-us, Eu Sou Hashem”. (Lv 19:32) Citando o Talmud, Rashi explica que a Torah justapõe as duas partes do versículo, pois uma pessoa pode fingir não ver um erudito para evitar se levantar diante dele. Portanto, somos lembrados de temer a Hashem, pois Ele está ciente de nossos pensamentos. (Kidushin 33a) Se o sábio não sabe que foi visto, por que a pessoa ainda é obrigada a se levantar?

O Talmud afirma que, se um sábio tem a opção de atravessar uma área que exigirá que as pessoas se levantem para ele ou tomar um caminho mais longo, ele deve optar pelo segundo caminho. O Talmud cita um versículo para sustentar essa decisão. (Ibid) A implicação é que, se não houvesse um versículo sobre essa questão, seria preferível atravessar a área que exige que os outros se levantem. A mensagem que a Torah transmite é que a obrigação de se levantar para um sábio não é uma responsabilidade “bein adam lechaveiro” – “entre o homem e seu semelhante”. Em vez disso, é uma responsabilidade “bein adam l’atzmo” – “entre o homem e si mesmo”. Esse preceito visa sensibilizar o homem para o temor e o respeito que ele deve ter pela Torah e por aqueles que a estudam. Consequentemente, poder-se-ia supor que o sábio é obrigado a trilhar o caminho que exigirá que as pessoas se levantem, não para seu próprio benefício, mas para incutir nas pessoas a sensibilidade necessária. Portanto, mesmo que o estudioso não saiba que uma pessoa está se levantando por ele, o indivíduo ainda é obrigado a se levantar.

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O Professor Amigo

“…amarás o teu próximo como a ti mesmo…” (Lv 19:18)

Parece haver uma contradição entre duas Mishnás em Pirkei Avot. (1:2:15) No segundo capítulo, somos instruídos a conceder aos nossos amigos a mesma honra que concedemos a nós mesmos. No quarto capítulo, porém, descobrimos que a honra que devemos ter para com nossos amigos é igual à honra que concedemos aos nossos professores. (4:15) Supor que esta seja uma disputa tântrica é uma posição difícil de sustentar, pois se houvesse opiniões divergentes, elas teriam sido registradas lado a lado na mesma Mishná. Como reconciliar a aparente contradição?

A posição que exige que respeitemos um amigo com a mesma intensidade que respeitaríamos nosso professor é aparentemente refutada por um versículo na parashá desta semana. A Torah ordena “v’ahavta l’reiyacha kamocha” – “amarás o teu amigo como a ti mesmo”. (Lv 19:18) Claramente, a ênfase é em “como a ti mesmo”, não em maior do que a ti mesmo. Se assim for, por que a Mishná, no quarto capítulo, exige que a honra concedida a um amigo seja igual à de um professor, que é presumivelmente maior do que a honra que uma pessoa espera para si mesma?

O Rambam cita Aristóteles, que define diferentes níveis de amizade. Durante sua vida, uma pessoa pode ter muitos amigos. O tipo mais comum são os amigos com quem a pessoa compartilha experiências; embora possa desfrutar da companhia deles, a pessoa ainda mantém uma fachada, relutante em apresentar suas vulnerabilidades por medo de que eles possam usar essa informação contra ela. Essa forma de relacionamento é definida pelo Rambam como “ahavas hato’eles” – “uma amizade baseada na conveniência mútua”. Raramente encontramos um amigo em quem depositamos nossa total confiança e com quem estamos dispostos a baixar a guarda e compartilhar nossas inseguranças. Isso só ocorre se sentirmos que esse amigo está completamente dedicado ao nosso crescimento e que suas ações são motivadas por sua preocupação com o nosso bem-estar. (Comentário de Rambam a Avot 1:6)

Não há contradição entre os duas Mishnayot. Eles estão identificando diferentes tipos de relacionamento. Devemos tratar um amigo com quem compartilhamos experiências com o mesmo nível de respeito que dedicaríamos a nós mesmos. É a esse tipo de amigo que a Torah nos ordena a nos esforçarmos para amar, a levar o relacionamento a um nível superior ao da mera conveniência. A segunda Mishná se refere ao amigo que se dedica ao nosso crescimento. A esse tipo de amigo deve ser concedido o mesmo respeito que se concederia a um professor.

Tradução: Mário Moreno

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