Um novo “Livro da Vida” começou a ser escrito
E o homem a observava, admirado e em silêncio, [aguardando] para saber se o Senhor havia feito com que sua jornada fosse bem-sucedida ou não. (Gn 24.21)

“Admirado” (em hebraico: “mishta’ê” – מִשְׁתָּאֵה): ele ficou admirado e surpreso, pois viu que seus esforços estavam prestes a dar frutos… – Rashi
Tenho uma teoria. Talvez este seja o ponto de partida para apresentar minha tese. Cada pessoa constrói seu próprio “shidduch” — seu próprio encontro para o casamento. É claro que existem diversas perspectivas, além de anjos e intermediários envolvidos, mas os próprios indivíduos certamente fizeram algo para se destacar. Pense nisso e veja se faz sentido para você. Funcionou para Rivka e Ia´aqov, e também para Moshé, junto ao poço.
Ouvi uma história de um amigo. Uma jovem em Jerusalém sentia-se desesperada por um “shidduch”. Ela desejava muito se casar, mas nada acontecia. Ela foi visitar Reb Chaim Kanievsky, em Bnei Brak. Ele lhe deu uma bênção e a aconselhou a comprar um “talit” (tradicionalmente, a noiva compra um “talit” para o seu noivo). Seguindo o conselho, ela foi a uma loja de livros e artigos judaicos (“seforim”) em Jerusalém para adquirir a peça.
A vendedora que a atendeu perguntou qual seria o tamanho do “talit”. A jovem deu de ombros e, com uma ingenuidade sincera, admitiu que não sabia. “Qual é a altura do seu “chosson” (noivo)?”, perguntou a vendedora. “Não sei!”, respondeu ela. A vendedora ficou confusa: “Você não sabe qual é a altura do seu noivo?”. Novamente, a resposta foi um surpreendente “Não!”. Mas, então, ela explicou que estava apenas seguindo o conselho de Reb Chaim.
A vendedora ficou admirada e impressionada ao ver que a jovem levara as palavras de Reb Chaim tão a sério, a ponto de agir conforme o orientado. Naquele momento, ela começou a refletir em voz alta: “Conheço uma família excelente em Bnei Brak. Eles têm um filho maravilhoso. Por algum motivo, ele ainda não encontrou sua “bashert” (sua alma gêmea)”. Vou ligar para eles agora e fazer uma sugestão. Não preciso nem dizer como essa história termina: eles se conheceram, casaram-se, e ela comprou um “talit” para o seu noivo.
Conheço muito bem essa história. Não me pergunte como. Uma professora (“morá”) renomada, que lecionava há mais de 50 anos no Queens — e viajava diariamente de Monsey —, teve, em certo ano, uma assistente maravilhosa e dedicada. Uma vez por semana, ela fazia o trajeto acompanhada por um “maguid shiur” — um grande estudioso do Talmud. Esse rabino estava muito impressionado com um jovem — com quem passava horas extras estudando — que frequentava, no mesmo local, tanto o ensino médio quanto o “kollel” (centro de estudos talmúdicos) noturno. O pai desse rapaz havia pedido ao rabino que ficasse atento, caso encontrasse uma moça especial. Certa manhã, durante uma dessas viagens ao Queens, a professora não parava de falar sobre as virtudes de sua assistente. Além de ser excelente com as crianças, prestativa e cooperativa em todos os sentidos, a jovem revelou seu verdadeiro caráter em um episódio extraordinário.
Certo dia, a professora chegou ao trabalho já planejando ir a um casamento mais tarde. Por isso, trouxe consigo uma bolsa contendo todas as suas joias. Ao final do dia, ela entrou em desespero ao perceber que a bolsa havia desaparecido. Seu marido já havia falecido anos antes, e as joias ali guardadas possuíam não apenas um valor material, mas um valor sentimental que as tornava insubstituíveis. Ela estava completamente transtornada. Sua dedicada assistente procurou por toda parte; passou horas, após o expediente, revirando tudo. Buscou incansavelmente, mas sem sucesso. Concluíram que ninguém teria roubado os itens e que, provavelmente, a bolsa fora descartada por engano junto com o lixo. Naquele momento, o lixo já havia sido recolhido pela equipe de limpeza urbana; era, portanto, “tarde demais”.
Mas a dedicada assistente não se deu por vencida. Ela entrou em contato com o Departamento de Limpeza Urbana de Nova York e descobriu exatamente onde o lixo daquela escola havia sido depositado — em um aterro sanitário em Staten Island. Embora o local não fosse nada agradável, ela não desistiu: procurou e, finalmente, encontrou a bolsa com as joias.
A professora ficou admirada com a determinação inabalável e a profunda empatia da jovem. Naquele dia, ela encontrou algo além da bolsa de joias da Morah. Não preciso lhe contar como a história termina — na verdade, ela não termina —, nem como um livro de vida inteiramente novo passou a ser escrito.
Tradução: Mário Moreno.

