Lashon hará

Mário Moreno/ outubro 27, 2017/ Artigos

Lashon Hará

Você sabe o que é isso? A Escritura nos fala sobre uma postura que traz graves consequências À vida daqueles que a praticam e também dos ouvintes. Esta atitude é conhecida entre nós como “maledicência” ou mesmo como “fofoca”. Esta atitude é tão mortal que quem a pratica mata mais que um homicida, pois mata no mínimo três pessoas de uma vez: mata a ele mesmo (que pratica a “fofoca”), mata também seu ouvinte e mata a pessoa acerca da qual ele está falando! E quando isso acontece através de um veículo de comunicação ou mesmo num local onde estão reunidas muitas pessoas então o efeito desta atitude pode multiplicar-se quase que infinitamente!

Esta tem sido uma arma usada por muitas pessoas para derrubar aqueles que de alguma forma não lhe são “queridos”. A maledicência tem sido usada para denegrir e destruir vidas e até mesmo bons trabalhos que estão sendo realizados em todo o mundo! O pior nesta questão é que quando alguém “veicula” uma maledicência essa pessoa não dá a fonte que originou tal “conversa”; e os ouvintes em sua grande maioria despreparados também não questionam a origem da informação e saem por aí repetindo o dito como se fosse uma verdade incontestável, apesar de não terem nenhuma prova sequer sobre aquilo que está sendo dito!

Esta atitude transforma estas pessoas – maledicentes – em assassinos e traz sobre elas graves consequências. Vejamos uma delas: “Se alguém diz: Eu amo a Elohim, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Porque quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Elohim, ao qual não viu? E dele temos este mandamento, a saber, que quem ama a Elohim, ame também a seu irmão” I Jo 4.20,21. Estes dois versos nos falam sobre amar e odiar e também afirma que quem odeia seu irmão é mentiroso. A minha pergunta é: algum mentiroso herdará o Olam Habá (mundo vindouro)? A resposta é clara: NÃO! Então para não cairmos neste laço do adversário devemos tomar alguns cuidados que nos permitirão ter uma postura diferenciada e nos fará evitar este pecado que tem causado tantos males entre nós.

A tradição judaica fala sobre a “Lashon hará” e estabelece alguns critérios que seriam muito úteis se os seguíssemos, pois estaremos evitando uma série de aborrecimentos a nós e a outros.

O livro de Provérbios tem alguns conselhos muito interessantes sobre isso:

“Olhos altivos, língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente” Pv 6:17.

“Há alguns cujas palavras são como pontas de espada, mas a língua dos sábios é saúde” Pv 12:18.

“A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto” Pv 18:21.

“O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angústias a sua alma” Pv 21:23.

“A língua falsa aborrece aquele a quem ela tem maravilhado, e a boca lisonjeira obra a ruína” Pv 26:28.

O Talmud declara que a aflição do metsorá – lepra – era em retribuição ao pecado de lashon hará. Tomar parte em conversa maledicente provoca inimizade e afastamento. A calúnia e a injúria podem voltar uma pessoa contra outra, e semear a suspeita onde antes havia amizade e companheirismo.

O Talmud declara que quando os judeus eram unidos e não havia lashon hará entre eles, eram triunfantes, embora estivessem longe de serem perfeitos em outros aspectos. Por outro lado, quando o lashon hará causa a dissensão, todos os outros méritos podem não ser suficientes para inclinar o ponteiro da balança.

Leis de Lashon Hará

Aprendemos muitas lições de como devemos nos comportar com dois episódios que ocorreram em nossa história durante nossa jornada no deserto. Quando Miriam falou negativamente sobre seu irmão Moshe, ela foi admoestada por D’us e afligida pela doença de pele, tsaraat, como castigo. Devido às preces de Moshe, ela foi curada pouco tempo depois, mas ainda precisou ficar fora do acampamento por sete dias. Aharon, que tinha escutado suas palavras negativas sem protestar, também foi punido, mas não tão severamente.

Infelizmente, os espiões que foram enviados logo depois para Israel não aprenderam uma lição com essa história, e eles também falaram negativamente sobre a terra de Israel. O resultado foi que os israelitas daquela geração morreram todos no deserto.

De fato, vemos que lashon hará, conversa caluniosa, é um pecado que tem causado inúmeras tragédias para o povo judeu, e na verdade ao mundo, desde os primórdios da história.

Alguns exemplos disso são:

– O Midrash nos diz que a cobra caluniou D’us a Eva quando a convenceu a comer da Árvore do Conhecimento.

– Iosef falou negativamente ao seu pai, Ia´aqov, sobre seus irmãos, fazendo com que eles o odiassem. Isso levou à venda dele pelos irmãos, e terminou por causar o exilio egípcio.

– A princípio Moshe se perguntou por que os judeus mereceram sua difícil escravidão no Egito. Quando ele soube que havia maldizentes entre eles, disse que então entendia por que eles mereceram esse destino.

– A maledicência de Doeg, o pastor chefe do Rei Saul e chefe do Sanhedrin, causou o massacre de praticamente uma cidade inteira de cohanim. De fato, os exércitos do Rei Saul perderam as batalhas contra os filisteus como resultado da calúnia que o povo falou contra (o então futuro) Rei David. (Por outro lado, os exércitos do famoso Rei Ahab foram bem-sucedidos em suas batalhas, apesar do fato de serem idólatras, porque eles não tinham o pecado de lashon hará).

– Segundo o Talmud, foi a calúnia feita por judeus contra judeus que na verdade levou à destruição do Segundo Templo.

As leis de lashon hará são muito longas para incluir em um artigo. Mesmo assim, publicamos abaixo um breve resumo de algumas das leis, na maior parte extraídas de Chafetz Chaim. Na verdade, Rabi Israel Meir Hakohen, mais conhecido como “Chafetz Chaim”, ganhou este nome inspirado no versículo dos Salmos: “Aquele de vocês que deseja vida (chafetz chaim)… guarde sua língua do mal…”

1 – Lashon hará literalmente significa “conversa má”. Isso significa que é proibido falar negativamente sobre outra pessoa, mesmo se for verdadeiro.

2 – Também é proibido repetir qualquer coisa sobre outra pessoa, mesmo que não seja negativo. Isto é chamado rechilut.

3 – É proibido também escutar lashon hará. A pessoa deve repreender quem fala ou, se não for possível, deve afastar-se daquela situação.

4 – Mesmo se alguém já tenha ouvido o lashon hará, é proibido acreditar. Pelo contrário, a pessoa deve sempre julgar o próximo de maneira favorável.

5 – Apesar disso, pode-se suspeitar que o lashon hará é verdadeiro, e tomar as precauções necessárias para proteger-se.

6 – É proibido até fazer um movimento que seja pejorativo na direção de alguém.

7 – Não se pode sequer relatar um evento negativo sem usar nomes, se os ouvintes puderem descobrir quem está sendo mencionado.

8 – Em determinadas circunstâncias, como para proteger alguém de danos, é permissível ou até obrigatório partilhar informação negativa. Como há muitos detalhes nesta lei, deve-se consultar um rabino competente para aprender o que pode ser partilhado em qualquer situação específica.

Mário Moreno.

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