Cuidado com aquele último fio

Mário Moreno/ julho 29, 2026/ Artigos

Há uma parábola contada pelo Maggid de Dubna sobre um jovem vendedor ambulante que ia de casa em casa recolhendo roupas usadas para revender.

Em uma casa, disseram-lhe para subir ao sótão e pegar quaisquer roupas que encontrasse e que parecessem úteis.

Ele subiu e juntou um volume considerável, imaginando que poderia vendê-lo por uma boa quantia.

Procurou algo para amarrar o pacote e avistou uma corda pendurada no teto. Sem pensar muito, cortou-a — e imediatamente ouviu um estrondo enorme. O dono da casa subiu correndo, alarmado. “O que você fez?!”

“Estou recolhendo roupas usadas, exatamente como sua esposa me disse”, respondeu o jovem.

“E essa corda nas suas mãos?!” exigiu o proprietário, com o rosto ficando vermelho.

“Cortei um pedaço para amarrar o pacote”, explicou o jovem. “Não achei que tivesse algum valor.”

“Meu rapaz — aquela corda segurava o lustre de cristal central do meu salão principal! Agora ele está totalmente estilhaçado!”

Essa história me veio à mente durante uma conversa recente com uma jovem que me procurou em busca de ajuda para entender certos aspectos de sua identidade judaica. Em certo momento, ela disse: “Já abandonei quase todas as práticas religiosas judaicas. Há apenas duas coisas que ainda faço — e não tenho certeza absoluta do porquê. Talvez para agradar aos meus pais religiosos. Essas duas coisas estão limitando minha liberdade pessoal. Se eu as abandonar também, serei completamente livre e feliz. Diga-me, rabino, por que eu não deveria fazer isso?”

Meu coração se partiu diante do dilema que a atormentava. Como eu poderia ajudá-la a entender — não pelos pais, mas por ela mesma — que a luta não era entre ela e seus pais? Era uma luta entre ela e si mesma, e cortar aqueles últimos fios não traria liberdade; isso a perseguiria, não importasse o que acontecesse.

E então lembrei-me da história do lustre.

“Esses fios a estão prendendo”, perguntei, “ou são raízes que a conectam e a nutrem?”

Conversamos sobre isso e chegamos juntos à conclusão de que, talvez, sejam ambas as coisas: eles restringem uma parte dela, ao mesmo tempo em que conectam e nutrem outra. Segundo o Tanya, o texto fundamental da filosofia Chabad, cada um de nós possui dois impulsos, duas almas: a alma animal, que busca a autogratificação, e a alma divina, que busca cumprir a vontade de D-us. Existe uma luta constante entre elas. Às vezes uma vence, às vezes a outra. O objetivo da vida não é eliminar o adversário animal interior, mas nunca se cansar de lutar — sem trégua. Tudo se torna mais fácil quando se compreende que se está lidando com um “animal”, e é natural que um animal não compreenda.

Quando se está motivado, a luta é mais fácil. Quando a motivação diminui, é preciso recorrer à força de vontade e à pura obstinação para continuar, mesmo sem inspiração.

Na porção da Torah desta semana, “Eikev”, Moshe prossegue com seu discurso de despedida à nação: “Vehayah eikev tishme’un” — “E acontecerá que, como resultado de vocês darem ouvidos a estas leis…” A palavra “eikev” é incomum. Ela também pode significar “calcanhar” — e nossos sábios encontram muitos ensinamentos embutidos nesse duplo sentido.

“Vehayah eikev tishme’un” pode ser lido como: “Acontecerá que o calcanhar ouvirá”. O que significa um calcanhar ouvir?

O calcanhar é a parte menos sensível do corpo. Ele pode pisar em pedras afiadas sem se ferir. É também o ponto mais baixo do corpo em pé. Essas duas características estão conectadas: elas representam, segundo o ensinamento hassídico, a era final da história — o momento de maior insensibilidade espiritual — conhecida como “ikveta dimeshicha”, os “calcanhares do Messias”.

A implicação é que, bem no final de nossa longa história, no momento de maior insensibilidade — isto é, o calcanhar —, chegaremos a realmente “ouvir”, a compreender coisas que nos escaparam ao longo das eras.

Podemos aplicar isso também à vida individual. Todos nós queremos compreender. Mas tudo o que podemos compreender sobre o significado da Torah e o propósito dos mandamentos será sempre limitado e incompleto. É o máximo que podemos alcançar com nossas mentes e corações finitos. É precisamente quando escolhemos permanecer conectados — não porque compreendemos e sentimos o “porquê”, mas apesar de não compreendermos nem sentirmos — que alcançamos o “nível do calcanhar” de conexão com D-us. Chegamos a algo mais profundo do que a compreensão. Os “fios” que nos limitam transformam-se, de repente, em raízes vitais.

A ferramenta para esta semana: quando você estiver segurando o seu último fio, não entre em desespero. Ele pode muito bem ser a primeira raiz de um capítulo novo e mais rico. Além disso: quando se deparar com algo que pareça ter pouco valor espiritual, pense bem antes de “cortá-lo”. Isso pode ser muito mais importante do que aparenta. Não subestime coisas que pareçam insignificantes quando se trata da sua conexão com a sua própria alma, com D-us e com o povo judeu.

Tradução: Mário Moreno.

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