Sem Rodeios

Mário Moreno/ julho 31, 2026/ Artigos

A Guemará não fala muito bem de bajuladores, mas um pouco de bajulação pode ter seu lugar na vida. Se você quiser aprender a arte da bajulação, use a IA. Os elogios que ela lhe fará deixarão você se sentindo ótimo e realizado. Foi assim que me senti depois.

Se você quiser ver como “não” bajular alguém, leia a “parashá” desta semana. Nela, D-us diz ao Povo Judeu, sem rodeios, como as coisas realmente são:

Não digas a ti mesmo, quando D-us, o teu D-us, os tiver repelido de diante de ti: “Foi por causa da minha justiça que D-us me trouxe para possuir esta terra“… Não é por causa da tua justiça ou da retidão do teu coração que possuis a terra deles. É por causa da maldade dessas nações que D-us, o teu D-us, as expulsa de diante de ti, e para cumprir o que D-us jurou aos teus antepassados, Avraham, Yitzchak e Ia’aqov… Vós sois um povo de dura cerviz; lembrai-vos e não esqueçais como provocastes a ira de D-us, o vosso D-us, no deserto. Desde o dia em que saístes da terra do Egito até chegardes a este lugar, tendes estado em rebelião contra D-us. (Dt 9.4-7)

Essa doeu. Tudo isso soa tão “bidieved”. Na “halachá” (lei judaica), esse termo descreve uma situação que é permitida, mas não ideal. Não é a maneira como se deve fazer as coisas desde o início (“l’chatchilah”), mas, se a situação ocorrer, ainda é possível seguir em frente.

E uma coisa é ouvir isso de um cônjuge, de um sócio ou de um amigo. Outra coisa bem diferente é ouvir isso de D-us, que só conhece e profere a verdade. Bem, pelo menos no sentido absoluto da palavra. Os humanos podem buscar elogios falsos, mas D-us oferece uma verdade dolorosa, porém necessária.

Quando eu era adolescente, meu pai conseguiu para mim um emprego de verão com um artista gráfico que também pintava casas. Levou algum tempo — e houve alguns pequenos estragos aqui e ali —, mas, com o tempo, aprendi alguns dos truques do ofício e, no verão seguinte, assumi meus próprios trabalhos, realizando a mesma tarefa com sucesso. Anos mais tarde, descobri que meu pai havia, na verdade, dado secretamente o dinheiro ao designer gráfico que me “contratara”, para que ele pagasse meu salário. Na época, senti-me ofendido, pois acreditava ter conquistado meu salário por mérito próprio; descobri, então, que a única razão pela qual aquele homem me contratou e pagou foi porque o dinheiro não era dele. Ele obteve ajuda gratuita, e eu fui pago para receber treinamento.

Foi preciso algum tempo de amadurecimento (e uma dose extra de humildade) para mudar minha perspectiva sobre isso. Percebi o quanto meu pai havia sido generoso comigo e quão afortunado eu fui ao receber um treinamento tão valioso sem qualquer custo. Isso me permitiu seguir meu próprio caminho no ano seguinte, ganhar meu próprio dinheiro e divertir-me muito fazendo isso. Com o tempo, tornei-me extremamente grato ao meu pai e, felizmente, antes tarde do que nunca.

Em outras palavras, pode ter parecido algo secundário ou uma solução de contingência, mas, na verdade, era o ideal — o “l’chatchilah” — para o povo judeu saber que “Eretz Yisrael” (a Terra de Israel) era um presente para eles, e não algo conquistado. Quando se conquista algo, desenvolve-se um sentimento de direito adquirido, e isso não havia funcionado muito bem para nós até aquele momento. O maior problema que enfrentamos hoje é o sentimento de direito que todos têm em relação ao que possuem ou desejam na vida. Isso está arruinando as pessoas e o mundo.

Receber a terra como um presente tornou-os mais conscientes da natureza frágil de sua relação com ela. O objetivo era fazer com que sentissem a necessidade de conquistá-la por meio da maneira como viviam nela. E isso funcionou por um tempo, até que as pessoas começaram a sentir que possuíam a terra por mérito próprio. Assim que essa perspectiva se estabeleceu, começou a contagem regressiva para a destruição e o exílio.

Tradução: Mário Moreno.

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