O Doce Segredo de um Casamento Bem-Sucedido
“Quando um homem toma uma esposa”… (Dt 24:1)
Quando um homem toma uma nova esposa, não sairá para o exército, nem será sujeito a nada relacionado a isso. Ele permanecerá livre para o seu lar por um ano e alegrará a esposa que tomou. (Dt 24:5)

Um dos meus mestres perguntou, durante uma celebração de “Sheva Brachot” (as sete bênçãos nupciais): “Por que um noivo recém-casado é isento de ir à guerra?” Ele fez uma observação espirituosa baseada no preceito talmúdico ““HaOsek B’Mitzvah Patur Min HaMitzvah”” — “Aquele que está ocupado com uma “Mitzvah” (mandamento) está isento de outra “Mitzvah””. Ele disse: ““HaOsek B’Milchama Patur Min HaMilchama”” — “Aquele que está envolvido em uma guerra está isento da guerra”.
Ele rapidamente complementou sua própria afirmação para não deixar uma impressão de cinismo sobre o casamento e lembrou a todos: “É verdade que o casamento é uma guerra. É uma guerra para ver quem dará mais e quem cederá primeiro”. Nesse sentido, é 100% verdade. Isso não é apenas uma bela homilia ou um ideal nobre; está profundamente enraizado na fundação do casamento, desde a sua própria origem.
Eu estava ministrando uma aula geral sobre como compreender a veracidade e a função da Torah Oral. Queria dar ao grupo uma ideia de como funcionam algumas das dinâmicas de estudo. Talvez tenha sido um erro estratégico — visto que havia homens e mulheres presentes — escolher a primeira “Mishná” do tratado de “Kiddushin”, que trata do início do casamento.
Logo percebi que estava em uma situação delicada. Eu escolhia minhas palavras com extremo cuidado, mas não havia como evitar o que estava impresso no material distribuído, em preto e branco: “Quando um homem toma uma mulher…”. A partir daí, a situação foi de mal a pior. Como um homem toma uma mulher? A “Mishná” continua explicando que uma das três formas é com “Kesef”, dinheiro. Comecei a suar profusamente. Eu sabia que estava prestes a provocar uma reação em parte da plateia. Não tive escolha a não ser prosseguir, e logo a situação tensa em que eu me encontrava estava prestes a transbordar.
O Talmud explica como e por que o dinheiro catalisa e consolida o casamento entre um homem e uma mulher. Isso se baseia em uma fonte parcialmente contida na porção da Torah desta semana, “Ki Yikach Isha” — “Quando um homem tomar uma mulher”. Essa mesma palavra, “KACH” — “TOMAR”, é usada em outra passagem, quando Avraham (Avraham Avinu) compra um campo para sepultar sua amada Sara. O princípio talmúdico de “Gezera Shava” — ou, na linguagem da informática, um “hyperlink” — é empregado para conectar esses dois usos distintos da mesma palavra, permitindo o compartilhamento de conceitos. É assim que funciona: um homem toma uma esposa e Avraham adquire um campo.
Naquele momento, eu sentia que o ambiente estava prestes a explodir, embora ninguém tivesse dito uma única palavra. Eu já conseguia antecipar as objeções — como flechas flamejantes de indignação disparadas contra mim — e, pior ainda, o risco de manchar permanentemente a impressão que eles tinham da Torah. “É assim que um homem toma uma mulher? Como quem toma um campo?!”
Então, com a ajuda dos céus, descobri algo que salvou a situação. Não precisei forçar a barra nem distorcer nada, nem que fosse um pouquinho. É algo absolutamente real e verdadeiro. Mais tarde, conferi meus cálculos com fontes acadêmicas sólidas e confirmei a concordância. Um versículo diz claramente “quando um homem tomar uma mulher”, referindo-se ao casamento. Já o outro versículo, sobre Avraham adquirindo um campo para sepultar Sara, não diz que Avraham “tomou” o campo. A palavra “KACH” — “TOMAR” é usada por Avraham ao falar com Efron, o vendedor do campo: “E falou a Efron, aos ouvidos do povo da terra, dizendo: ‘Se ao menos me ouvisses! Estou dando o dinheiro pelo campo; “KACH MEMENI” — toma de mim, e eu sepultarei ali a minha morta’.”
Avraham não estava tomando o campo. Ele estava implorando a Efron que aceitasse o dinheiro para que ele pudesse adquirir o campo. Como Avraham adquiriu aquele campo e como, na prática, um homem toma uma esposa? Dando. Esse é o doce segredo de um casamento bem-sucedido.
Tradução: Mário Moreno.

