Em Busca do Ouro
“E vistes as suas abominações e os seus ídolos detestáveis – de madeira e pedra, de prata e ouro que estavam com eles” (Dt 29.16).
Na Parashá Devarim, Moshe reúne os Filhos de Israel e os repreende de maneira velada, a fim de evitar constrangê-los. Assim, ele lista os locais onde os Filhos de Israel agiram de forma inadequada, em vez de mencionar explicitamente os seus pecados. Os comentários divergem quanto a quais pecados são refletidos pelos vários locais. Rashi interpreta “Di Zahav” como o lugar onde o pecado do Bezerro de Ouro foi cometido. (Dt 1:1) O Talmud ensina que, embora Moshe estivesse repreendendo os Filhos de Israel por participarem do pecado do Bezerro de Ouro, ele estava, ao mesmo tempo, tentando atenuar a culpa deles. Moshe argumentou que foi o ouro e a prata — que Hashem acumulou sobre os Filhos de Israel até que eles fossem forçados a dizer “di” (basta/suficiente) — que desempenharam um papel crucial para que toda a comunidade sucumbisse ao pecado da idolatria; daí o nome “Di Zahav” para descrever o pecado. O Talmud conclui que Hashem aceitou o argumento de Moshe, conforme declarado no versículo: “Eu lhes dei uma abundância de riquezas e eles usaram o ouro para Baal.” (Berachot 32b) Moshe pressupõe que, se os Filhos de Israel não tivessem ouro e prata, não teriam feito o ídolo. Como ele pode ter certeza de que eles não teriam moldado o bezerro em madeira ou pedra?

Ao longo da história, os Filhos de Israel caíram nas garras da idolatria. Nunca encontramos uma resposta de Hashem tão severa quanto a que foi dada em relação ao Bezerro de Ouro. Por que esse evento foi de natureza mais hedionda do que todas as incursões subsequentes na idolatria?
Na Parashá Nitzavim, os Filhos de Israel são advertidos contra a idolatria. O versículo afirma que Moshé disse aos Filhos de Israel que eles viram pessoalmente a natureza detestável da idolatria ao passarem pelas nações que serviam a ídolos de “madeira e pedra, de prata e ouro que estavam com eles”. (Dt 29:16) Rashi explica por que a Torah acrescenta a frase “que estavam com eles” após “prata e ouro”. Moshe ridicularizava os idólatras porque, publicamente, eles serviam apenas a ídolos de madeira e pedra. Eles mantinham os ídolos de prata e ouro “consigo”, servindo-os apenas em particular, por medo de que fossem roubados. (Ibid.) Inerente às suas ações está a natureza absurda de seu culto; eles temiam que os ídolos, aos quais prestavam adoração como divindades, fossem roubados por homens. A natureza singular do pecado do Bezerro de Ouro residia no fato de ter sido uma demonstração pública, realizada diante de toda a nação. Consequentemente, a punição foi mais severa do que quando grupos isolados de judeus se envolviam em tais atividades.
Toda a nação dos Filhos de Israel não toleraria uma demonstração pública de idolatria se o ídolo fosse feito de madeira, pois o material utilizado refletiria a falibilidade do ídolo. Moshe argumentou que a única razão pela qual os Filhos de Israel estavam dispostos a usar uma quantidade tão grande de ouro para confeccionar o ídolo era o fato de possuírem muito desse metal e não temerem que ele fosse roubado; se os Filhos de Israel tivessem menos ouro, não o teriam utilizado publicamente. O uso público de outro material não teria sido tolerado, forçando assim os instigadores do bezerro de ouro a cultuá-lo em particular, longe dos olhos do público, poupando os Filhos de Israel da culpa coletiva.
Uma Definição Atual
“Pois esta coisa está muito perto de ti… para a cumprires” (Dt 30:14)
O Ramban interpreta o assunto em questão como a “mitzvá” de “Teshuvá” (arrependimento). A Torah atesta a acessibilidade do arrependimento. (Dt 30:14) A expressão ““karov eilecha”” — “perto de ti” — implica um certo grau de facilidade. Como o arrependimento pode ser descrito como algo fácil?
O Rambam ensina que o arrependimento ocorre quando o penitente possui a convicção de nunca mais retornar aos seus caminhos iníquos e está confiante de que até mesmo “Hashem” pode atestar o fato de que ele jamais voltará aos caminhos do seu passado. (Yad Hilchot Teshuvá 2:2) Como uma pessoa pode garantir que nunca repetirá um pecado do passado? A “Teshuva” em sua perfeição, segundo o Rambam, ocorre quando uma pessoa se depara com a oportunidade de cometer um pecado que já havia cometido anteriormente, mas, graças ao seu arrependimento, não sucumbe. O Rambam apresenta o seguinte cenário como exemplo: se um homem que manteve um relacionamento ilícito se encontra a sós com a mesma mulher, no mesmo local onde transgrediu outrora, sentindo a mesma paixão por ela e com a libido tão intensa quanto no passado, e ainda assim consegue se retirar da situação, trata-se do arrependimento perfeito. (Ibid. 2:1) Visto que é proibido a uma pessoa colocar-se em uma situação comprometedora, o Rambam deve estar estabelecendo um padrão teórico a ser alcançado. Por que é necessário reproduzir a situação com a mesma mulher e no mesmo local? Não bastaria abster-se do pecado, independentemente da pessoa ou do lugar envolvidos?
O Talmud ensina que aquele que comete repetidamente um determinado pecado passa a encará-lo como um ato permitido. (Yoma 86b) O Talmud nos oferece uma perspectiva sobre as razões pelas quais uma pessoa peca. Geralmente, definimo-nos como um composto de nossas ações passadas. Se uma pessoa cometeu repetidamente um determinado pecado e agora se depara com esse mesmo pecado, ela pode raciocinar que ele não tem como afetá-la mais do que já afetou. A sensação de que o pecado se tornou parte de sua essência impede que a pessoa se liberte dele.
A pessoa está convencida de que cometerá o pecado novamente no futuro e, portanto, abster-se dele no presente serve apenas como uma frustração temporária.
O Rambam nos ensina que a mentalidade necessária para a “Teshuvá” é aquela em que a pessoa se desvincula de suas ações passadas. É preciso sentir que as ações do passado não refletem a verdadeira natureza do indivíduo e, além disso, que, sob as mesmas circunstâncias, ele não as repetiria. A “Teshuvá” só pode ocorrer quando a pessoa se desvincula dos comportamentos negativos do passado e percebe que eles não fazem parte de sua verdadeira essência. Talvez ela peque novamente no futuro, mas isso não ocorrerá porque o comportamento está arraigado nela desde o passado.
Não podemos garantir que nunca mais pecaremos. No entanto, a consciência de que os atos pecaminosos do passado não fazem parte do nosso presente garantirá que eles não sejam fatores motivadores para a repetição do mesmo pecado no futuro. A pessoa deve sentir que seu passado não a controla. Chegar a essa conclusão não é uma tarefa difícil. Se alguém estiver verdadeiramente interessado em mudar seu modo de vida, essa mentalidade lhe parecerá natural e acessível. É a essa noção que a Torah se refere ao afirmar que a “Teshuvá” está “karov eilecha” — “perto de você”.
Tradução: Mario Moreno.

