A Arca do Triunfo
É preciso acreditar. Dia após dia, durante 120 anos, Noé construiu uma arca. Céticos e zombadores o criticavam, riam dele e seguiam seu caminho de autodestruição. Mas Noé continuou a construir.

Deve ter sido extremamente difícil para Noé. Um homem sozinho, prevendo uma calamidade. Ele era o único ser humano fazendo algo para se salvar. No entanto, apesar de 10 anos tentando convencer e persuadir os curiosos a abandonarem seus maus caminhos, ele não conseguiu levar um único membro da civilização consigo. Por quê?
A Torah nos conta que, quando Noé finalmente entrou na arca para a jornada de salvação em meio à destruição do mundo, ele quase teve de ser forçado a fazê-lo. “E Noé entrou na arca por causa das águas do dilúvio” (Gn 7.7). Rashi explica que até mesmo Noé foi considerado alguém de fé apenas modesta. Noé não entrou na arca até que as chuvas caíssem e ele percebesse que o desastre era iminente.
Certamente, sua falha foi insignificante para os nossos padrões. Afinal, Noé foi escolhido a dedo pelo D-us Todo-Poderoso para salvar e perpetuar a civilização. Contudo, sua pequena falha foi registrada. Deve haver uma lição para todos nós no fato de a Torah ter registrado isso.
O médico britânico John Abernathy, além de ser um renomado cirurgião e professor no final do século XVIII, ajudava pacientes com diversos problemas emocionais. Certa vez, ele contou a história de um paciente que chegou à sua clínica queixando-se de crises severas de melancolia e depressão. Parece que o artesão havia perdido a fé em suas próprias habilidades. Ele sentia que não estava correspondendo ao seu padrão habitual. Estava começando a fracassar na obra de sua vida. Após examiná-lo, o Dr. Abernathy fez uma sugestão simples:
“Vá ver o famoso comediante Grimaldi. Ele é conhecido por alegrar os deprimidos e faria maravilhas pelo seu espírito. Ele o fará rir, e isso seria melhor do que qualquer remédio que eu pudesse receitar.”
O paciente pareceu ainda mais abatido. “Isso não vai me ajudar”, suspirou o paciente desanimado. “Eu sou Grimaldi.”
Noé trabalhou incansavelmente para construir a arca, mas não conseguiu resgatar uma única alma. Talvez a Torah nos revele a razão pela qual ele não conseguiu convencer ninguém a juntar-se a ele.
O próprio Noé não entrou na arca até que as chuvas o obrigassem a fazê-lo. Ele não correu para a embarcação com um grito de guerra de fé inabalável. Por algum motivo — talvez sentisse que a compaixão de D-us acabaria por superar a Sua ira —, ele não demonstrou uma crença clara e firme de que o Dilúvio realmente viria.
Para aproximar os judeus da Torah, para edificar almas, é preciso estar tão profundamente imbuído de fé que não se precise ser empurrado para a própria arca de salvação. Além de construí-la, é preciso respirá-la, vivê-la e estar totalmente comprometido com ela.
Pode-se construir grandes arcas, mas, a menos que a paixão da fé transborde da alma, ela talvez nunca toque os outros. A pessoa pode salvar a si mesma e à sua família, mas nada além disso.
Meu avô, de abençoada memória, certa vez me disse que, se um determinado escritor secular tivesse visto o Chofetz Chaim, jamais teria acreditado que o homem evoluiu do macaco. A aura do Chofetz Chaim emanava um espírito que proclamava, com força retumbante, a santidade de sua própria essência.
Para promover a verdadeira fé, é preciso ser inabalável em seu próprio compromisso. Qualquer falha nesse sentido, ainda que bem-intencionada, pode perder-se em meio a uma multidão cética. Pois, sem o próprio senso de fé absoluta, jamais se conseguirá conduzir outros à sua própria arca de triunfo.
Tradução: Mário Moreno.

