A Tzedaká Suprema
E ele (Avraham) creu em Hashem, e Ele considerou isso para ele como “tzedaká” (justiça/retidão). (Gn 15.6)

E ele (Avraham) creu em Hashem: ele não Lhe pediu um sinal a esse respeito; contudo, no que tange à herança da terra, ele pediu um sinal, dizendo: “Como saberei?” – Rashi
Eis um daqueles episódios na história judaica que, se a Torah não nos tivesse revelado, teria passado despercebido pela consciência humana. Houve um diálogo direto entre Hashem e Avraham a respeito de ele ter filhos. Hashem acabara de prometer a Avraham que sua descendência seria como as estrelas. Ele creu em Hashem. Seu coração encontrou, então, serenidade e sossego. Avraham não proferiu uma única palavra. Hashem, que lê o coração de Avraham, considera que Avraham praticou “tzedaká”. Com quem, afinal, Avraham praticou “tzedaká”?
Se eu não tivesse ouvido isso de um dos meus “rebeim” (mestres), teria receio de dizê-lo em voz alta. Considera-se que Avraham praticou “tzedaká” com Hashem. Mas como podemos praticar “tzedaká” com Hashem? Hashem é onisciente e perfeito, para além de qualquer medida de perfeição. É verdade que Hashem sabe tudo; contudo, justamente por isso, existe algo que um ser humano pode fazer e que Hashem — por assim dizer — não pode fazer por Si mesmo: confiar e crer em Hashem. É isso que o homem pode oferecer a Hashem.
“Emuná” (fé) não é uma crença cega no desconhecido. É uma lealdade inabalável e uma obediência cultivada àquilo que se sabe ser absolutamente verdadeiro. O Talmud, no tratado Makot, resume a Torah a um único princípio, enunciado pelo profeta Habacuque: ““Tzadík be’emunató yichiá”” — “O “tzadik” (justo) vive por sua “emuná””. (Hc 2.4) O Rei Salomão, o mais sábio de todos os homens, escreve: “Muitos são chamados de homens bondosos, mas um homem de confiança (“ish emunim”) — quem o encontrará!?” (Pv 20.6). Não é fácil encontrar uma pessoa tão íntegra e confiável.
As realizações de alguém tornam-se ainda mais grandiosas quando feitas em privado, no segredo do coração — como o Rei Salomão (“Shlomo HaMelech”) esclarece: “Um presente dado em segredo (Rashi explica que se refere à “tzedaká” — caridade/justiça) aplaca a ira.” (Pv 21.14). A fé silenciosa e a confiança que se estabeleceram no coração de Avraham, quando “Hashem” (D-us) lhe prometeu um futuro, desencadearam uma verdadeira tempestade celestial. A Torah nos revela isso! Avraham realizou um ato oculto de “tzedaká” ao aceitar, de forma plena e absoluta, o que “Hashem” lhe havia dito.
Como filhos de Avraham, esse poder reside dentro de cada um de nós. Tomemos, por exemplo, o 12º dos 13 princípios fundamentais da fé: “Acredito, com uma confiança plena (“emuná”), na vinda do “Mashiach” (Messias); e, embora ele possa tardar, aguardo sua chegada todos os dias.” O que alcançamos ao nutrir a esperança por algo destinado ao futuro? Entre as vantagens e benefícios de aguardar o “Mashiach” — mesmo que isso não se concretize hoje ou num futuro imediato — está o fato de que tal expectativa confere significado a tudo o que fazemos. Compreendemos que o que presenciamos e vivenciamos não é um “teatro do absurdo”. Nada é aleatório. ““Sof davar hakol nishma”” — “Ao final, tudo conta…” (Ec 12.13). Não somos uma plateia passiva! Somos os protagonistas no centro do palco. Conhecemos o Autor desta peça. No fim, veremos como cada fio da nossa existência foi entrelaçado — como numa tapeçaria bela e ornamentada — formando uma gigantesca vela de “Havdalá”, coroada por uma chama grandiosa e sagrada.
Acreditamos que toda a história chegará a uma conclusão plena de significado e glória. É assim que vivemos, dia após dia, com esperança. É isso que nos mantém avançando desde o momento em que Avraham recebeu a ordem “Lech Lecha” — “vá”, e continue seguindo em frente. Essa lealdade inabalável e essa devoção à nossa missão, tanto pessoal quanto nacional, constituem a “Emuná” (fé) em movimento. O fato de continuarmos a avançar, de maneira silenciosa e constante — apesar de, e diante de, tantos obstáculos aparentemente insuperáveis —, representa uma conquista grandiosa, tanto coletiva quanto individual, sendo, além disso, a forma suprema de “Tzedaká” (justiça/caridade).
Tradução: Mário Moreno.

