O Atrativo do Especialista

Mário Moreno/ julho 20, 2026/ Artigos

“Ai de mim, solitária está a cidade.” O Rabi Haninai e os Sábios iniciaram a discussão sobre este versículo referindo-se a Adão, conforme está escrito: “O Senhor D-us tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden” (Gn 2.15). “O Senhor D-us o tomou…“: De que maneira Ele o tomou? O Rabi Haninai disse que Ele o atraiu [persuadiu-o, seduziu-o] com palavras. Como está escrito: “Toma a Arão [mediante persuasão verbal]” (Lv 8.2). Os Sábios disseram: Ele o tomou (Elias) com o vento [o poder de “Zeir Anpin” (Rosto Pequeno), chamado “ruach” — espírito ou vento]: “D-us tirará o teu mestre [Elias] de ti hoje [levando-o para o céu num redemoinho (Rashi interpreta isso como ‘numa tempestade’)]” (II Rs 2.3).

E Ele o colocou no Jardim do Éden [o segredo de “Malchut”].” Isso lhe proporcionaria o descanso (“menucha”, derivado da mesma raiz hebraica da palavra para “colocou”) necessário para conhecer e compreender a Sabedoria e a Torah [pois o segredo da luz da Torah reside em “Tiferet”, e a Sabedoria é extraída de lá para “Malchut”]. Pois o Rabi Haninai afirma que Ele ensinou a Torah a Adão, conforme está escrito: “Ele (D-us) a viu (a Torah) e a examinou/contou (as letras nela contidas)” (Jó 28.27) (e o versículo seguinte diz:) “Ele [D-us] falou [a Torah] ao homem.” E os anjos louvaram a Adão.

Até que Samael o viu dos céus e sentiu inveja dele. Ele desceu dos céus na forma de uma sombra [o segredo de Lilith — sua contraparte feminina], montado na Serpente. A Serpente era visível, enquanto a sombra era a sua fonte de poder e vigor. Aquela Serpente aproximou-se da mulher, que era mais volúvel [ou de espírito mais leve] do que Adão. Daqui aprendemos que uma mulher só é seduzida por intermédio de outra mulher [pois a serpente também representava o aspecto da consorte feminina de Samael]. A serpente começou dizendo: “Será que D-us realmente [em hebraico, “af”, palavra que também significa ira e fúria, como está escrito: ‘e o…’]” …disse: ‘É verdade que D-us disse: “Não comereis de nenhuma árvore do jardim“?’ (Gn 3.1). Ele iniciou sua fala imediatamente com a palavra “realmente” [associada à “kelipá” chamada “Af” / ira]. Disso se aprende que, desde o início da fala de uma pessoa, pode-se reconhecer o seu caráter.

[A serpente] tomou esse sinal para saber se [suas tentativas] seriam aceitas por ela ou não. Ele a seduziu com suas palavras até que ela respondeu com uma frase que começava com a letra “Mem”: ““Mikol” / Temos permissão para comer de todas as árvores do jardim” (Gn 3.2). [A serpente causou uma mácula no pensamento — que é “Biná”, o segredo da letra “Mem” que se abre para a esquerda, o lado de “Gevurá” e do julgamento.] Imediatamente, a serpente tomou essa letra [“Mem”] e a anexou ao seu braço esquerdo [o lado de “Gevurá”, de onde flui o julgamento], e aguardou até que as letras “Vav” e “Tav” saíssem da boca dela [pois, ao pecar com a fala, a letra “Vav” — que está em “Tiferet” — foi maculada; e, ao pecar com a ação, a letra “Tav” — que está em “Malchut” — foi maculada], para que “Mavet” / a morte pudesse ser preparada para eles.

Ele começou a seduzi-la com suas palavras até lermos: “a mulher viu que a árvore era boa para comer” (Gn 3.6) [com razões fortes e convincentes, isto é, sendo “boa para comer e um prazer para os olhos”], ensinando-nos que as letras “Vav” e “Tav” [na palavra “Va-Teire” / “ela viu”] voaram de seus lábios e elevaram-se para se unir à letra “Mem” [para criar “Mavet” / morte]. Mas a letra “Mem” também se elevou e depois caiu, não se unindo a essas outras letras [“Vav” e “Tav”] até que ela fosse seduzida [e então a morte foi decretada para as criaturas do mundo].

As letras “Vav” e “Tav” voaram para fora quatro vezes. Essas letras então cercaram a letra “Mem” nas quatro direções, conforme está escrito: “Ela tomou o fruto e comeu”. Ela deu um pouco ao seu marido… e os olhos de ambos se abriram / “VaTikach mipiryo VaTochal VaTiten gam La-isha… VaTipakachnah einiei sheneihem” (Gn 3.6). As letras “Vav” e “Tav” aparecem quatro vezes. Isso mostra que elas cercavam a letra “Mem” pelos quatro lados — com o “Mem” posicionado no centro —, formando a palavra “Mavet” (morte) em todas as quatro direções.

Sam-kel viu-o lá do alto dos céus e sentiu inveja dele.

Como está escrito: “Pois a morte subiu pelas nossas janelas, entrou em nossas fortalezas” (Jr 9.20). Isso se refere a Sam-kel, que é uma das janelas do céu. Sobre isso, está escrito: “Que homem pode viver e não ver a morte?” (Sl 89.49). Sam-kel então dominou Eva imediatamente e derramou sua imundície sobre ela. D-us desceu para ver, e Adão e sua esposa se esconderam.

Venha e veja: antes de pecarem, a “Shechinah” era uma coroa sobre suas cabeças; por causa deles, Ela brilhava sobre o mundo. Quando pecaram, foi como se Sua força tivesse enfraquecido, e Ela partiu, não mais governando o mundo [agora governado por Sam-kel e Lil…]. O Santo, Bendito Seja Ele [“Zeir Anpin”], começou a lamentar: ““Eicha” [que se decompõe em “Ayeh”, significando “onde”], o que será [e “Koh”, “assim/isto”] Dela [a “Shechinah”]? O domínio afastou-se Dela.” Da mesma forma, quando o Templo foi destruído, o domínio [sagrado] partiu, e D-us começou a prantear e dizer: “Ai, o que será dela [a “Shechinah”, chamada “Koh”]?”

Antes de pecarem, a “Shechinah” era uma coroa sobre suas cabeças…

BeRahamim LeHayyim:

Palavras têm consequências. Extrema consequência. Pois as palavras são constituídas por letras — os blocos fundamentais do universo (veja “Sefer HaYichud VeHa’emuna”). Portanto, precisamos ser muito cautelosos sempre que abrimos a boca, pois temos o poder de criar — “Abracadabra” significa “eu crio pela fala” — assim como o poder de destruir, e até mesmo matar, por meio da calúnia.

O trecho do Zohar mencionado acima examina atentamente como as palavras das Escrituras apontam para um nível de significado completamente diferente; como as letras iniciais ou o valor numérico podem ilustrar conotações e denotações mais profundas. O mesmo se aplica às nossas palavras: como observou o Ba’al Shem Tov, até mesmo uma conversa trivial pode revelar profundidades.

Use as suas palavras — bem como as palavras e letras dos outros — para construir, e faça-o com consciência; assim, você contribuirá grandemente para reparar o Templo interior.

Tradução: Mário Moreno.

Share this Post