Soldados no Exército de D’us

Mário Moreno/ agosto 27, 2026/ Artigos

A Parashá Ki Tavo é uma porção da Torah que merece um estudo cuidadoso, pois é relevante de muitas maneiras para a nossa geração. Na realidade, nada precisaria ser escrito; os versículos em si são incrivelmente poderosos. Dito isso, abordaremos uma questão da qual todos podemos tirar proveito em nossas próprias vidas.

Neste dia, Hashem, teu D’us, ordena-te que pratiques estas leis e estatutos; guarda-os e cumpre-os com todo o teu coração e com toda a tua alma” (Dt 26.17). Rashi, o comentarista francês medieval da Torah, cita este versículo e observa o seguinte sobre a frase “Neste dia, Hashem, teu D’us, ordena-te”: “Que elas [as leis] sejam, a teus olhos, como novas a cada dia, como se tivesses recebido a ordem a respeito delas hoje mesmo”.

Isso pode ser compreendido por meio de uma analogia. Um soldado foi chamado para se apresentar ao seu oficial comandante. O oficial o enviou ao General. O General o enviou ao Rei. Durante todo esse tempo, aquele soldado raso não sabia o que esperar. Ele é levado à presença do Rei e incumbido de uma missão especial. Dizem-lhe que é uma grande distinção ser escolhido para tal tarefa, sendo ele a única pessoa selecionada entre milhares. Grandes honras e reconhecimento o aguardam caso cumpra a missão com sucesso. Ele fica entusiasmado com sua boa sorte e dedica-se plenamente à execução do trabalho. Todos os dias, ele desperta com vigor, lembrando-se do privilégio que lhe foi concedido.

É isso que Rashi nos transmite. Devemos ter em mente Quem é o Rei que nos ordena e a grande distinção que temos ao sermos escolhidos para cumprir Seus mandamentos. Todas as manhãs, despertamos agradecendo a D’us por nos conceder mais um dia e, assim, demonstrar Sua confiança de que seremos bem-sucedidos. Cada dia é novo, algo jamais vivenciado na história e que nunca mais se repetirá. Cada dia possui um propósito especial, à altura do qual esperamos estar. Um novo dia é uma etapa no desenrolar do processo histórico, na qual paramos para realizar nosso propósito único na vida e nos aproximar de nossos objetivos. No tratado talmúdico “Capítulos dos Pais” (“Pirkei Avot”), o grande líder e mestre, Rabi Yochanan Ben Zakkai, tece elogios aos seus alunos. (Eu sempre digo que isso, por si só, demonstra grandeza.) Rabi Elazar, filho de Arach, é descrito como uma fonte de águas vivas. A natureza de uma fonte — em contraste com uma cisterna que apenas armazena água — é que a água da fonte é fresca e se renova constantemente. Rabi Elazar, filho de Arach, era uma fonte constante de novidade e frescor. Ele via cada momento como um privilégio e dedicava o máximo de seus esforços a cada dia de sua vida.

Nos tempos bíblicos do sábio Daniel, as Escrituras relatam que ele vivia um período de luto. Ele estava entre os judeus exilados na Pérsia e soube da situação terrível em que Jerusalém se encontrava. Ele estava angustiado, e isso transparecia em seu semblante. O rei, de quem ele era conselheiro, percebeu isso e acusou Daniel de estar insatisfeito com o reino da Pérsia e com o seu monarca. A alegria é um verdadeiro termômetro dos sentimentos de uma pessoa. Cumprir os mandamentos com alegria é a nossa maneira de demonstrar a D-us que estamos felizes por estar a Seu serviço; que encaramos os mandamentos como um privilégio, e não como um fardo.

O estudante da Torah vê a si mesmo como um soldado incumbido por D-us de cumprir fielmente os seus deveres. Ele se sente honrado por receber uma tarefa tão importante para realizar. Ele não se entedia nem se sente sobrecarregado pelo trabalho, pois mantém o seu frescor e a perspectiva clara de quem ele é — e de para Quem ele trabalha. Ele vive seus dias com alegria, consciente de que foi escolhido e agraciado com essa grande oportunidade. Sua autoestima é grandemente elevada pelo fato de lhe ser confiada uma tarefa de tamanha importância e responsabilidade. Que possamos merecer estar entre essas pessoas.

Tradução: Mário Moreno.

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