Uma Bênção Disfarçada
Na Parashá Vayerá, Sarah, a esposa de Avraham, aos 90 anos, recebe uma informação surpreendente de uma fonte ainda mais inesperada. Nômades — que encontraram acolhida na casa de Avraham — dizem a ela que, dentro de um ano, ela terá um filho. Instintivamente, ela reage com descrença a essa previsão. Ela ri.
Imediatamente, Hashem aparece para Avraham. Ele está contrariado: “Por que Sarah riu? Haveria algo que estivesse além do Todo-Poderoso? No tempo determinado, retornarei, e eis que Sarah terá um filho” (Gn 18.12-13).

A indignação de Hashem precisa ser explicada. Afinal, não foi o próprio Hashem quem disse a Sarah que ela teria um bebê; a informação veio de pessoas que pareciam ser apenas nômades. E, embora o Talmud explique que esses três nômades eram, na verdade, anjos enviados pelo Todo-Poderoso, eles não se identificaram como tal. Então, o que D’us esperava de Sarah?
Certa vez, um homem entrou no pequeno escritório do reverenciado Steipler Gaon, Rabi Yaakov Yisrael Kanievski, com um pedido: “Gostaria de uma bênção do Rav. Minha filha está tentando se casar há vários anos. Todas as amigas dela já se casaram, e ela também deseja se casar, mas nada dá certo. O Rosh Yeshivá poderia abençoá-la para que ela encontre sua “bashert” (sua alma gêmea)?”
O Steipler voltou-se para o homem e perguntou: “Esta é a sua primeira filha?”
“Não”, respondeu o pai, angustiado. “Por que o senhor pergunta?”
“Quando ela nasceu, vocês celebraram com um “kiddush”?” (uma comemoração realizada em um contexto religioso).
O homem ficou perplexo. “Não. Mas isso foi há 27 anos”, gaguejou ele, “e ela era minha terceira filha. Talvez eu tenha feito um “l’chayim” (brinde) enquanto o “minyan” (quórum de oração) saía da sinagoga, mas nunca cheguei a realizar um “kiddush” propriamente dito.” “Mas o que um “kiddush” que não foi realizado há 27 anos tem a ver com o “shidduch” (casamento/encontro para casamento) da minha filha hoje?”
“Quando alguém realiza um “kiddush” em uma ocasião festiva”, explicou o Rav Kanievski, “cada “l’chayim” que a pessoa recebe vem acompanhado de inúmeras bênçãos. Algumas vêm de amigos, outras de parentes, e há também bênçãos proferidas por completos desconhecidos.
Entre essas bênçãos, certamente estão os votos — ainda que formais — de que o processo de encontrar um cônjuge seja tranquilo. Ao não realizar um “kiddush” para sua filha, de quantas bênçãos você a privou? Sugiro que você realize para sua filha o “kiddush” que ela nunca teve.”
O homem seguiu o conselho e, de fato, poucas semanas após o “kiddush”, a moça conheceu seu futuro marido.
No “brit” (circuncisão) de seu primeiro filho (após dez filhas), meu tio, o Rabino Dovid Speigel — o Rebe de Ostrove-Kalushin, de Cedarhurst, Long Island —, citou o Ramban (Nachmanides) a respeito da porção da Torah desta semana.
O motivo pelo qual Hashem (D-us) ficou descontente com Sara foi que, mesmo que um nômade árabe ofereça uma bênção, deve-se estar devidamente atento para responder: “Amém”. Nunca se sabe qual é o verdadeiro veículo de bênção e salvação. Hashem possui muitos canais e mensageiros. Em alguns desses mensageiros, a divindade é inversamente proporcional à sua aparência.
O que nos cabe fazer é esperar, ouvir e rezar para que aquele que pode nos elevar seja, de fato, o portador da verdadeira bênção. E, então, precisamos acreditar.
Com frequência, deparamo-nos com inúmeras oportunidades de sermos abençoados. Seja por meio de uma tia que espalha sua bondade em uma reunião de família, ou de um simples mendigo parado diante de uma porta em um dia gélido de inverno, as bênçãos sempre surgem em nosso caminho. Às vezes, elas vêm de um colega de trabalho que nos oferece uma palavra de incentivo ao final de um longo dia, ou de um carteiro que, ao entregar as correspondências, nos deseja um “tenha um bom dia” — um gesto talvez rotineiro, mas significativo. Cada bênção é uma oportunidade que bate à nossa porta. E cada gesto de reconhecimento, acompanhado de um olhar voltado aos céus, pode abrir caminho para uma grande salvação. Só nos resta, portanto, permitir que essas bênçãos entrem.
Tradução: Mário Moreno.

