Até quando perdoar?

Mário Moreno/ setembro 11, 2017/ Artigos

Até quando perdoar?

Perdão… o conceito é muito profundo porém a atitude do perdão é algo que por vezes falta em nossa vida, pois temos dificuldades em exercer esta atitude de liberação da vida de alguém que nos fez mal.

Definindo o perdão

Perdão é: “O perdão é um processo mental ou espiritual de cessar o sentimento de ressentimento ou raiva contra outra pessoa ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida, diferenças, erros ou fracassos, ou cessar a exigência de castigo ou restituição”.

Baseados nesta definição entendemos que o perdão é uma atitude que independe de sentimentos, ou seja, não importa se uma pessoa sente que deve perdoar, é necessário o ato de liberar palavras de perdão para a vida daquele que nos prejudicou.

A tradição judaica nos traz algo muito interessante sobre o perdão:

“…As instruções pareciam claras: perdoe pelo bem do perdão. Perdoe não porque há um motivo que você entenda (pois talvez você jamais entenda Meus caminhos) nem porque Eu mereço (pois os caminhos que Eu manifesto muitas vezes são terríveis e assustadores). Perdoe unicamente por amor, para que possamos novamente ficar juntos. Perdoe porque você, criado à Minha imagem, também é um perdoador. Eu criei você com essa capacidade para que sempre, não importa o que aconteça em sua vida, você e Eu possamos estar juntos, prontos para um novo começo.

Não quero que a raiva e a culpa arruínem qualquer momento de minha vida, nem me afastem da unidade com a qual D’us criou o mundo e que somente eu tenho o poder de destruir.
Felizmente, D’us concedeu-me a capacidade de perdoar e agora, naqueles dias desde Iom Kipur, Ele me deu a oportunidade de revelar aquele perdão. Ele sabe que tanto Ele quanto eu, e todos aqueles que Ele e eu amamos, continuarão fazendo coisas imperdoáveis uns aos outros. E apesar do sofrimento mútuo que causaremos, precisaremos perdoar um ao outro.
Não perdoar seria uma falha insuportável na unidade da Criação.”

Fonte: http://www.chabad.org.br/datas/yomkipur/yom031.html.

Isso explica que existem momentos que em nossos sofrimentos atribuímos a culpa dos fatos ao Eterno, pois quando não encontramos um “culpado” nos voltamos para Ele a fim de descarregar nossa frustração pela inabilidade que temos de lidar com coisas e fatos que simplesmente desconhecemos.

A dimensão do perdão

Ieshua responde a uma pergunta de Kefa e define como isso deve ser feito:

“Então Kefa, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Ieshua lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” Mt 18.21-22.

Quando tentamos entender o contexto descobrimos que sempre que a Bíblia traz um número, há uma mensagem simbólica a ser ensinada mas que era de domínio público naquela época. Ou seja, todos entenderam as palavras ditas por Ieshua dentro do contexto em que foram proferidas. Vejamos um exemplo: “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis” Ap 13:18.

Estas palavras carregam consigo uma forte mensagem simbólica, pois na cultura israelita, números representam palavras, conceitos e até mesmo letras. Nos manuscritos hebraicos, 70X7 é shiv´im sheva. E estes termos tem um significado muito profundo dentro do judaísmo e nossos sábios nos mostram que o termo “sete” também pode ser lido como “shaveia” que significa “satisfeito, repleto”. Então podemos entender que o perdão precisa ser pleno, precisa satisfazer às determinações do Eterno bem como proporcionar a quem libera o perdão esta sensação de satisfação e de que chegou a um ponto em que atendeu às expectativas celestiais, pois na cultura israelita o número sete (7) significa algo pleno ou completo.

O perdão acerca do qual nos ensinou Ieshua é algo bem mais complexo, pois Ele atrelou o perdão de nossos erros ao perdão liberado por nós! Está escrito assim: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” Mt 6.12. Neste caso o perdão pressupõe que houve uma transgressão que gerou a culpa. A palavra “dívidas” vem do termo hebraico “´asham” que significa “ficar desolado, ser culpado, causar ofensa, reconhecer uma ofensa, transgredir”. Quem pecou – e portanto precisa de perdão – é o agente causador de algo negativo na vida de outrem. Porém Ieshua nos ensina que se queremos receber perdão e termos nossas “dívidas” perdoadas precisamos também liberar perdão para as pessoas que nos causaram dor de qualquer espécie. Neste caso uma coisa está vinculado à outra: não podemos receber perdão caso não perdoemos. É assim que funciona.

Qual deve ser o tamanho do perdão?

Agora vamos entender a palavra de Kefa: “Até quanto devo perdoar”? Até meu limite de achar que perdoei tudo o que podia?

A resposta de Ieshua já pressupõe que ele deve alcançar um padrão totalmente diferente daquele conhecido até então, pois pressupõe a satisfação de ambos os lados – humano e divino – na questão que envolve o perdão.

Um outro detalhe é que Ieshua acrescenta o termo 70×7. O número setenta (70) na cultura israelita era também associado às nações estrangeiras (Bereshit Raba 37). Então podemos dizer que o perdão deveria ser tão abrangente que alcançaria até mesmo todas as nações da terra! Isso é que é plenitude, o perdão deveria ser universal e atemporal, pois não se menciona quando isso deveria repetir-se – a constância do perdão – então podemos dizer que a cada dia esta regra se renovaria.

A grande dificuldade que encontramos aqui é que para um judeu da época perdoar um estrangeiro seria um conceito extremamente radical. Como perdoar alguém que me fez mal, me maltratou e que também me escravizou? A resposta é: abrindo a boca e liberando palavras de perdão para estas pessoas sobre esta situação! Não há outra forma de fazer isso.

Veja que o termo shiv´im é literalmente o plural de sheva. No hebraico o sufixo plural im frequentemente indica um superlativo. Vejamos alguns exemplos disso:

Kodesh kodashim – Santo dos santos (O lugar mais santo).

Melech ham´lachim – Rei dos reis (o rei supremo).

Portanto o termo “shiv´im sheva” pode ser lido como “até que tudo esteja completo”. O perdão relacionado a isso deve ter uma magnitude extraordinária, pois se ele é “superlativo” (que exprime a qualidade num grau muito elevado, ou no mais elevado) então o tamanho, a abrangência e a intensidade do perdão deverão ser sempre grandiosas! Conforme já foi dito é necessário que perdoemos ao nosso próximo de uma forma grandiosa, ou seja, o perdão deve ser liberado para a pessoa que te magoou independentemente do tamanho ou da intensidade da ofensa! O perdão deve sempre superar e muito aquilo que foi feito contra você.

Esta é uma perspectiva fácil de ser entendida, porém viver a situação em si é muito mais complexo, pois envolve mecanismos emocionais que por vezes nos impedem de tomarmos a atitude de liberar palavras contendo o perdão. Esta é a razão pela qual devemos falar e não sentir que estamos perdoando alguém! As palavras quando ditas nesta área – liberando perdão para alguém – causam a libertação na pessoas que está dizendo isso e para a pessoa a quem está sendo dirigido o perdão.

Esta liberação que traz consigo libertação é uma condição fundamental para que possamos viver nossa vida de forma adequada, pois a retenção do perdão atrai outras situações que podem chegar à “raiz de amargura” que literalmente traz consigo várias enfermidades e finalmente a morte.

Perdoar para sempre

O termo 70×7 está ligado as 70 semanas de Dani´el (70×7) e significam “a consumação de tudo”. E quando destas palavras foram ditas a Kefa, ele também imediatamente associou as 70 semanas de Dani´el (70×7) que indicavam perdão e redenção.

Isso significa que se o Eterno nos perdoa e nos redime até a consumação dos séculos, devemos fazer o mesmo.

O perdão deve trazer consigo uma condição tão esplêndida que resultará na redenção das vidas envolvidas com o problema. A redenção é a salvação de um mal iminente; portanto o perdão é de fato a salvação de um mal que está para ser desencadeado sobre as partes envolvidas no problema: a morte!

E mais: o número 490 (70×7) tem simbologia especial. Na cultura israelita significa “perfeição”. Está associado com a palavra “tamim” cujas letras somam 490, e que representa um conceito importante na Torah do Eterno. Deuteronômio 18.13 nos diz: “Perfeito serás, como o IHVH teu Elohim”. Mas você pode dizer: “Isso está na Torah”! Agora vivemos numa outra condição, na graça! Então vamos ver as palavras de Sha´ul que nos dizem:

“Porque nos regozijamos de estar fracos, quando vós estais fortes; e o que desejamos é a vossa perfeição. Portanto, escrevo estas coisas estando ausente, para que, estando presente, não use de rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificação e não para destruição. Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, estai consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Elohim de amor e de paz será convosco” II Co 13.9-11.

“E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” Cl 3.13.

Estas palavras nos mostram que há uma associação clara do amor com a perfeição! E o amor perdoa a qualquer um e a qualquer tempo! Detalhe: amar é mandamento e não opção! E o amor está ligado ao Criador, pois está escrito: “Quem não ama, não tem conhecido a Elohim, porque Elohim é amor” I Jo 4.8. E quem não ama além de não ter um relacionamento com o Criador está arriscado a oir pra o inferno por conta da falta deste “sentimento” que é ao mesmo tempo um mandamento e que é também a presença do Criador em nossa vida!

Finalizando podemos dizer que assim podemos entender as palavras de Ieshua:

“Devemos perdoar enquanto este mundo existir. Deves também perdoar a todos, independente de sua origem, para que sejas perfeito em tua fé é preciso perdoar sem medida ou limite”.

As lições que podemos aprender são:

– Não podemos limitar o perdão, pois o perdão do Eterno é ilimitado;

– Não podemos escolher a quem perdoar;

– Para andarmos em perfeição como Ieshua andou não basta a obediência. Temos de perdoar de forma ilimitada como Ele nos perdoou.

Baruch há Shem!

Mário Moreno.