O “Brit” Abre Portas

Mário Moreno/ outubro 27, 2026/ Artigos

D-us disse a Avram: “Parta… e Eu tornarei o seu nome grande”. O “Brit Milá” (circuncisão) mudou tudo. Isso não fica tão claro na “parashá” (leitura semanal da Torah), mas ficará evidente ao final da história.

A narrativa continua de onde parou na semana passada — assim como os participantes de um “Brit” seguem para a “seudá” (refeição festiva) logo após a cerimônia, sem refletir muito sobre o que acabou de acontecer. Foi apenas mais um “Brit” — e, de fato, foi; milhões deles foram realizados desde que Avraham cumpriu o primeiro. Com esse rito de passagem, mais um menino foi introduzido na aliança original.

Tudo isso é verdade, mas há muito mais envolvido. Se você não compreende como a história funciona, o significado do “Brit” lhe escapará. Isso ocorre porque grande parte do que o “Brit” realiza no mundo acontece abaixo da superfície, nos bastidores. É preciso olhar mais a fundo para perceber os impactos incrivelmente dinâmicos que um único “Brit” exerce sobre a Criação e a retificação do mundo.

Yechezkel (Ezequiel), ao falar sobre a redenção final, diz:

“E lhes darei um novo coração, e um novo espírito porei dentro de vocês; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” (Ez 36.26)

Obviamente, o profeta não estava se referindo a uma cirurgia cardíaca em escala nacional — pelo menos não no sentido físico. Ele falava, na verdade, de uma “milá” (circuncisão) do coração em nível nacional, como expressa a Torah:

“E o Eterno, seu D-us, circuncidará o seu coração e o coração da sua descendência, para que você ame o Eterno, seu D-us, com todo o seu coração e com toda a sua alma, para que você viva.” (Dt 30.6)

Isso significa que a diferença entre um coração de pedra e um de carne não reside no coração em si, mas no que o reveste — uma espécie de “orlá” (cobertura/impureza) espiritual. Alguns argumentam que isso é, na verdade, algo positivo, pois, de outra forma, jamais teríamos conseguido sobreviver emocionalmente a tudo o que passamos como uma nação, se tivéssemos tido corações de carne. Mas, francamente, nem sequer sobrevivemos a tudo isso, mesmo com corações de pedra. Por outro lado, se não tivéssemos perdido nossos corações de carne, talvez não tivéssemos passado por tudo o que passamos, no fim das contas.

Quando foi, afinal, que perdemos nossos corações de carne? A Guemará diz que Adam HaRishon (Adão, o Primeiro Homem) foi criado sem nenhuma “orlá” (uma “cobertura” ou bloqueio), e que ele a criou para si mesmo após seu pecado (Sanhedrin 38a). É claro que tudo o que diz respeito a Adam HaRishon e ao seu “chet” (pecado) raramente é o que parece ser à primeira vista; trata-se, geralmente, de algo cabalístico — o que o GR”A (Gaon de Vilna) confirma ao explicar que isso significa que ele perdeu sua clareza intelectual. Em essência, isso resultou em uma desconexão entre a mente e o coração — uma falha que fomos expulsos do Paraíso para corrigir.

Como fazemos isso? Poder-se-ia pensar que o estudo da Torah seria suficiente, mas acontece que não é. Com o tempo, percebemos isso e demos início ao chamado “Movimento Mussar”, voltado a reconectar a mente ao coração, o intelecto à “Menschlichkeit” (humanidade/integridade moral). Mas esse é apenas um nome mais recente para algo que a Torah aborda desde o início: “Derech Eretz” (conduta ética/postura adequada perante o mundo).

A Torah diz:

E D-us o enviou para fora do Jardim do Éden, para cultivar o solo do qual ele havia sido tirado. Ele expulsou o homem e, a leste do Jardim do Éden, posicionou os “keruvim” (querubins) e a lâmina da espada flamejante que girava, para guardar o caminho para a Árvore da Vida. (Gn 3.23–24)

Mas o Midrash interpreta:

“Caminho”? Refere-se a “Derech Eretz”. (Vayikra Rabbah 9:3)

Pelo versículo, parece que fomos impedidos de acessar a “Etz HaChaim” (Árvore da Vida). Mas sabemos que não é bem assim, pois a Torah é chamada de “Árvore da Vida”, e estudá-la é a missão de nossa vida. Com a interpretação do Midrash, compreendemos agora que não fomos totalmente impedidos de acessar a árvore; Simplesmente não conseguimos acessá-la adequadamente sem “Derech Eretz” — ponto que o “Leshem” também abordou em relação ao “Ohr HaGanuz”, a luz que D-us ocultou no primeiro dia da Criação e que constitui a base da Torah:

D-us viu que a luz era boa, e D-us separou a luz das trevas. (Gn 1.4)

Ele viu que os ímpios não eram dignos de usá-la; por isso, reservou-a para os justos no Tempo Futuro. (Rashi)

Ele estabeleceu uma separação na iluminação dessa luz, de modo que ela não fluísse nem irradiasse, exceto para os justos, cujas ações a atraem e a fazem brilhar. Em contrapartida, as ações dos ímpios a bloqueiam, deixando-os na escuridão. É precisamente nisso que consiste o ocultamento da luz. (“Sefer HaKlallim”, “Klal” 18, “Anaf” 8, item 4)

O “Leshem” não mencionou “talmidei chachamim” (estudiosos da Torah), pois é possível ser um estudioso sem ser, necessariamente, um “tzaddik” (justo). Da mesma forma, não é preciso ser o maior dos estudiosos para ser um “tzaddik”; basta possuir muito “Derech Eretz”. Pois é o nosso “Derech Eretz” que revela o quanto a nossa Torah percorreu o caminho da mente ao coração, o quanto ela conseguiu romper a “orlah” (o bloqueio/a “casca”) que a impedia de avançar. É nesse momento que ela deixa o nível técnico de “Chochmah” (sabedoria / intelecto) e se transforma em “Da’at” — um elemento de importância fundamental.

Tradução: Mário Moreno

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