Hapax Legomena – Dez Exemplos Bíblicos
Para enriquecer a sonoridade do texto para seu público, os autores bíblicos exploraram as profundezas do léxico hebraico em busca de palavras raras e aliterativas — algumas das quais aparecem apenas uma vez na Bíblia.
Um “hapax legomenon” (ou “hapax”, abreviadamente; plural: “hapax legomena”) é uma palavra que ocorre apenas uma vez em um determinado “corpus” literário. Derivado da expressão grega “ἅπαξ λεγόμενον”, que significa “dito uma vez” ou “pronunciado uma vez”, o termo foi cunhado por estudiosos de Homero em Alexandria, durante o período helenístico, enquanto analisavam a “Ilíada” e a “Odisseia”.[1]

Provavelmente sob a influência da tradição acadêmica grega — que perdurou até o início da Idade Média —, o esforço para identificar, explicar e definir os “hapax legomena” chegou aos estudiosos do hebraico por volta do século X d.C. Saʿadya Gaon (882‒942) escreveu a primeira obra dedicada a palavras que aparecem apenas uma vez na Bíblia: “Kitab al-Sabʿin Lafẓah” (traduzido para o hebraico como “Pitron Shivʿim Millim”, ou “O Livro das Setenta Palavras”).[2]
Os estudiosos medievais criaram diversas expressões para designar tais palavras únicas:
“ein lo ach” (“não tem irmão”);
“ein lo reaʿ” (“não tem companheiro”);
“ein lo dimyon” (“não tem equivalente”); e assim por diante.[3]
O estudo dessas palavras singulares continuou na era moderna, começando com um artigo pioneiro do notável Abraham S. Yahuda (1877–1951)[4] — a primeira pessoa a ocupar uma cátedra acadêmica em Estudos Judaicos em uma universidade moderna.[5]
Raras apenas no “corpus”?
Não é possível determinar se um “hapax” bíblico específico era um termo comum no hebraico antigo — que, por acaso, aparece apenas uma vez no “corpus” — ou se tratava, de fato, de uma palavra rara, empregada com algum propósito literário ou estilístico. A pesquisa pioneira de Frederick Greenspahn, contudo, indica que, de modo geral, os “hapax legomena” eram, de fato, palavras raras no léxico; portanto, a segunda opção é a mais provável.[6]
A oralidade na literatura antiga, incluindo a Bíblia
Hoje, quase toda leitura é feita em silêncio. O leitor pega um livro e processa as palavras por meio da visão. Na antiguidade, porém, uma pessoa segurava o texto escrito e apresentava a composição em voz alta para um público de ouvintes, reunidos, digamos, ao redor de uma fogueira (em um ambiente pastoral) ou na praça da cidade (em um contexto mais urbano).[7] Assim, o processo de leitura ocorria da boca (oral) para o ouvido (auditivo).[8]
Nesses contextos, a sonoridade das palavras era tão importante quanto o seu significado ou o conteúdo da obra literária. “Hapax legomena” e outros vocábulos raros eram frequentemente empregados — tanto em prosa quanto em poesia — por razões estilísticas, motivadas principalmente pela necessidade de criar aliterações, a fim de cativar o ouvinte por meio dos próprios sons que compõem o verso.[9]
Seguem dez exemplos:
1. גּפֶֹר (“gopɛr”) e כֹּפֶר (“kofɛr”)
Antes do Dilúvio, IHVH dá a Noé instruções detalhadas sobre como construir a arca:
Gênesis 6:14: “Faz para ti uma arca de madeira de “gopher”; farás compartimentos na arca e a revestirás, por dentro e por fora, com betume (“kofɛr”).”
Gênesis 6:14: Faz para ti uma arca de madeira de “gopher”; farás compartimentos na arca e a revestirás, por dentro e por fora, com betume (“kofɛr”).[10] As palavras גּפֶֹר (“gopɛr”) e כֹּפֶר (“kofɛr”) são, ambas, “hapax legomena” (termos que ocorrem apenas uma vez). A primeira é tipicamente traduzida como “madeira de “gopher”” — mas apenas por convenção, uma vez que árvores do tipo “gopher” não são encontradas nos registros botânicos. O termo refere-se, quase certamente, a um tipo de cipreste, com base em:
1. A semelhança entre a forma hebraica גּפֶֹר (“gopֶr”) e a palavra grega κυπάρισσος (“kyparissos”) — da qual derivam o latim “cupressus” e, posteriormente, o inglês “cypress” (cipreste);[11] e
2. O uso de madeira de cipreste na construção naval antiga, visto que essa árvore alta permitia a obtenção de longas tábuas, e sua madeira é relativamente resistente ao apodrecimento causado pela umidade.[12]
O termo padrão para “cipreste” na Bíblia é בְּרוֹשׁ (“bəroš”), que aparece vinte vezes (por exemplo, em Ez 27.5).
A última palavra do versículo, “kofɛr”, significa “betume” (ou “piche”).[13] O hebraico também apresenta outras opções possíveis dentro do campo semântico de “betume/piche”, a saber: חֵמָר (“ḥemar”), “argila/betume”, e זֶפֶת (“zɛpɛt”), “betume” (por exemplo, em Gn 11.3; Êx 2.3).[14]
Em vez de utilizar termos mais comuns, o autor recorreu ao léxico hebraico em busca de palavras que contivessem as consoantes ג.פ.ר (“g-p-r”) e כ.פ.ר (“k-p-r”), criando, assim, uma aliteração entre elas. A única distinção entre os dois conjuntos consonantais reside na consoante oclusiva velar sonora /g/ (no primeiro caso) e na consoante oclusiva velar surda /k/ (no segundo).[15]
2. מְטַחֲוֵי məṭaḥawe e חֵמֶת ḥemɛt
Após o nascimento de Isaque, Avraham manda embora Agar e Ismael:
בראשׁית כא:יד וַיַּשְׁכֵּם אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר וַיִּקַּח לֶחֶם וְחֵמַת מַיִם וַיִּתֵּן אֶל הָגָר שָׂם עַל שִׁכְמָהּ וְאֶת הַיֶּלֶד וַיְשַׁלְּחֶהָ וַתֵּלֶךְ וַתֵּתַע בְּמִדְבַּר בְּאֵר שָׁבַע. כא:טו וַיִּכְלוּ הַמַּיִם מִן הַחֵמֶת וַתַּשְׁלֵךְ אֶת הַיֶּלֶד תַּחַת אַחַד הַשִּׂיחִם. כא:טז וַתֵּלֶךְ וַתֵּשֶׁב לָהּ מִנֶּגֶד הַרְחֵק כִּמְטַחֲוֵי קֶשֶׁת כִּי אָמְרָה אַל אֶרְאֶה בְּמוֹת הַיָּלֶד וַתֵּשֶׁב מִנֶּגֶד וַתִּשָּׂא אֶת קֹלָהּ וַתֵּבְךְּ.
Gên 21:14 Avraham levantou-se de manhã cedo, pegou pão e um odre com água, e os entregou a Hagar, colocando-os sobre o seu ombro — juntamente com a criança — e a despediu; ela partiu e vagou pelo deserto de Berseba. 21:15 E a água do odre acabou; então, ela deixou a criança sob um dos arbustos. 21:16 E foi sentar-se defronte dela, à distância de um tiro de arco, pois disse: “Que eu não veja a morte da criança”; sentou-se, pois, defronte, levantou a voz e chorou.
A palavra מְטַחֲוֵי (“məṭaḥawe”), “atiradores de”, é um “hapax”.[16] חֵמֶת (“ḥemɛt”) — na forma construta, חֵמַת (“ḥemat”) — “odre”, é classificada como um quase-”hapax”, pois, embora o substantivo apareça três vezes, todas as ocorrências estão na mesma narrativa (nos versículos 14, 15 e 19). As duas formas foram escolhidas por incorporarem sons semelhantes. Além disso, outras palavras contribuem para o efeito sonoro:
• תַּחַת (“taḥat”), “sob”, e אַחַד (“ʾaḥad”), “um” (v. 15) — ambas contêm a sequência /ḥ/ + /dental/; e
• לֶחֶם (“lɛḥɛm”), “pão” (v. 14), e שִׂיחִם (“śiḥim”), “arbustos” (v. 15) — ambas contêm a sequência /ḥ/ + /m/.
3. מִשְׁתָּאֵה mištaʾɛ
Quando o servo de Avraham procura uma esposa para Isaque, ele encontra Rebeca no poço:
בראשׁית כד:כ וַתְּמַהֵר וַתְּעַר כַּדָּהּ אֶל הַשֹּׁקֶת וַתָּרָץ עוֹד אֶל הַבְּאֵר לִשְׁאֹב וַתִּשְׁאַב לְכָל גְּמַלָּיו. כד:כא וְהָאִישׁ מִשְׁתָּאֵה לָהּ מַחֲרִישׁ לָדַעַת הַהִצְלִיחַ יְ־הוָה דַּרְכּוֹ אִם לֹא.
Gênesis 24:20 E ela se apressou, e esvaziou o seu jarro no cocho, e correu novamente ao poço para tirar água; e ela tirou água para todos os seus camelos. 24:21 E o homem está olhando para ela, em silêncio, para saber se IHVH fez seu caminho bem-sucedido ou não.
A palavra מִשְׁתָּאֵה mištaʾɛ, “olhar”, da raiz verbal שׁ.א.ה/י, ocorre apenas aqui na Bíblia e está cercada por uma série de palavras aliterativas. A raiz שׁ.ת.ה/י š-t-h, “beber”, ocorre três vezes (vv. 18, 19, 22), e a raiz שׁ.א.ב š-ʾ-b, “tirar água”, ocorre duas vezes (vv. 19, 20). A forma וַתִּשְׁאַב wattišʾab, “e ela tirou (água)” (v. 20), que alitera mais de perto com מִשְׁתָּאֵה mištaʾɛ, “contemplando” (v. 21), com apenas três palavras intervindo – e uma dessas palavras é o substantivo comum אִישׁ ʾiš, “homem” – aumenta ainda mais o efeito auditivo.
4. הַקֻּבָּה haq-qubba
Em Baal Peor, Phineas vê um homem israelita se relacionando com uma mulher midianita e executa os dois:
במדבר כה:ח וַיָּבֹא אַחַר אִישׁ יִשְׂרָאֵל אֶל הַקֻּבָּה וַיִּדְקֹר אֶת שְׁנֵיהֶם אֵת אִישׁ יִשְׂרָאֵל וְאֶת הָאִשָּׁה אֶל קֳבָתָהּ וַתֵּעָצַר הַמַּגֵּפָה מֵעַל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל.
Números 25:8 E ele [ou seja, Pinḥas] veio atrás do homem israelita até a câmara da tenda, e perfurou os dois, o homem israelita e a mulher em seu abdômen; e a praga sobre os filhos de Israel cessou.
הַקֻּבָּה haq-qubba, “a câmara da tenda”, é um hapax: a palavra normal é אֹהֶלʾohɛl, “tenda”, embora provavelmente qubba se refira à parte mais interna de uma tenda, daí minha glosa “a câmara da tenda”. A palavra קֳבָתָהּ qobatah, “seu abdômen”, aparece apenas aqui e em Deuteronômio 18:3, em uma forma ligeiramente diferente, הַקֵּבָה haq-qeba. A reprodução do som é óbvia.
Auxiliando o efeito auditivo aqui está a palavra הַמַּגֵּפָה ham-maggepa, “a praga”, cujo som velar /g/ sonoro corresponde ao velar enfático surdo /q/ das outras duas palavras, e cujos labiais /m/ e /p/ ecoam o som do /b/ labial das outras duas palavras.
5. הַפַּרְשְׁדֹנָה hap-paršədona e הַמִּסְדְּרוֹנָה ham-misdərona
Para acabar com a opressão moabita sobre os israelitas, Eúde mata Eglom, rei de Moabe:
שׁפטים ג:כב וַיָּבֹא גַם הַנִּצָּב אַחַר הַלַּהַב וַיִּסְגֹּר הַחֵלֶב בְּעַד הַלַּהַב כִּי לֹא שָׁלַף הַחֶרֶב מִבִּטְנוֹ וַיֵּצֵא הַפַּרְשְׁדֹנָה. ג:כג וַיֵּצֵא אֵהוּד הַמִּסְדְּרוֹנָה וַיִּסְגֹּר דַּלְתוֹת הָעַלִיָּה בַּעֲדוֹ וְנָעָל.
Juízes 3:22 O punho também entrou após a lâmina, e a gordura fechou-se ao redor da lâmina, pois ele não retirou a espada de seu ventre; e as fezes saíram. 3:23 Eúde saiu pelo pórtico lateral, fechou as portas do cenáculo atrás de si e trancou-as.
Em uma demonstração brilhante de exploração profunda do léxico hebraico, o autor da perícope de Eúde insere dois “hapax legomena” (palavras que ocorrem apenas uma vez) dentro de um grupo de quatro vocábulos que conectam duas orações: “hap-paršədona” (הַפַּרְשְׁדֹנָה), “as fezes”, e “ham-misdərona” (הַמִּסְדְּרוֹנָה), “pelo pórtico lateral” (ou algum termo arquitetônico equivalente). A correspondência entre as consoantes é notável:
• Ambos contêm os sons /r/ e /d/, além de compartilharem o sufixo “-on” (ou, mais especificamente, “-ona”); e
• Há uma correspondência entre os dois conjuntos de sibilantes (/š/ e /s/) e de labiais (/p/ e /m/).
6. וְיִצְפֹּר wə-yiṣpor
Preocupado com a possibilidade de os israelitas receberem o crédito pela vitória na batalha contra os midianitas, IHVH diz a Gideão para reduzir o número de soldados em seu exército:
שׁפטים ז:ג וְעַתָּה קְרָא נָא בְּאָזְנֵי הָעָם לֵאמֹר מִי יָרֵא וְחָרֵד יָשֹׁב וְיִצְפֹּר מֵהַר הַגִּלְעָד וַיָּשָׁב מִן הָעָם עֶשְׂרִים וּשְׁנַיִם אֶלֶף וַעֲשֶׂרֶת אֲלָפִים נִשְׁאָרוּ. ז:ד וַיֹּאמֶר יְ־הוָה אֶל גִּדְעוֹן עוֹד הָעָם רָב הוֹרֵד אוֹתָם אֶל הַמַּיִם וְאֶצְרְפֶנּוּ לְךָ שָׁם….
Juízes 7:3 “Agora, pois, proclama aos ouvidos do povo, dizendo: ‘Quem for medroso e estiver tremendo, que volte e se retire do monte Gileade’”; e vinte e dois mil do povo voltaram, restando dez mil. 7:4 E YHWH disse a Gideão: “O povo ainda é numeroso demais; leva-os às águas, para que eu os prove ali para ti…”
Não se sabe ao certo o que o “hapax” “wə-yiṣpor” (וְיִצְפֹּר), da raiz “ṣ-p-r” (צ.פ.ר), conota. O verbo “saltar” é uma tradução aceitável, pois o contexto exige um verbo de movimento — algo que possa ser associado a “retornar” — à medida que o indivíduo desce da montanha.[17] O versículo seguinte traz uma palavra de sonoridade semelhante no verbo-chave “wəʾɛṣrəpɛnnu” (וְאֶצְרְפֶנּוּ), “para que eu o purifique” (referindo-se ao substantivo masculino singular “ha-ʿam” [הָעָם], “o povo”), derivado da raiz “ṣ-r-p” (צ.ר.ף), “purificar”. As duas raízes verbais são anagramas uma da outra.
7. לַהֲקַת lahaqat
A tentativa do rei Saul de prender Davi falha:
שׁמואל א יט:כ וַיִּשְׁלַח שָׁאוּל מַלְאָכִים לָקַחַת אֶת דָּוִד וַיַּרְא אֶת לַהֲקַת הַנְּבִיאִים נִבְּאִים וּשְׁמוּאֵל עֹמֵד נִצָּב עֲלֵיהֶם וַתְּהִי עַל מַלְאֲכֵי שָׁאוּל רוּחַ אֱלֹהִים וַיִּתְנַבְּאוּ גַּם הֵמָּה.
1 Sm 19:20 E Saul enviou mensageiros para prender Davi, e ele viu um grupo de profetas profetizando, e Samuel estava posicionado sobre eles; e sobre os mensageiros de Saul estava o espírito de D-us, e eles também profetizaram.
O substantivo לַהֲקַת lahaqat, “quadro de”, ocorre próximo a לָקַחַת laqaḥat, “tomar”, com מַלְאָכִים malʾakim, “mensageiros” e מַלְאֲכֵי malʾake, “mensageiros de”, aumentando o efeito acústico. Cada uma dessas palavras tem /l/ + consoante velar (ou /q/ ou /k/) + consoante produzida ainda mais profundamente na garganta (ou /h/, /ḥ/, ou /ʾ/); além disso, as duas primeiras palavras-chave compartilham o som /t/ final.
8. כְּלוּלֹתָיִךְ kəlulotayik
Jeremias retrata o amor entre D-us e o povo de Israel como a de um jovem casal de noivos:
ירמיה ב:ב הָלֹךְ וְקָרָאתָ בְאָזְנֵי יְרוּשָׁלִַם לֵאמֹר כֹּה אָמַר יְ־הוָה זָכַרְתִּי לָךְ חֶסֶד נְעוּרַיִךְ אַהֲבַת כְּלוּלֹתָיִךְ לֶכְתֵּךְ אַחֲרַי בַּמִּדְבָּר בְּאֶרֶץ לֹא זְרוּעָה.
Jeremias 2:2 Vai e proclama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz IHVH: Lembro-me de ti, da fidelidade da tua mocidade, do amor da tua noiva;[19] de teres ido atrás de mim no deserto, numa terra não semeada.
O profeta selecionou כְּלוּלֹתָיִךְ kəlulotayik, “sua noiva”, para criar um efeito auditivo com a seguinte palavra, לֶכְתֵּךְ lɛktek “sua partida”, do verbo comum ה.ל.ך h-l-k, “ir”. As consoantes do primeiro, /k/–/l/–/l/–/t/–/k/, reaparecem no último, que contém a string /l/–/k/–/t/–/k/.
9. תּוֹלָלֵינוּ tolalenu
Num poema exílico para Jerusalém, um salmista anônimo lamenta:
תהלים קלז:ב עַל עֲרָבִים בְּתוֹכָהּ תָּלִינוּ כִּנֹּרוֹתֵינוּ. קלז:ג כִּי שָׁם שְׁאֵלוּנוּ שׁוֹבֵינוּ דִּבְרֵי שִׁיר וְתוֹלָלֵינוּ שִׂמְחָה שִׁירוּ לָנוּ מִשִּׁיר צִיּוֹן.
Sal 137:2 Nos salgueiros dela [sc. No meio da Babilônia, penduramos nossas liras. 137:3 Pois ali nossos captores nos pediram palavras de canção, e nossos arrastadores (por) alegria: “Cantem para nós uma canção de Sião”.
O significado exato de “tolalenu” (תּוֹלָלֵינוּ) — “aqueles que nos arrastam” — tem intrigado os estudiosos. A solução adequada foi apresentada por Alfred Guillaume, que chamou a atenção para o fato de que a raiz “t-l-l” (ת.ל.ל) significa “amarrar e arrastar” em árabe (na 4ª forma).[20] Um reforço adicional vem do jibbali (uma língua semítica falada em Omã), na qual o verbo “t-l-l” significa “arrastar atrás de si”.[21]
Existe em hebraico um termo mais comum para “arrastar”, derivado da raiz “s-ḥ-b” (ס.ח.ב) — atestada cinco vezes na Bíblia —, mas a palavra “tolalenu” (תּוֹלָלֵינוּ), “aqueles que nos arrastam”, foi escolhida por ecoar a sonoridade do verbo “talinu” (תָּלִינוּ), “nós penduramos”, que aparece no versículo anterior.
10. “loaʿ” (לֺעַ)
Provérbios e ditados populares, na maioria das línguas do mundo, frequentemente recorrem a jogos sonoros (rimas, assonâncias, aliterações, etc.). Pense, por exemplo, em expressões em inglês como “forgive and forget” (perdoar e esquecer) ou “practice makes perfect” (a prática leva à perfeição). O exemplo a seguir ilustra bem esse ponto:
Provérbios 23:2: “E ponha uma faca na sua garganta, se você for um ‘homem de apetite’.” A palavra לֹעַ (“loaʿ”), “garganta” (ou “goela”), aparece no lugar de seu sinônimo mais comum, גָּרוֹן (“garon”), “garganta” (que ocorre 8 vezes na Bíblia). A adição do prefixo preposicional בְּ- (“bə-”), “em”, resulta na sequência de consoantes /b/–/l/–/ʿ/. O substantivo hebraico comum בַּעַל (“baʿal”), “senhor, mestre”, é utilizado duas palavras adiante como o primeiro elemento da expressão idiomática בַּעַל נֶפֶשׁ (“baʿal nɛpɛš”), “senhor do apetite” — isto é, alguém com um apetite vigoroso —, apresentando as três consoantes /b/–/ʿ/–/l/ em uma disposição anagramática.
Preste atenção!
Estes dez exemplos de “hapax legomena” — termos que ocorrem apenas uma vez — empregados especificamente com o propósito de criar aliterações, refletem um fenômeno mais amplo na Bíblia. Da próxima vez que você estiver lendo a Bíblia e encontrar uma palavra pouco familiar, observe o contexto (ou, melhor ainda, preste atenção à sonoridade); é muito provável que você depare com outras palavras de sonoridade semelhante nas proximidades. Esse é um dos prazeres do texto[22], tanto na Bíblia quanto na literatura em geral.
Posscriptum

O Jogo Sonoro na Literatura Inglesa
Alguns exemplos bem conhecidos de obras em língua inglesa, que mostram como os sons das palavras contribuem para o efeito literário, ilustram o fenômeno aqui discutido. Shakespeare, ciente de que suas peças seriam encenadas — com atores proferindo as palavras e o público ouvindo-as —, recorria frequentemente à aliteração.
O bardo criou, por exemplo, combinações encantadoras como “we band of brothers” (nós, um bando de irmãos — “Henrique V”, Ato IV, Cena 3), proferida pelo personagem-título no famoso discurso do Dia de São Crispim; ou a expressão “the vapor of our valor” (o vapor de nosso valor — “Henrique V”, Ato IV, Cena 2), usada pelo Condestável da França, comandante das tropas francesas na Batalha de Agincourt. Nesta última, a palavra “vapor” substitui o termo mais comum “breath” (fôlego/respiração), a fim de produzir a aliteração desejada. Vale notar que “breath” é empregado com mais frequência por Shakespeare — inclusive, como seria de esperar, para fins de aliteração —, em passagens como: “The King shall drink to Hamlet’s better breath” (O Rei beberá por um fôlego melhor para Hamlet — “Hamlet”, Ato V, Cena 2), dita por Cláudio; “Ah balmy breath” (Ah, hálito suave — “Otelo”, Ato V, Cena 2), dirigida por Otelo a Desdêmona; e, talvez a mais célebre, “with bated breath” (com a respiração suspensa — “O Mercador de Veneza”, Ato I, Cena 3).
Outro excelente exemplo extraído da obra de Shakespeare encontra-se nestes versos: “Here I disclaim all my paternal care, / Propinquity and property of blood” (Aqui renuncio a todo o meu cuidado paternal, / Proximidade e laços de sangue — “Rei Lear”, Ato I, Cena 1). Este trecho marca a única ocorrência do termo “propinquity” (proximidade/parentesco) em toda a obra de Shakespeare. A palavra era relativamente rara no início do século XVII — e o fato de o dramaturgo tê-la inserido entre “paternal” e “property” confere o ênfase pretendido. Da mesma forma, lembre-se da descrição que Fluellen faz do Duque de Exeter, chamando-o de “tão magnânimo quanto Agamenon” (“Henrique V”, Ato III, Cena 6). Existem muitas outras figuras heroicas e magnânimas da Antiguidade[23] — personagens que, em sua totalidade ou na maior parte, seriam bem conhecidas pelo público de Shakespeare (seja por meio do “corpus” homérico ou da tragédia de Ésquilo) —, mas apenas Agamenon se encaixa perfeitamente “alliterationis causa” (por causa da aliteração).
E não apenas Shakespeare, é claro, mas também escritores britânicos e americanos posteriores. Considere, por exemplo, a estrofe final do poema “Sing Me a Song of a Lad that is Gone”, de Robert Louis Stevenson, que utiliza a expressão “billow and breeze” (onda e brisa) para evocar a experiência de navegar da costa principal da Escócia até a ilha de Skye — não “wind and squall” (vento e rajada) ou “gust and wind” (vendaval e vento), nem qualquer outra combinação possível, mas sim a expressão aliterada “billow and breeze”.
E não apenas poetas e dramaturgos, mas também prosadores com grande domínio da língua inglesa recorreram à aliteração para enriquecer suas criações literárias. Por exemplo, Henry David Thoreau, em sua obra clássica “Walden”, declara: “Não me sinto mais solitário do que o mergulhão no lago, que ri tão alto, ou do que o próprio lago Walden” — em que os sons em /l/ evocam o ruído da água batendo suavemente na margem do lago Walden, algo que este autor e sua esposa, Melissa, observaram e apreciaram em diversas ocasiões.
Assim como Shakespeare, Stevenson e Thoreau, muitos grandes literatos do antigo Israel também fizeram uso desse recurso. Vale ressaltar: os sons de um texto são tão cruciais para sua produção e apresentação quanto o seu conteúdo e o seu contexto.[24]
Notas de rodapé
1. Para uma orientação geral, veja Maya Nandakumar, “How Do You Decode a Hapax? (Also, What’s a Hapax?)”, Atlas Obscura, 7 de setembro de 2017. Para detalhes mais específicos, veja Harold R. (Chaim) Cohen, “Biblical Hapax Legomena in the Light of Akkadian and Ugaritic”, SBL Dissertation Series 37 (Missoula, MT: Scholars Press, 1978), 1.
2. A edição de referência continua sendo a de Nehemia Allony, “Kitāb al-Sabʿīn Lafẓah” (כתאב אלסבעין לפט׳ה) de Rav Saadia Gaon, em “Ignace Goldziher Memorial Volume”, vol. 2 (Jerusalém: Reuben Mass, 1958), seção em hebraico, pp. 1‒48. Para um artigo importante em inglês, que traz uma introdução geral ao “Kitāb al-Sabʿīn Lafẓah” — incluindo o fólio mais recentemente identificado —, veja Aron Dotan, “A New Fragment of Saadiah’s Sabʿīn Lafẓah”, “Jewish Quarterly Review” 80 (1989): 1‒14. Outros gramáticos hebraicos medievais (tanto rabanitas quanto caraítas) produziram tratados adicionais dedicados a palavras raras ou únicas na Bíblia. Para uma visão geral, veja Cohen, “Hapax Legomena”, 2‒4.
3. Veja Frederick E. Greenspahn, “Hapax Legomena in Biblical Hebrew: A Study of the Phenomenon and Its Treatment since Antiquity with Special Reference to Verbal Forms”, SBL Dissertation Series 74 (Chico, CA: Scholars Press, 1984), 4, n. 11, que apresenta numerosos exemplos. Essas expressões chegaram até os tradutores da Versão King James (1611) — todos eles hebraístas competentes (ou, pelo menos, aqueles que trabalharam no Antigo Testamento) — por meio da leitura de comentaristas judeus, como Rashi e David Qimḥi.
4. Abraham S. Yahuda, “Hapax Legomena im Alten Testament”, Jewish Quarterly Review 15 (1903): 698‒714.
5. Allyson Gonzalez, “Abraham S. Yahuda (1877–1951) and the Politics of Modern Jewish Scholarship”, Jewish Quarterly Review 109 (2019): 406–433. Veja também Hellen Mardaga, “Hapax Legomena: A Neglected Field in Biblical Studies”, Currents in Biblical Research 10 (2012): 264‒274; e trabalhos de minha autoria, por exemplo: Gary A. Rendsburg, “Talpiyyôt (Song 4:4)”, Journal of Northwest Semitic Languages 20 (1994): 13‒19; e Gary A. Rendsburg e Ian Young, “שֶׁמֶן תּוּרַק šεmεn turaq (Song 1:3)”, em Le-maʿan Ziony: Essays in Honor of Ziony Zevit, org. Gary A. Rendsburg e Frederick E. Greenspahn (Eugene, OR: Cascade Books, 2017), 383‒396.
6. Greenspahn, Hapax Legomena in Biblical Hebrew. Veja também minha resenha, “Greenspahn’s Hapax Legomena”, Jewish Quarterly Review 75 (1985), 410‒412. Por meio de uma análise estatística qui-quadrado, Greenspahn demonstrou que, se o “corpus” tivesse seu tamanho dobrado, não encontraríamos menos “hapax legomena”, mas, pelo contrário, encontraríamos ainda mais! Ou seja, embora algumas palavras pudessem aparecer uma segunda vez — deixando, portanto, de ser classificadas como “hapax” —, um “corpus” duas vezes maior geraria toda uma nova leva de “hapax” legomena.
7. O primeiro contexto é sugerido, por exemplo, por Robert Alter, “The Art of Biblical Narrative”, 2ª ed. (Nova York: Basic Books, 2011), 114. O segundo contexto provém da minha própria imaginação.
8. As duas palavras, “oral” e “aural”, são, naturalmente, difíceis de distinguir na língua inglesa falada. De fato, o “Oxford English Dictionary” (OED) apresenta transcrições fonéticas praticamente idênticas: britânico /ˈɔːrəl/, /ˈɔːrl̩/; norte-americano /ˈɔr(ə)l/ ~ britânico /ˈɔːrəl/, /ˈɔːrl̩/; norte-americano /ˈɔrəl/.
9. Para exemplos adicionais, além daqueles discutidos aqui, veja meus artigos citados acima (nota 6) e meu livro recente: Gary A. Rendsburg, “How the Bible Is Written” (Peabody, MA: Hendrickson, 2019). Observe que, na literatura inglesa, a aliteração refere-se tipicamente aos sons iniciais das palavras; já na literatura hebraica, dada a estrutura de raízes da língua, a aliteração não se limita aos sons iniciais, mas estende-se por toda a palavra. Para outro estudo recente, veja Arthur Keefer, “Sound Patterns as Motivation for Rare Words in Proverbs 1‒9”, “Journal of Northwest Semitic Languages” 43 (2017): 35‒49.
10. Embora, por norma, eu não realize emendas no Texto Massorético, neste caso, as evidências predominantes justificam a alteração da vocalização de קִנִּים (“qinnim” — “ninhos”) para קָנִים (“qanim” — “canas/juncos”). Uma evidência fundamental provém da narrativa paralela do dilúvio presente na Epopeia de Gilgamesh, Tabuleta XI, na qual Utnapishtim constrói seu barco utilizando madeira, juncos e betume. Essa técnica de construção naval perdura no Oriente Médio até os dias de hoje.
11. Não é necessário determinar se a forma grega ou a hebraica é a original, visto que a palavra pode ser um “Kulturwort” (termo cultural) ou “Wanderwort” (palavra viajante), que se difundiu pelo Mediterrâneo oriental por meio do comércio marítimo. Dito isso, observe que o termo hebraico “gōpher” (גּפֶֹר) enquadra-se em uma estrutura morfológica hebraica conhecida, ao passo que a forma grega “kyparissos” (κυπάρισσος) revela uma origem não grega. Veja Robert Beekes, “Etymological Dictionary of Greek”, 2 vols. (Leiden: Brill, 2010), 1.803‒804.
12. Veja Lionel Casson, “Ships and Seamanship in the Ancient World” (Princeton: Princeton University Press, 1971), 196, 212–213.
13. Traduzi o substantivo como “cobertura de betume” (“pitch-cover”), a fim de expressar a função desse termo em relação ao verbo “wĕkhāphartā” (וְכָפַרְתָּ) — “e cobrirás” —, que, por sua vez, constitui um uso singular na Bíblia.
14. É significativo notar que o substantivo hebraico é cognato do termo acádio “kupru” (“betume”), presente na narrativa babilônica do dilúvio preservada na Epopeia de Gilgamesh, Tabuleta XI, linha 55.
15. Na fonética, o termo “velar” refere-se a um som produzido com a parte posterior da língua. Um som “sonoro” (“voiced”) é aquele que envolve a vibração das cordas vocais.
16. A expressão no versículo é “harḥēq kimṭaḥăwē qešet” (הַרְחֵק כִּמְטַחֲוֵי קֶשֶׁת) — literalmente, “a uma distância como a de quem dispara um arco” —, o que equivale, em português, à expressão “à distância de um disparo de arco”.
17. Eu analisaria o verbo como denominativo a partir do substantivo “ṣəpîr” (צְפִיר), “bode” (conhecido por sua grande capacidade de salto, tanto ao subir quanto ao descer), termo usado comumente no aramaico (veja, por exemplo, Esdras 6:17) e presente como um aramaísmo no hebraico bíblico tardio (veja, por exemplo, Daniel 8:5, 8, 21).
18. Minha tradução utiliza palavras comuns em inglês para verter termos hebraicos comuns, mas recorre a palavras menos usuais em inglês para traduzir termos hebraicos atípicos — como é o caso aqui, com a minha escolha do termo “cadre”.
19. Minha tradução reconhece a conexão etimológica de “kəlulot” (כְּלוּלֹת) — tipicamente traduzido como “esponsais” ou algo semelhante — com o substantivo comum “kallā” (כַּלָּה), “noiva”; ao mesmo tempo, explora a natureza pouco habitual desse termo, o que justifica o uso de “bridal”. Embora, hoje em dia, a palavra seja empregada apenas como adjetivo, em séculos passados ela funcionava como substantivo — como se vê, por exemplo, em “Otelo” (1622), de Shakespeare: “Such obseruances as fits the Bridall” (Ato III, Cena 4) —, e de Alfred Lord Tennyson, em “Idylls of the King”, “Enid” (1859): “Eu… a vestirei para o seu casamento como o sol”.
20. Alfred Guillaume, “The Meaning of תולל in Psalm 137:3”, “Journal of Biblical Literature” 75 (1956): 143–144.
21. T. M. Johnstone, “Jibbāli Lexicon” (Oxford: Oxford University Press, 1981), 270.
22. Para usar a expressão feliz cunhada por Roland Barthes, em “Le Plaisir du Texte” (Paris: Éditions du Seuil, 1973) — ainda que eu me afaste, em certa medida, do sentido original que o autor conferia à expressão.
23. Incluindo, de forma mais notável, Aquiles, dos aqueus, e Heitor, dos troianos.
24. O autor gostaria de expressar sua gratidão à Lanier Theological Library and Learning Centre, situada em Yarnton Manor (Oxfordshire), por lhe ter proporcionado acomodação e o status de pesquisador visitante (“Visiting Scholar”) durante o verão de 2023. Como podem atestar todos os que já estiveram em Yarnton Manor, o ambiente aprazível deste lugar singular é extremamente propício à continuidade de pesquisas — inclusive sobre o tema arcano dos “hapax legomena” em hebraico.

