Sem um tostão do Céu

Mário Moreno/ agosto 22, 2025/ Teste

pois os necessitados não deixarão de existir no meio da terra” (Dt 15:11)

O Ramban cita a opinião de Ibn Ezra, que afirma que a maldição da pobreza permanecerá para sempre com os filhos de Israel, pois eles nunca se livrarão completamente do pecado. O Ramban discorda dessa interpretação, argumentando que a Torah jamais ofereceria uma profecia que sugerisse que os filhos de Israel nunca adeririam completamente aos preceitos da Torah. Em vez disso, segundo os postulados do Ramban, a Torah afirma que pode haver gerações futuras que serão assoladas pela pobreza, mas não que seja um fato consumado que todas as gerações futuras dos filhos de Israel serão condenadas a lutar contra a miséria. (Ramban 15:11, Ibn Ezra 15:6) Outros comentários concordam com Ibn Ezra, como o Rashbam, que cita o versículo em Koheles “ein tzaddik ba’aretz…” – “não existe homem justo que pratique apenas o bem e não peque“. (Rashbam 15:11, Ec 20:7) De acordo com esses comentários, parece que a pobreza é um componente necessário na infraestrutura de uma sociedade. Essa noção também é corroborada pela interpretação talmúdica do versículo, que afirma que a pobreza existirá mesmo nos tempos messiânicos. (Shabat 151b) Por que Hashem criou um sistema que não consegue se livrar da pobreza?

A prática de atos de bondade alcança dois objetivos distintos. A noção universalmente aceita de praticar atos altruístas decorre de nossa obrigação social de garantir que as necessidades básicas de cada indivíduo sejam atendidas. Nosso senso de conexão com cada ser humano desperta nossa compaixão para tornar nossas as necessidades e angústias dos outros. A própria palavra “bondade” reflete essa consciência social, derivada da palavra “parentesco” – “da nossa espécie”.

No entanto, há outra dimensão na prática de atos de bondade. O próprio fato de um D’us onipotente, sem deficiências ou necessidades, ter criado um mundo no qual o homem pode viver, nos ensina que a própria criação é o ato supremo de benevolência. Hashem deseja fazer do homem o beneficiário de Sua bondade; este é o significado do versículo “olam chesed yibaneh” – “o mundo é construído através da bondade”. A bondade é, portanto, a maneira suprema pela qual Hashem se revelou e continua a se revelar ao mundo.

A emulação é a maneira mais eficaz de nos identificarmos e nos conectarmos uns com os outros. A premissa das técnicas de publicidade na Madison Avenue baseia-se na criação de uma imagem com a qual as pessoas queiram se conectar e imitar; ao usar roupas ou produtos que uma estrela de cinema ou atleta famosa endossa, as pessoas sentem uma conexão mais próxima com eles. Consequentemente, podemos nos conectar com Hashem imitando-O, e a melhor maneira de fazer isso é por meio da prática de atos de bondade. Portanto, além da afinidade que compartilhamos com nossos semelhantes, também nos conectamos e nos identificamos com Hashem por meio de atos de bondade.

A pobreza é uma necessidade em todas as sociedades, pois o ato de doar é o que eleva uma pessoa a se tornar um ser sagrado. Sem pobreza, não seríamos capazes de expressar a Divindade que temos dentro de nós.

Tradução: Mário Moreno

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