Que Pena!

Mário Moreno/ dezembro 17, 2025/ Teste

Não foi uma decisão fácil, mas os irmãos sentiram que a tomaram de forma honesta e justa. Iosef era um rebelde e não tinha lugar na família. A morte não era a resposta final, pois os irmãos decidiram que sua rebelião contra eles não merecia pena capital, apenas o banimento permanente de suas fileiras. E assim ele foi vendido como escravo. Hashem, no entanto, tinha outros planos. Anos depois, foram eles que se viram em apuros, sentados diante de um Iosef disfarçado, vice-rei do Egito, que os acusou de espionagem. “Só acreditarei em vocês se trouxerem seu irmão mais novo, Benjamin, aqui até mim.” Então, ele aprisionou Shimon como refém. Nesse momento, os irmãos perceberam que essa acusação absurda era mais do que um capricho mortal. Devia ser a retribuição divina. “Mas somos culpados em relação ao nosso irmão, pois vimos a sua angústia enquanto ele nos suplicava, e não o ouvimos; por isso esta angústia nos sobreveio” (Gn 42:21).

Rúben, o mais velho dos irmãos, os admoesta acrescentando uma declaração aparentemente redundante: “Não vos falei eu, dizendo: ‘Não pequeis contra o menino!’ Mas vós não me ouvistes, e agora eis que o seu sangue está sendo vingado!” (Gn 42:22). Qual o significado desta declaração de arrependimento? Os irmãos não disseram a mesma coisa? Do que os irmãos se arrependeram e o que Rúben acrescentou?

Conta-se a história de que uma viúva pobre, carregando uma galinha, correu até seu rabino numa manhã de sexta-feira. “Rebe”, ela chorou, “nas últimas duas semanas economizei dinheiro suficiente para comprar esta galinha, que acabei de abater esta manhã em honra ao Shabat. Depois do abate, o shochet olhou para ela e disse que havia um problema. Ela é kosher?” O Rav olhou para a galinha e franziu a testa; de acordo com a opinião do Shach, um dos comentários mais importantes do Shulchan Aruch, a galinha não era kosher. No entanto, o Rav olhou para o rosto banhado em lágrimas da viúva e olhou novamente para a galinha com muita atenção. Ele se lembrou de que havia algumas opiniões de outras autoridades, não tão famosas, que eram mais lenientes.

O Rav decidiu adotar a decisão mais leniente e disse à mulher que a galinha era kosher.

“Vá para casa e aproveite com sua família!” A mulher saiu da casa do rabino, com lágrimas de alegria escorrendo pelo rosto.

Mais tarde, o Rav disse aos seus alunos: “Quando eu chegar ao céu, não temerei enfrentar a ira do Shach, contra quem usei de clemência. Temerei, no entanto, enfrentar a ira da velha viúva contra quem eu teria decidido e forçado sua família a passar fome.”

Muitos comentaristas explicam que nem mesmo a terrível desgraça que aconteceu aos irmãos de Iosef os fez se arrependerem da venda em si. Eles sentiram que a venda de Iosef, aprovada pelos irmãos como um Beit Din, estava dentro dos parâmetros da justiça.

Mas a desgraça e as falsas acusações os fizeram perceber que havia um ingrediente na transação e em sua sentença que estava faltando. E esse ingrediente era a compaixão. Eles fizeram justiça, mas não responderam à angústia da alma enquanto Iosef implorava para salvar sua alma. Reuven, por outro lado, sentiu que toda a venda em si foi equivocada e, portanto, repreendeu seus irmãos por isso. Nisso, os irmãos sentiram que estavam justificados. Quando Ia´aqov ouve a história do governante acusador, ele abençoa seus filhos, dizendo que, ao retornarem ao vice-rei, “que o D-us Todo-Poderoso lhes conceda misericórdia perante aquele homem, para que ele possa devolver também seu outro irmão (Shimon), assim como Benyamin” (Gn 43:14).

Ia áqov compreendeu muito bem que a compaixão pode mudar um veredito da ordem mais severa. E os irmãos, arrependendo-se de sua indiferença, agora entendiam o mesmo.

Frequentemente, quando confrontados com o desafio da justiça, fazemos o que é tecnicamente correto. A pergunta que devemos nos fazer é: qual é a nossa posição quando nosso irmão implora?

Tradução: Mário Moreno

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