Moshe e Korach: Desacordo e Inclusão
Na parashá Korach, Korach organiza uma rebelião contra a liderança de Moshe, e o princípio de “medida por medida” é evidente tanto no nível conceitual quanto no prático. O Arizal ensina que a alma de Korach pertence à raiz da alma de Caim, o primogênito de Adão, e a alma de Moshe pertence à raiz da alma de Abel, a quem Caim assassinou. A linhagem espiritual das encarnações anteriores de Moshe é sugerida em seu nome (מֹשֶׁה), cujas três letras são as iniciais de Moshe, Sete e Abel (מֹשֶׁה שֵׁת הֶבֶל).

Há muitas semelhanças óbvias entre Caim e Abel e Korach e Moshe. Assim como Caim tinha inveja de Abel porque D-us escolheu sua oferta, Korach tinha inveja de Moshe (e Arão) porque D-us os nomeou como líderes, mas ele não o foi. Além disso, depois que D-us escolheu a oferta de Abel, Ele tentou consolar Caim, ensinando-o a combater sua tendência ao ciúme e à depressão, para que aumentasse sua satisfação com sua condição de vida. Da mesma forma, Moshe tentou acalmar Korach, fornecendo-lhe razões para se contentar com suas circunstâncias de vida. Ambas as tentativas falharam. Caim perseguiu Abel e o matou, e Korach prosseguiu com sua rebelião até o amargo fim.
O princípio de “medida por medida” se manifesta quando a terra, que havia “aberto a boca” para encobrir o crime de Caim, se abre e engole Korach e seus seguidores, como relata o versículo: “e a terra abriu a sua boca e os engoliu”. Da mesma forma, a própria imagem da terra abrindo a boca sugere que tanto Caim quanto Korach foram enganados pelas palavras que saíram de suas próprias bocas. Ao narrar o assassinato de Abel por Caim, a Torah afirma o seguinte: “Caim falou com seu irmão Abel. E aconteceu que, quando estavam no campo, Caim se levantou contra seu irmão e o matou.” Embora o texto não revele o que Caim disse a seu irmão, presume-se que foram essas palavras que levaram ao assassinato de Abel. No caso de Korach, a frase inicial da porção, “e Korach tomou”, carece de um objeto direto; o que Korach tomou? Portanto, os Sábios explicam que aqui o verbo “tomar” significa “enredar”. Korach enredou os corações do povo, enganando-os ao disfarçar sua própria raiva e ambição em uma retórica populista destinada a obter seu apoio.
Uma Desavença Não Pelo Bem do Céu
Está escrito em Pirkei Avot:
“Qualquer desacordo que seja pelo bem do Céu perdurará, mas qualquer desacordo que não seja pelo bem do Céu não perdurará”. O que é uma disputa pelo bem do Céu? As discussões entre Hillel e Shammai. O que é uma disputa que não foi em prol do Céu? O argumento de Korach e seu grupo [contra Moshe].
O argumento de Korach de que todos os membros do povo judeu são santos e que D-us está entre eles era um argumento muito forte e persuasivo, pois é inegavelmente verdadeiro. Sua ruína, porém, foi ter transformado uma verdade profunda em uma platitude populista para promover sua agenda pessoal. Pode-se até dizer que seu populismo prenunciou a democracia muito antes de esse conceito ser concebido em Atenas, cerca de mil anos depois.
O Chassidismo ensina que, embora a noção de que todo o povo judeu é santo e D-us está entre eles seja certamente verdadeira, a plena manifestação e revelação dessa verdade só ocorrerá verdadeiramente no futuro. Até lá, a hierarquia é um componente natural e necessário das relações humanas. Korach argumentava que o futuro, em certo sentido, já havia chegado; portanto, não havia necessidade de um líder como Moshe, cuja autoridade excedia a de todos os outros. Ironicamente, Korach, o libertário populista, empregou cinicamente a noção de igualdade para promover suas próprias ambições, enquanto Moshe, descrito pela Torah como o homem mais humilde da face da terra, parece estar lutando egoisticamente para manter sua autoridade. No entanto, não há dúvida de que Moshe nunca buscou poder e autoridade para si mesmo; claramente, ele só lutou contra a tentativa de Korach de tomar o poder porque não tinha dúvidas de que D-us o havia designado para liderar Seu povo.
Direita e Esquerda
Na política contemporânea, os rótulos “direita” e “esquerda” são comuns. Apesar da tendência de pensar que esses são rótulos modernos para descrever diferentes filosofias políticas, a ideia de direita e esquerda é intrínseca aos conceitos fundamentais da Kabalah. As dez sefirot são baseadas em energias arquetípicas representadas estruturalmente por eixos direito e esquerdo, bem como um eixo central integrador. O Zohar identifica Moshe com as energias do lado direito, especialmente a benevolência, enquanto Korach é identificado com o lado esquerdo, especialmente o aspecto do poder. Da mesma forma, Abel representa o lado direito e Caim o lado esquerdo.
O amor de Moshe pelo povo e sua constante disposição em sacrificar suas próprias necessidades pelos outros e defender o povo perante D-us foram demonstrados repetidamente em sua vida. Korach, por outro lado, demonstrou sede de poder e força, rebelando-se contra Moshe e sua autoridade, querendo tomar todo o poder em suas próprias mãos, causando profunda divisão e falta de compromisso.
No entanto, vemos nesta história como Moshe, depois de inicialmente se humilhar e implorar a Korach e seus seguidores que recuassem, adota uma postura muito forte e demonstra sua própria marca de força ao defender seu papel como líder, uma característica aparentemente oposta à sua natureza usualmente “correta”. Paradoxalmente, Korach se apresentou como um homem de amor e bondade, um amante do povo e alguém que tem seus interesses em mente e que lhes traria verdadeira igualdade. Para entender essa aparente inversão de papéis, recorremos a uma série de conceitos importantes na Cabala e no Chassidismo.
Três Tipos de Pensamento Intelectual
Um tipo profundo de inteligência, denominado “interinclusão”, postula um tipo de compreensão da realidade que vai além da aparência superficial das coisas. Através da interinclusão, pode-se adquirir a capacidade de perceber como uma coisa está incluída ou se manifesta em outra. Esta é a maneira como os sábios do Talmud descrevem a faculdade de entendimento (binah): compreender uma questão dentro ou a partir de outra. Esta forma de pensar é prevalente em toda a tradição judaica, especialmente no estudo aprofundado encontrado no Talmud.
Outro conceito que se relaciona com a nossa discussão é “trocar de lugar” (achlifu duchtayu), um termo usado quando um sábio que geralmente adota uma determinada posição consistente na lei judaica, em um caso excepcional, assume uma posição (aparentemente) oposta. Um terceiro conceito relevante é chamado de “o oposto é o caso” (ipcha meestabra). Este termo é usado quando, em uma discussão talmúdica, uma opinião ou conclusão é apresentada que é oposta ao que se poderia inicialmente (logicamente) pensar.
É certamente interessante notar que agora se sabe que o hemisfério direito do cérebro controla o lado esquerdo do corpo, enquanto o hemisfério esquerdo do cérebro controla o lado direito do corpo. De maneira semelhante, mas ligeiramente diferente, a retina transmite imagens para o cérebro de cabeça para baixo e, em seguida, o cérebro as inverte para a posição correta. Essas duas realidades fisiológicas são sugeridas na palavra hebraica sikel (שִׂכֵּל), empregada para descrever como Ia´aqov cruzou as mãos quando abençoou seus netos Efraim e Manassés. A palavra sikel vem da mesma raiz que sechel (שֵׂכֶל), que significa inteligência.
Em nosso caso de Moshe e Korach, vemos que foi exatamente isso que ocorreu, cada um adotando um traço de personalidade oposto, adequado ao chamado da hora. No entanto, vemos nas três ideias apresentadas — interinclusão, troca de lugares e o oposto é verdadeiro — sementes de uma solução para o mundo binário e dualista em que vivemos. Assim como o eixo central das sefirot representa integração, holismo e harmonia, as pessoas em todas as áreas da vida precisam encontrar maneiras de integrar opiniões opostas. Isso é particularmente relevante para curar a profunda discórdia encontrada na política em todos os lugares. No entanto, não se limita apenas a esse âmbito, mas é apropriado em inúmeras situações e relacionamentos na vida. Não estamos falando de abandonar as próprias crenças em favor das dos outros, mas sim de uma abertura para enxergar pontos de verdade em outras opiniões e a disposição de reunir vários pontos positivos a fim de criar paz e construir melhores modelos de cooperação, em vez de descartar automaticamente todas as opiniões, exceto as nossas.
Um Passo Mais Profundo
É fascinante notar que, em um nível superconsciente profundo, tanto Moshe quanto Korach tinham, na verdade, faíscas de seus opostos — Moshe tinha uma parte de Caim e Korach tinha uma parte de Abel. De acordo com o Arizal, todas as almas podem ser rastreadas primordialmente até Adão, Caim e Abel. Korach sentia que também tinha uma parte de Abel dentro de si, pois somente incorporando essas duas energias ele poderia trazer todo o Israel para o seu lado em sua rebelião. Quanto a Moshe (מֹשֶׁה), seu nome equivale a 345 e, subtraindo 37, a gematria de Abel (הֶבֶל), resta 308, que é o valor de Korach (קֹרַח)! Devido à alma elevada de Moshe, ele foi capaz de retificar as faíscas de Caim e Korach em sua alma, enquanto Korach ainda não havia realizado esse tipo de retificação. Isso é aludido no versículo de abertura, onde se afirma que “E Korach tomou”, ele tomou apenas a negatividade de Caim, que sobrepujou as boas faíscas de Abel que ele tinha em potencial.
Rumo ao Futuro
Embora o caso clássico apresentado por Pirkei Avot para ilustrar um argumento não relacionado ao Céu seja o de Korach, o Arizal revelou que mesmo nessa discordância, ambos os contendores possuíam um elemento de verdade. A afirmação de Korach de que “toda a assembleia, todos eles, são santos e D-us está entre eles” era certamente verdadeira, tanto que o Arizal ensinou que, no futuro, após a vinda do Messias, os justos ascenderão a um nível muito elevado. Como apoio bíblico para esta interpretação inovadora, ele cita o seguinte versículo: “Um tzaddik [indivíduo justo] florescerá como uma tamareira.” Como ele observa, as letras finais dessas palavras no hebraico original (צַדִּיק כְּתָמָר יִפְרָח) soletram Korach (קֹרַח), sugerindo assim que o justo que florescerá como uma tamareira são os justos.
Portanto, embora a rebelião de Korach parecesse ser, e de fato não fosse, em prol do Céu, ele intuiu uma grande verdade que será revelada no futuro. Somente no Fim dos Dias Korach “florescerá como uma tamareira” e as palavras que ele diz das profundezas da terra para onde desceu – “Moshe é verdadeiro e sua Torah é verdadeira” – serão reveladas como “estas e estas são as palavras do D-us vivo”.
Tradução: Mário Moreno

