Encontrando o Bem Oculto
Guerra Espiritual
A porção da Torah de Balaque começa com o povo judeu acampado às margens do rio Jordão, em frente à cidade de Jericó. A narrativa retoma da parashá anterior, Chukat, que terminou com Moshe e o povo judeu derrotando com sucesso Seom, rei dos emoritas, e Ogue, rei de Basã, lutando contra seus respectivos exércitos e conquistando suas terras. Essas guerras ocorreram porque Seom recusou o pedido de Moshe por passagem segura por suas terras e Ogue atacou os judeus sem provocação.

Os moabitas, temerosos após testemunharem as recentes vitórias da nação judaica, nomearam Balaque, um príncipe midianita, como seu rei para ajudá-los a se protegerem do que acreditavam ser um ataque de Moshe e do povo judeu. Moabe e Midiã não eram os melhores amigos; as duas nações estavam constantemente em guerra uma com a outra. No entanto, fizeram as pazes e uniram forças para se opor ao povo judeu, seguindo o princípio de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Entendendo que o poder de Moshe era espiritual, Balaque sabia que a força militar seria inútil contra os israelitas. Portanto, ele recrutou os serviços de Balaão, que era renomado por suas habilidades proféticas e pela eficácia de suas maldições. Balaque enviou uma delegação para recrutar Balaão, esperando que sua maldição permitisse a Moabe travar uma guerra vitoriosa e expulsar os judeus.
“Dinheiro não é problema”, disse a delegação a Balaão. “Diga o seu preço; queremos contratá-lo porque você é o melhor. Precisamos que você venha conosco e amaldiçoe os judeus.”
De Maldições a Bênçãos
Esta parece ser uma história terrível em formação: Balaque, rei de Moabe, conspira com o profeta perverso Balaão para amaldiçoar e enfraquecer o povo judeu. No entanto, qual foi o resultado final? Bênçãos tremendas! Em vez de amaldiçoar, Balaão elogiou Israel:
“Quão belas são as tuas tendas, ó Ia´aqov, e as tuas moradas, ó Israel!”¹
“Eles são uma nação que, no futuro último, habitará sozinha, pois somente eles herdarão a terra.”²
“Eles são um povo que se levanta [pela manhã] como um leão e se ergue como um leão [para fazer a vontade de D-us destemidamente].”³
“Aqueles que te abençoarem serão abençoados, e aqueles que te amaldiçoarem serão amaldiçoados.”⁴
Essas e muitas outras belas bênçãos e louvores foram o resultado da conspiração fracassada de Balaque e Balaão para prejudicar o povo judeu.
Por que, de fato, Balaão foi incapaz de realizar o que se propôs a fazer? Como Moshe diria mais tarde: “O Senhor, teu D-us, transformou a tua maldição em bênção para ti, porque o Senhor, teu D-us, te ama.”⁵
Nenhuma boa ação fica sem recompensa.
Em meio a tudo isso, o rei Balaque ergueu sete altares e ofereceu 42 sacrifícios a D-us. Ora, Balaque era um sujeito muito mau e, além disso, seus sacrifícios foram oferecidos numa tentativa de convencer D-us a permitir que Balaão amaldiçoasse o povo judeu, mesmo depois de Ele já ter dito explicitamente a Balaão que o povo judeu não deveria ser amaldiçoado. Contudo, numa demonstração fantástica de como coisas boas podem surgir de eventos aparentemente terríveis, o Talmud ensina que: “Como recompensa pelos 42 sacrifícios que Balaque, rei de Moabe, ofereceu, ele mereceu que Rute nascesse dele e que dela nascessem [o Rei Davi e o Rei] Salomão.”⁶
Balque ofereceu sacrifícios a D-us, na esperança de prejudicar o povo judeu, e D-us disse: “Sacrifícios são bons! Você será recompensado!” De Balaque veio Eglom, o pai (ou avô) de Rute, a matriarca da dinastia davídica, e nosso justo Messias! Os sacrifícios de Balaque — um ato maravilhoso de uma pessoa perversa — levarão, em última análise, à nossa Redenção Final.
Não veja o mal
Durante sua segunda tentativa de amaldiçoar o povo judeu, Balaão proclamou: “Ele [D-us] não vê maldade em Ia´aqov, nem perversidade em Israel.”7
O Terceiro Rebe, Rabi Menachem Mendel de Lubavitch, conhecido como Tzemach Tzedek, oferece uma bela explicação deste versículo em seu livro Derech Mitzvotecha:8
Por que, ele pergunta, é tão fácil para nós vermos o negativo nos outros, especialmente naqueles mais próximos de nós? Muitas vezes, focamos nos defeitos dos outros, enquanto ignoramos nossas próprias falhas.
Isso acontece porque racionalizamos nosso próprio comportamento; o amor-próprio encobre nossos pecados. O sábio Rei Salomão declarou: “O amor cobre todas as transgressões.”9
Considere o seguinte: Duas pessoas se apaixonam, casam-se e, inicialmente, pensam que seu cônjuge é perfeito, que não tem defeitos. Trinta anos depois, elas têm uma lista de 100 coisas erradas com o cônjuge. O que aconteceu? Será que ele ou ela mudou e se tornou uma pessoa terrível? Claro que não. O que mudou foi que o amor poderoso do início do relacionamento diminuiu, não encobrindo mais as falhas que sempre estiveram presentes.
Quando o amor está presente, você não vê o mal. Tão grande é o amor de D-us que Ele “não vê mal em Ia´aqov”. Ele não vê iniquidade porque o amor tudo vence.
Vendo o Bem em Todos
Balaão disse a Balaque: “Como posso amaldiçoar aqueles que D-us não amaldiçoou?”¹⁰ Rashi explica que, mesmo quando o povo judeu poderia ter merecido ser amaldiçoado, não foi: Ia´aqov poderia ter amaldiçoado Simeão e Levi por destruírem a cidade de Siquém, mas não o fez; apenas amaldiçoou a ira deles, dizendo: “Maldita seja a sua ira”.¹¹
Isso destaca uma lição fundamental sobre comunicação eficaz e relacionamentos saudáveis:
Quando uma criança precisa ser disciplinada, ou quando alguém nos chateia, devemos ter cuidado para direcionar nossa crítica ao comportamento dela, não a ela.
Devemos dizer: “Você é uma criança maravilhosa. O que você fez não foi aceitável”. Nunca devemos, D-us nos livre, dizer: “Você é mau”.
Uma boa criação de filhos envolve criticar comportamentos inadequados ou ruins, tomando cuidado para não dizer nada negativo sobre a criança.
Abraão vs. Balaão
Quando os moabitas procuraram um profeta com uma língua poderosa, escolheram o melhor: Balaão. De acordo com algumas opiniões, as habilidades proféticas de Balaão eram comparáveis às de Moshe. Mas, enquanto Moshe usava sua profecia para promover a santidade, Balaão a usava para se opor a ela.
A Mishná, em Ética dos Pais, contrasta Balaão e nosso patriarca Abraão:
“Os discípulos de nosso pai Abraão têm um olhar bom, um espírito manso e uma alma humilde. Os discípulos do ímpio Balaão têm um olhar mau, um espírito altivo e uma alma arrogante.”¹²
A primeira característica comum aos discípulos de Abraão, um “olhar bom”, significa que eles se alegram com tudo o que veem e, mais importante, com o sucesso dos outros. Em iídiche, existe uma palavra maravilhosa — fargin — que se traduz livremente como apreciar de todo o coração o sucesso dos outros. A segunda característica, “um espírito manso”, significa sua extrema modéstia e atitude de “Não se trata só de mim”. Por fim, “uma alma humilde” significa que eles não são arrogantes, egocêntricos ou gananciosos.
Em contraste, os discípulos de Balaão possuem as características opostas: eles têm um olhar mau e ficam chateados quando os outros têm sucesso. Além disso, eles têm “um espírito altivo e uma alma arrogante”: tudo gira em torno deles, são movidos pelo poder e pela ganância, e sempre querem mais.
Tudo Começa com Nossas Escolhas
Balaão, como mencionado, pode ter sido dotado de habilidade profética comparável à de Moshe. Por que D-us permitiria que Sua presença divina habitasse uma pessoa tão perversa?
Há muitos não-judeus maravilhosos, que a Torah chama de “gentios justos”, que fizeram coisas incríveis pelo povo judeu. Mas Balaão não era um gentio justo; ele era um rasha — um homem perverso. Se assim for, por que lhe dar a profecia?
Rashi explica que D-us fez isso para equilibrar as coisas, por assim dizer. O povo judeu tinha Moshe, um profeta e líder do mais alto calibre. As nações do mundo poderiam ter se voltado e dito: “Não temos líderes! Não temos profetas! Se o Senhor, D-us, nos tivesse dado um líder como Moshe, ou líderes como Abraão, Isaque e Ia´aqov, seríamos pessoas boas. Se tivéssemos profetas que nos dissessem para mudarmos nossos maus caminhos, nós o teríamos feito!”
Para evitar isso, D-us lhes deu um profeta. Ele lhes deu Balaão. E não foi um subterfúgio. Balaão tinha o potencial para ser tão grande quanto Moshe, mas fez algumas escolhas ruins. Por quê? Porque, como diz o ditado, “O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Só porque você é um líder não significa que você é um bom líder.
D-us diz: “Eis que hoje ponho diante de você a vida e o bem, a morte e o mal… escolha a vida.”13 D-us quer que tenhamos livre arbítrio e quer que usemos esse poder para escolher sabiamente, para escolher o bem. Balaão e seus semelhantes não escolheram o bem.
Antes de Balaão, as nações do mundo tinham limites em relação à sua moralidade. Havia cercas para proteger a santidade do casamento e da vida familiar. Em vez de encorajar tais práticas e fortalecer esses limites, Balaão encorajou o povo a derrubá-los. Na conclusão da parashá, vemos que, após falhar em amaldiçoar os judeus, Balaão aconselha os midianitas a enviarem suas filhas para seduzir os homens judeus e, no decorrer da sedução, incitá-los a adorar o ídolo pagão Baal-Peor. Essa foi uma das muitas más escolhas de Balaão.
D-us deixou bem claro: o bem e o mal, a vida e a morte, estão aí para serem escolhidos. Escolha bem. Isso se aplica tanto a judeus quanto a não judeus.
Que D-us nos conceda a sabedoria para escolher bem, para escolher liderar com dignidade e moralidade, para escolher criar os filhos com paciência e discernimento, para escolher ver o bem nos outros. Que nossos esforços sejam recompensados, tornando o mundo um lugar melhor, e que mereçamos a Redenção Suprema com a vinda do nosso justo Messias em breve, em nossos dias. Amém.
Notas de rodapé
1. Números 24:5.
2. Números 23:9.
3. Números 23:24.
4. Números 24:9.
5. Deuteronômio 23:6
6. Sotah 47a.
7. Números 23:21.
8. Mitzvat Ahavat Yisrael.
9. Provérbios 10:12.
10. Números 23:8.
11. Gênesis 49:6.
12. Avot 5:19.
13. Deuteronômio 30:15,19.

