Em Busca de Líderes
“Tenho princípios e, se você não gosta deles, bem, então tenho outros.”
Uma atitude bastante desprovida de princípios, eu diria.

Defender as próprias convicções nem sempre é fácil e, muitas vezes, resulta em desafios e discordâncias. Naturalmente, as pessoas preferem lidar com alguém mais receptivo às suas próprias opiniões e desejos, mesmo que estes possam ser inadequados. Independentemente disso, líderes devem ser pessoas de princípios e caráter.
Na leitura da Torah referente a Pinchas, D-us instrui Moshe a preparar-se para o fim de sua vida. Afinal, ele não entrará na Terra Prometida com a nação que conduziu pelo deserto durante 40 anos. E qual é a primeira coisa que Moshe pede? Nada para si mesmo; ele pede a D-us que nomeie um líder para substituí-lo. E não um líder qualquer. Ele detalha as qualidades da liderança judaica, os valores necessários para ser um verdadeiro líder. Ele não fala sobre estilos de liderança ou habilidades de gestão eficaz. Ele fala sobre integridade, compromisso, devoção, fidelidade e lealdade. E, a partir da descrição feita por Moshe sobre o tipo de líder necessário para substituí-lo, podemos extrair lições valiosas sobre a natureza da liderança, seja ela comunitária, rabínica ou de qualquer outra espécie.
“Que o Senhor, o D-us dos espíritos de toda a carne, nomeie um homem sobre a congregação, que saia à frente deles e entre à frente deles, que os conduza para fora e os traga para dentro, para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas sem pastor.” – Nm 27.16-17.
Moshe começou invocando o D-us dos espíritos de toda a carne, pois um verdadeiro líder precisará emular o Todo-Poderoso — que conhece a personalidade e o temperamento de cada indivíduo — e, portanto, será capaz de atender às necessidades de todos: ricos ou pobres, sábios ou simples.
Em segundo lugar, diz Moshe, precisamos de um “ish”: uma pessoa com força de caráter, e não alguém vacilante ou um aspirante a líder sem firmeza.
Ele sairá à frente deles, o que significa que assumirá a liderança. Ele não precisará olhar para trás nem consultar pesquisas de popularidade antes de decidir qual deve ser sua conduta. Ele não seguirá simplesmente os caprichos da multidão, mas fará o que é correto, independentemente das circunstâncias. Para que o povo não ficasse como ovelhas sem pastor — a principal preocupação de Moshe era o povo, e que eles não se sentissem perdidos ou à deriva após a sua partida. Ele é o exemplo supremo do pastor fiel de Israel, que cuidou de seu rebanho com total comprometimento e devoção. E ele quer garantir que esse tipo de liderança continue mesmo depois de sua partida.
Penso em diretores de escola com quem trabalhei ao longo dos anos. Eles são líderes de suas respectivas escolas. Alguns são amados, outros são respeitados, e os excepcionais são amados e respeitados.
E vejo o rabinato como outro paradigma de liderança judaica. Há um antigo provérbio iídiche que reflete a natureza delicada e tênue dessa posição, ao mesmo tempo nobre e vulnerável: “Um rabino de quem as pessoas não querem se livrar não é um rabino. Mas um rabino de quem elas realmente se livram não é um “mensch” [uma pessoa de caráter íntegro]”. Quando você lidera, nem todos ficarão satisfeitos com você. Se absolutamente todas as pessoas estiverem satisfeitas com você, então provavelmente você está fazendo algo errado, ou não está fazendo o suficiente do que é certo.
Com base na minha própria experiência de muitos anos como rabino, posso dizer que, embora você possa ter de lutar pelo que acredita, deve escolher suas batalhas com muito cuidado. Se cada pequena coisa que você desaprova se tornar um campo de batalha, o relacionamento com a comunidade não resistirá. Mas, se você decidir lutar, deve estar convencido da justeza de sua posição e ter a energia e a resistência para sustentá-la até o fim.
No meu primeiro ano como rabino, descobri uma prática da sinagoga que era incorreta à luz da “Halachá” (lei judaica). Chamei a atenção dos líderes leigos para isso, mas, para minha decepção, eles optaram por ignorar meu conselho. Eu ainda era um rabino jovem, e aquele foi o primeiro teste da minha liderança rabínica. Eu sabia que, se fizesse vista grossa ali, minha estatura como rabino — que deve conduzir a congregação à observância dos princípios da Torá — ficaria gravemente comprometida e talvez até perdida para sempre.
Até mesmo o estatuto da sinagoga deixa claro que, em questões de lei e ritual judaicos, a palavra do rabino é a decisão final. Se eu não fizesse nada, seria visto como alguém sem firmeza e me tornaria um capacho para sempre. Eles argumentavam que era assim que as coisas eram feitas há 40 anos e que eu estava querendo mudar uma tradição de longa data na sinagoga. O problema é que essa “tradição” específica estava simplesmente errada. Pesquisei o assunto e ficou claro que não havia qualquer justificativa para ela. Quanto ao motivo de nenhum dos meus antecessores ter posto fim a isso, só posso imaginar que eles tivessem batalhas maiores para enfrentar. Eu passava noites em claro, angustiado com o que teria de fazer caso eles ignorassem minhas recomendações.
No final, as lideranças leigas se reuniram e, felizmente, tomaram a decisão correta, ainda que por uma margem estreita. Olhando para trás, foi um mal que veio para o bem, ajudando a consolidar minha liderança para as décadas seguintes do meu mandato.
Como de costume, quando defendemos o que é certo, o desfecho é positivo. No entanto, precisamos recorrer aos nossos recursos interiores para encontrar a coragem de nos mantermos firmes e perseverarmos diante de uma oposição que, por vezes, é formidável. A curto prazo, é algo desafiador, exigente e árduo. Mas, a longo prazo — em última análise —, a verdade prevalece.
Em uma viagem recente a Israel, fui entrevistado sobre minha vida no rabinato. Uma das minhas mensagens centrais foi que essa função não pode ser apenas uma carreira; deve ser uma vocação. Se não tivermos paixão por aproximar o rebanho de D-us, então estamos na área errada. Tenho certeza de que é possível ganhar muito mais dinheiro em outras profissões, mas Moshe não estava discutindo dinheiro; ele falava sobre moralidade, responsabilidade, liderança e amor.
Tradução: Mário Moreno

