O Herói Interior
Pinchas foi um herói. Quem sabe quantas almas ele salvou no dia em que “viu, levantou-se e tomou a lança na mão” e vingou a D-us.

É interessante notar que pouco se ouvia falar dele antes daquele momento. Seu nome é mencionado várias vezes na Torah, mas não há relatos de feitos seus. Ele sequer pôde ser “kohen” (sacerdote) inicialmente, pois nasceu antes da outorga da Torah.
Mas, então, ele surgiu em cena de forma avassaladora e nunca mais olhou para trás. Sua trajetória foi de ascensão constante: saiu da obscuridade para se tornar um dos profetas mais importantes da história e, posteriormente, um dos homens mais significativos de todos os tempos. Será ele quem, após três milênios, anunciará a redenção final.
A questão é: Pinchas já era um herói em potencial ou tornou-se um naquele instante? Se ele não tivesse alcançado o reconhecimento espiritual por meio do incidente com Zimri, teria chegado lá de outra forma, diante de alguma outra crise? Em outras palavras, há algo que possamos aprender com Pinchas sobre o que significa ser um herói, ou devemos apenas contemplar à distância os seus feitos?
Claramente, o nível da alma faz diferença. Geralmente, quanto maior o herói, “maior” a alma. A alma de Pinchas possuía uma linhagem (“yichus”) nobre, descendendo tanto de Iosef HaTzaddik quanto de Yitro; isso lhe conferia a capacidade de realizar grandes feitos — coisas que, talvez, uma pessoa comum não conseguiria realizar.
Sim, a grandeza da alma realmente faz diferença. Não se espera que alguém realize mais do que sua alma permite. No entanto, isso não significa que não se possa obter ajuda externa para suprir essa lacuna quando a disposição de uma pessoa para se sacrificar por D-us supera sua capacidade espiritual para tal. Como disseram os “Chazal” (Sábios): “Aquele que busca purificar-se recebe ajuda do Céu” — uma forma metafórica de dizer: “faça o esforço que estiver ao seu alcance, e o Céu fará o esforço que você não consegue realizar”.
Mas ainda falta um passo. Havia muitas pessoas ali, observando Zimri profanar o nome de D-us com uma princesa midianita, e elas não fizeram nada. O que havia de singular em Pinchas que lhe permitiu atender ao chamado, enquanto outros mal o ouviram? Por que Pinchas se sentiu inspirado a agir, enquanto outros não?
Por causa de sua “chama-piloto”. Não é uma chama física propriamente dita, mas é uma chama, ainda assim. Trata-se de uma sensibilidade espiritual contínua que permanece acesa — mesmo em momentos de falta de inspiração — para aqueles instantes raros da vida em que precisamos de inspiração para reagir corretamente a uma situação. Se uma pessoa não a possui nesses momentos, ela trava e não faz nada, embora saiba que deveria agir.
O que é isso e como se obtém tal chama? Quando a Torah apresenta Pinchas como filho de Elazar HaKohen e neto de Aharon Kohen Gadol, não o faz apenas para fornecer aos “shadchanim” (casamenteiros) um relatório sobre sua linhagem (“yichus”). O objetivo é revelar o que Pinchas sabia, como pensava e de onde vinha sua força. Ele não exercia a função de “kohen” até aquele momento, mas certamente vivia como um.
Assim, enquanto outros no acampamento judaico viviam suas vidas pessoais e serviam a D-us como parte delas, Pinchas vivia para servir a D-us. Essa era a sua mentalidade. Essa era a sua vida. Essa era a maneira como ele encarava cada momento, fosse sagrado ou mundano. Essa era a chama-piloto que ardia silenciosamente no coração de Pinchas, momento a momento, ano após ano.
Pinchas sentia um impulso interior para fazer o que fosse necessário — custasse o que custasse — a fim de assumir a responsabilidade e vingar a honra de D-us. Ignorar a situação ou desviar o olhar não era uma opção para ele, como fora para outros. Isso fez dele um canal para a luz de D-us e resultou em todos os milagres necessários para concluir a missão. E não apenas uma vez, mas várias vezes no futuro: o herói aparece às vezes como Pinchas e, mais tarde, como Eliyahu HaNavi — como no Monte Carmelo, por exemplo.
Tradução: Mário Moreno.

