Sua bajulação será a minha ruína
“Não aceiteis resgate… E não profanareis a terra… mas sim, vós o executareis.” (Nm 35:33, 34)
O Sifri vê, nas palavras “lo sachnifu” (não profanareis/não adulareis) a terra, uma proibição contra a bajulação, pois a palavra “chanifa” significa “bajulação“. O Ramban tenta demonstrar a conexão entre a bajulação e a proibição de tolerar o assassinato, que é a interpretação literal do versículo. Aceitar um suborno de um assassino em troca de seu perdão é uma forma de bajulação. Tratamo-lo como um cidadão exemplar da sociedade, embora ele seja uma pessoa perversa.1

Talvez se possa traçar outro paralelo entre a bajulação e o assassinato. O assassinato destrói a realidade física de uma pessoa. No entanto, uma pessoa também pode ser destruída emocional, psicológica e espiritualmente. A bajulação confere à pessoa uma falsa noção de sua realidade. Alguém que não está em contato com quem realmente é não é considerado vivo; trata-se de uma falsa sensação de existência. Bajular uma pessoa, servindo assim de catalisador para que ela perca o contato com sua verdadeira realidade, equivale a assassiná-la.
1. Ramban, 35:34
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Respeitando a Vida Humana
“Então, Moshe designou três cidades” (Dt 4.41)
O Talmud ensina que as três cidades de refúgio na margem leste do Rio Jordão só entraram em funcionamento depois que as três da margem oeste foram estabelecidas. Embora Moshe soubesse que essas últimas três só seriam estabelecidas quatorze anos após o seu falecimento, ele insistiu em estabelecer as três na margem leste. O Talmud utiliza esse fato como exemplo da prontidão de Moshe no cumprimento das “mitzvot” (mandamentos).1
Geralmente, a prontidão no cumprimento de uma “mitzvá” leva à sua realização mais rápida. No entanto, no caso de Moshe, visto que as cidades não ofereciam refúgio até que todas estivessem concluídas, que vantagem havia em sua prontidão?
As cidades de refúgio tinham uma dupla finalidade. Uma das funções era servir de refúgio seguro para o autor de um homicídio acidental, enquanto a segunda era criar um maior grau de consciência entre os “Bnei Yisrael” (Filhos de Israel) sobre a santidade da vida humana. A mera existência da cidade transmitia a todos a mensagem de que deveriam ser mais cautelosos em suas ações. Embora a primeira função só tenha entrado em vigor após a conquista de “Eretz Yisrael” (a Terra de Israel), Moshe pôde colocar a segunda função em prática imediatamente.
1. Makkot, 10a
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O Homicídio nos dessensibiliza
“Deveis designar para vós cidades de refúgio” (Nm 35:11)
Hashem ordenou a Moshe que designasse seis cidades de refúgio. Três das cidades estavam localizadas na margem leste do Rio Jordão, e três, na margem oeste. O Talmud questiona essa distribuição, pois apenas duas tribos e meia estavam situadas na margem leste, enquanto as nove tribos e meia restantes estavam na margem oeste. Nossos Sábios explicam que essa alocação desproporcional se devia à alta incidência de homicídios na margem leste do Jordão.1 Os “Baalei HaTosfot” questionam essa explicação. Essas cidades ofereciam refúgio apenas a quem tivesse matado inadvertidamente. Portanto, a alta incidência de homicídios — um ato premeditado — não deveria ser um fator determinante para a localização das cidades de refúgio. Os “Baalei HaTosfot” respondem à questão citando a seguinte passagem do Talmud: quando uma pessoa comete um homicídio sem ser descoberta, Hashem providencia que ela seja punida. Hashem orquestra um cenário no qual o homicida acaba sendo morto acidentalmente. Assim, uma maior incidência de homicídios resulta em uma maior incidência de mortes acidentais.2
O Talmud relata que o indivíduo responsável por matar o homicida é, ele próprio, alguém que havia matado inadvertidamente no passado. No entanto, como a primeira morte não foi detectada, ele não sentiu necessidade de fugir para uma cidade de refúgio. Por isso, Hashem criou uma situação semelhante que foi detectada, forçando-o, assim, a fugir para uma cidade de refúgio. Sendo assim, parece que a alta incidência de homicídios não afeta a alta incidência de mortes acidentais, pois, para que um homicida seja morto acidentalmente, ele precisa ser morto por alguém que, no passado, tenha causado uma morte de forma não intencional. O número de autores de mortes acidentais parece ser independente do número de homicidas. Portanto, a questão persiste.
O Rambam estabelece uma distinção entre “oness” e “shogeg”. Um “oness” é alguém que mata outra pessoa sem o menor grau de negligência. Tal pessoa fica isenta de qualquer responsabilidade e não precisa fugir para uma cidade de refúgio. No caso de um “shogeg”, existe certo grau de negligência, e é nessas circunstâncias que o autor deve fugir para uma cidade de refúgio.3
O Talmud nos ensina que, em uma região com alta incidência de homicídios, a população se torna menos sensível à santidade da vida. Consequentemente, nessas áreas, há uma maior propensão à imprudência em atos que representam risco de morte. A razão pela qual a maior necessidade de cidades de refúgio na margem oriental do Jordão devia-se ao fato de que a maior incidência de homicídios refletia uma falta de sensibilidade para com a santidade da vida e, consequentemente, resultava em um número maior de mortes causadas por negligência.4
1. Makkos, 10a 2. Ibid. Veja o comentário de Ramban à Torá. 3. Rambam, Hilchot Rotzeach 6:1-5 4. Veja Gur Aryeh
Tradução: Mário Moreno.

