As Portas da Justiça
A “Parashá Shoftim” começa com a ordem de nomear juízes em todas as cidades de Israel. A Torah declara: “Juízes e oficiais nomearás em todas as tuas cidades — que Hashem, teu D-us, te dá — para as tuas tribos; e eles julgarão o povo com julgamento justo” (Dt 17.18). A questão é que, na verdade, a Torah não diz para nomear juízes e oficiais em todas as “cidades”; em vez disso, utiliza um termo hebraico diferente: todas as tuas “portas”. É uma expressão peculiar. Afinal, a Torah não está se referindo à nomeação de oficiais para servirem como guardas de fronteira. Portanto, o versículo é traduzido como “as portas das cidades”, significando, naturalmente, todas as suas cidades. Mas por que usar a palavra “portas” em vez da palavra “cidades”? Na verdade, o uso da palavra “portas” é analisado por muitos comentários; alguns interpretam a palavra “portas” como uma referência às portas pessoais do corpo humano — os sete orifícios que servem de canal para quatro dos cinco sentidos: isto é, dois ouvidos, dois olhos, duas narinas e uma boca. O “Shalah” (Shnei Luchos HaBris) explica que essas portas de entrada corporais necessitam tanto de oficiais quanto de juízes, constantemente de guarda, para garantir que apenas o conteúdo adequado seja absorvido. No entanto, gostaria de apresentar uma abordagem mais simples.

Frequentemente, os leitores do “Faxhomily” e da “Drasha” enviam histórias de antologias ou relatos de experiências pessoais que posso utilizar em futuros faxes. Aqui está uma que recebi há pouco tempo, embora, infelizmente, eu não tenha o nome do autor. Ele contou a seguinte história reveladora:
Lembro-me do avô da minha esposa, de abençoada memória. Ele era um “shochet” (magarefe ritual), um “Litvishe Yid” (judeu lituano). Era um judeu muito sincero e honesto. Morava no Kentucky e, mais tarde na vida, mudou-se para Cincinnati. Na velhice, veio para Nova York, e foi lá que viu “Chassidim” pela primeira vez. Não havia muitos “Chassidim” no Kentucky e em Cincinnati.
Certa vez, ele foi a um cardiologista em Nova York. Enquanto esperava, a porta se abriu e um distinto “Rebe” chassídico entrou, acompanhado por seu “gabbai” (assistente pessoal). Parece que o Rebe tinha um assunto muito urgente para tratar com o médico, que provavelmente lhe pediu que fosse direto ao consultório. O “gabbai” dirigiu-se imediatamente à porta e acompanhou o Rebe para a consulta. Antes de entrar, o Rebe viu meu avô esperando ali.
O Rebe aproximou-se do meu avô e disse: “Quero lhe pedir um favor. Vou ficar com o médico apenas um minuto, se não houver problema para o senhor. Se não estiver de acordo, não entrarei. Um minuto é tudo de que preciso.”
O avô da minha esposa concordou, e o Rebe entrou. Ele permaneceu lá por cerca de um minuto e depois saiu. O “gabbai” estava pronto para sair direto pela porta, mas o Rebe aproximou-se dele novamente e perguntou: “Tudo bem para o senhor? Esforcei-me para ser breve. Acho que fiquei lá apenas um ou dois minutos. Muito obrigado. Agradeço imensamente.” Mais tarde, o avô da minha esposa me disse: “Não entendo muito de hassidim e Rebes, mas há um Rebe de quem posso dizer que é uma pessoa íntegra.”
Talvez a Torah esteja nos dizendo que aqueles que julgam e lideram não são responsáveis perante o povo apenas enquanto estão no tribunal. Eles têm responsabilidades também em suas entradas e saídas. Ao nos dizer que juízes devem ser nomeados às portas, a Torah pode estar indicando que a conduta dos oficiais do tribunal e dos juízes não começa apenas quando eles estão realizando atos judiciais oficiais nos tribunais. Nossos líderes exercem um impacto enorme onde quer que estejam — até mesmo ao entrar pelos portões da justiça.
Tradução: Mário Moreno.

