Proteção para a Jornada

Mário Moreno/ agosto 14, 2026/ Artigos

Se um cadáver for encontrado na terra…” (Dt 21.1)

Quando um judeu é assassinado e o autor do crime não é encontrado, a cidade mais próxima do corpo assume a responsabilidade de realizar o ritual que trará expiação aos “filhos de Israel” (o Povo de Israel) por esse ato hediondo. Durante o procedimento, os anciãos da cidade declaram: “yadeinu lo shafchu et hadam hazeh” – “Nossas mãos não derramaram este sangue” (Dt 21:7). O Talmud questiona a necessidade dessa declaração. Como poderíamos suspeitar que os anciãos tivessem culpa nesse crime? O Talmud explica que eles devem declarar que não foram responsáveis ​​por permitir que a vítima deixasse a cidade sem escolta e sem provisões (Sotah 45b). Implícita na resposta do Talmud está a ideia de que, se a vítima tivesse sido acompanhada e provida de mantimentos, não teria sido morta.

O Maharal levanta um ponto importante que suscita uma questão: a “mitzvá” de “levayá” — acompanhar um visitante — não exige escoltá-lo até a cidade seguinte. Além disso, não encontramos em lugar algum a exigência de estar armado ao acompanhar um viajante. De que forma acompanhá-lo teria ajudado? O Maharal oferece uma explicação de natureza esotérica. Ele explica que, quando os judeus demonstram solidariedade uns para com os outros — como neste caso, ao acompanhar o visitante por uma curta distância e fornecer-lhe provisões —, Hashem concede ao viajante proteção durante toda a jornada. Se não demonstrarmos essa solidariedade, Hashem não oferece Sua proteção (Chidushei Aggados Sotah 45b).

Talvez exista também uma explicação prática para a resposta do Talmud. Um visitante em uma cidade, ou alguém que esteja perdido, é geralmente mais vulnerável a assaltos ou roubos do que um morador local. A razão para isso é que existe um certo perfil que o assaltante busca ao identificar sua “vítima”. Uma pessoa que não está familiarizada com o ambiente tende a transparecer sua insegurança na maneira como se porta. Assim, ela fica mais propensa a sofrer um ataque. Quando acompanhamos um visitante, mesmo que por uma curta distância, transmitimos a mensagem de que lamentamos sua partida e gostaríamos de estar com ele. Isso proporciona à pessoa um forte sentimento de pertencimento. Ele se sente conectado à comunidade da qual acabou de sair. Tal pessoa caminha com um ar de confiança que desencoraja a maioria dos assaltantes de atacá-la. Por outro lado, se alguém não desfruta desse sentimento ao deixar uma cidade, sente-se desconectado. Esse sentimento se manifesta em um modo de caminhar que transparece sua falta de confiança, resultando em uma maior probabilidade de que um crime seja cometido contra ele.

________________________________________

Uma Boa Desculpa

Então os oficiais falarão ao povo, dizendo: ‘Quem é o homem que construiu uma casa nova e não a inaugurou? Que vá e retorne à sua casa…’” (Dt 20:5)

A Torah registra três categorias de pessoas isentas do serviço militar: “Ha’ish asher banah bayis velo chanacho” — o homem que construiu uma casa e ainda não a inaugurou; “Ha’ish asher natah kerem velo chilelo” — o homem que plantou um vinhedo e ainda não o resgatou (isto é, não desfrutou dos frutos de seu trabalho); e “Ha’ish asher aras isha velo lakacha” — o homem que ficou noivo de uma mulher e ainda não se casou com ela. (Dt 20:5-7)

Muitos comentários entendem essa lei como uma medida prática. Um soldado que se enquadra em uma dessas três categorias ficará preocupado com o que deixou em casa e, consequentemente, seu desempenho será prejudicado. Sua falta de foco pode até impactar negativamente seus companheiros, reduzindo o moral deles. Portanto, a Torah o libera de seu dever como soldado. (Rabbeinu Bachya, Ibn Ezra, Ramban) Por que a Torah escolhe especificamente essas três situações para dispensar um soldado de seu dever militar, quando existem inúmeras outras situações que poderiam deixá-lo preocupado?

Rashi comenta que o soldado é dispensado devido a “agmas nefesh” — “tormento da alma”. (20:5; veja Gur Arye) Se Rashi está interpretando que o estado mental do soldado o tornará ineficaz, por que ele recorre a uma linguagem poética, falando em “tormento da alma”, em vez de simplesmente afirmar que o soldado estará preocupado? O Talmud ensina que, quarenta dias antes da formação do feto, uma voz celestial proclama quem será o futuro cônjuge, onde será a moradia e qual será o meio de sustento dessa criança. (Sotah 2a) Os quarenta dias anteriores à formação do feto correspondem ao momento da concepção, quando toda a informação genética contida no DNA do feto já está formada — isto é, a inteligência, a aparência, as habilidades e as inclinações da criança. (Niddah 30a) Esses dados, que constituem a definição básica da criança, estão presentes na concepção. Por que o cônjuge, o lar e o meio de sustento de uma pessoa precisam ser determinados no momento da concepção?

Claramente, os Sábios (Chazal) nos ensinam que, embora esses três fatores pareçam externos à essência de uma pessoa, eles são elementos fundamentais na definição e na expressão dessa essência. O cônjuge é o complemento da alma de uma pessoa.

A casa e a profissão de uma pessoa são formas pelas quais ela é definida; um médico é chamado pelo título de “Doutor”, pois a profissão tornou-se o seu nome. Da mesma forma, uma pessoa é conhecida como “Ba’al Habayis” (chefe de família/proprietário de um lar), pois possuir um lar a torna completa. (Veja Yevamos 63a: “Qualquer pessoa sem cônjuge, casa ou meio de sustento não é completa.”) O Rambam deduz desses versículos que uma pessoa deve ter um meio de sustento e possuir uma casa antes de se casar. Fica evidente que o Rambam interpreta o ato de plantar uma vinha como um exemplo de ter um meio de sustento. (Yad, Hilchos Dayos 5:11: “uma pessoa deve primeiro ter um meio de sustento, depois uma casa, e só então deve se casar“; veja Kesef Mishna e Chasam Sofer, que apontam que a sequência do Rambam contradiz a do versículo.)

A Torah nos ensina que iniciar um casamento, começar um novo negócio e possuir uma nova casa geram uma preocupação particularmente intensa no indivíduo, pois definem a sua própria essência. A incapacidade de concluir esses processos, somada à consciência de que outra pessoa poderá colher os frutos do seu trabalho, causa angústia à alma do soldado, visto que é através dessas três vias que a alma se define e se expressa.

Tradução: Mário Moreno

Share this Post