Uma Breve Reflexão

Mário Moreno/ agosto 18, 2026/ Teste

Há um “midrash” que conheci anos atrás sobre o encontro de Eliyahu HaNavi (o profeta Elias) com um pescador; essa história tornou-se relevante para um novo livro que estou terminando agora, com a ajuda de D-us (“b”H”). Ela é particularmente poderosa nesta época do ano e diz o seguinte:

Certa vez, enquanto eu caminhava de um lugar para outro, encontrei um homem que não conhecia nenhum versículo nem a “Mishná”, e que costumava fazer piadas e zombar das coisas. Ele veio até mim e eu lhe perguntei: “Meu filho, o que você responderá ao seu Pai Celestial no Dia do Julgamento?” Ele me disse: “Rabino, eu tenho uma resposta. Sabedoria e conhecimento não me foram dados pelo Céu para ler e estudar.” Então perguntei: “Qual é o seu trabalho?” Ele respondeu: “Sou pescador.” Perguntei-lhe: “Meu filho, quem lhe ensinou isso e lhe disse para pegar linho, tecê-lo em redes e depois lançá-las ao mar para pescar?” Ele respondeu: “Rabino, para isso recebi compreensão e conhecimento do Céu!” Eu lhe disse: “Para encontrar linho, tecer redes, lançá-las ao mar e pescar, deram-lhe sabedoria e conhecimento do Céu; mas para a Torah — sobre a qual está escrito: ‘Pois a coisa está muito perto de você, em sua boca e em seu coração, para que a cumpra’ (Dt 30.14) — não lhe deram sabedoria e conhecimento do Céu?” Imediatamente ele elevou a voz, chorou e gemeu. Eu lhe disse: “Não leve isso tão a mal, pois muitas pessoas darão a mesma resposta, mas o trabalho delas servirá de prova contra elas!” (Tanna d’Bei Eliyahu, Eliyahu Zuta 14)

A mensagem: O fato de algo não vir naturalmente ou facilmente até você não significa que não seja relevante para você. Pode significar apenas que você precisa desejar isso o suficiente para que D-us lhe conceda, e esse pode ser o seu teste na vida. Portanto, antes de dizer que uma determinada “mitzvah” (preceito) não é para você, peça a D-us que lhe dê o que é necessário para mudar isso.

Podemos usar essa linha de raciocínio para compreender algo da “parashá” (leitura semanal da Torah). A Torah começa falando sobre a mulher cativa tomada por um soldado judeu durante a guerra — algo que, certamente, ela não incentiva. No entanto, em vez de confrontar diretamente o “yetzer hará” (inclinação para o mal) do homem — o que geralmente não resulta bem —, a Torah instrui o homem sobre como proceder de acordo com a “Halachá” (lei judaica) e quais são as obrigações decorrentes dessa situação.

Uma dessas obrigações é: “E acontecerá que, se não a desejares, então a deixarás ir para onde ela quiser” (Devarim/Dt 21.14); a esse respeito, Rashi comenta: “A Torah está lhe dizendo que, com o tempo, você passará a detestá-la”. É mesmo? A Torah diz apenas que, se você acabar não a desejando mais, não que certamente passará a odiá-la. O que levou o “Sifrei” — citado por Rashi — a interpretar a afirmação da Torah de forma tão extrema?

Pela mesma razão que levou Amnon a odiar Tamar mais do que a amava depois de tê-la forçado. Ela continuava sendo a mesma mulher virtuosa de quando Amnon se apaixonara por ela; então, o que havia para odiar?

A si mesmo. Olhar para ela o fazia recordar seu próprio ato bárbaro e sentir aversão por si mesmo. E, sendo o covarde que era, em vez de se culpar e tentar remediar a situação de alguma forma, ele a culpou pelos sentimentos que nutria em relação a si mesmo. O mesmo ocorrerá com o soldado que cede ao seu “yetzer hara” (inclinação para o mal) e deseja uma mulher que não deveria desejar.

É a nossa natureza. Temos um corpo que controla grande parte da vida cotidiana, mas também uma alma que constantemente nos impele a viver de acordo com um padrão mais elevado. Isso gera um conflito interno que leva algumas pessoas a tentar abafar essa voz intensificando sua vida material, enquanto outras buscam o autoconhecimento e o aprimoramento espiritual.

Tudo o que Eliyahu precisou fazer para despertar o pescador de sua autoilusão foi apontar a verdade que ele vinha ignorando. Ao ouvi-la, sua alma disse: “Exatamente! É isso que venho tentando lhe dizer há muito tempo!” Naquele momento, a resistência do corpo desmoronou, e ele se deu conta do quão absurda era a sua racionalização.

É uma verdade que se aplica a todos, e cabe a cada indivíduo descobrir em que aspecto de sua vida deve aplicá-la.

Tradução: Mário Moreno

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