Alimento para Reflexão

Mário Moreno/ novembro 20, 2025/ Teste

Esaú voltou do campo e estava exausto” (Gn 25:29)

Rashi cita um Midrash que explica que “ayeif” significa que Esaú estava cansado após ter cometido um assassinato, pois encontramos o termo “ayeif” – “exausto” – relacionado a assassinato em outras partes da Torah. (Gn 25:29) Rashi geralmente segue a interpretação literal do versículo, baseando-se no Midrash apenas quando este apoia a leitura simples. Onde no versículo vemos que “cansado” não significa simplesmente fisicamente exausto? Além disso, por que o ato de assassinato causa um estado de exaustão?

Existem duas maneiras pelas quais alguém pode estar exausto. Uma pessoa pode estar fisicamente exausta devido ao gasto de energia ou emocionalmente exausta como resultado de estar envolvida em algo que a deixa completamente insatisfeita. Uma pessoa que trabalha em uma loja o dia todo, sem que nenhum cliente entre, pode estar completamente esgotada no final do dia; isso não se deve a qualquer esforço físico, mas sim ao fato de ele não ter realizado nada.

O assassinato é um ato completamente destrutivo e não pode oferecer a uma pessoa qualquer verdadeiro senso de realização. Portanto, a Torah conecta o esgotamento ao assassinato, pois, em última análise, esse é o sentimento que o assassino experimenta. O que ainda precisa ser resolvido é a questão de onde, no versículo, Rashi vê que o esgotamento é emocional, e não físico. A resposta está na continuação da narrativa. Esaú chega em casa exausto e pede para ser alimentado. Uma pessoa fisicamente exausta deseja dormir, não comer. A vontade de comer é muitas vezes uma manifestação de esgotamento emocional. Quando uma pessoa se sente emocionalmente insatisfeita, ela busca comida para satisfazer seu desejo de plenitude.

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Conte Suas Bênçãos

Isaque semeou na terra e naquele ano colheu cem vezes mais; Hashem o abençoou” (Gn 26:12)

O Midrash aponta que, ao afirmar que a produção foi cem vezes maior, a implicação é que a produção foi contada. (Bereshit Rabbah 64:5) Isso, no entanto, contradiz o ditado estabelecido pelo Talmud, que afirma que não se deve contar os bens, pois a bênção não se baseia naquilo que foi pesado, medido ou contado. (Bava Metziah 42a) O Midrash conclui que Yitzchak contou a produção com o propósito de dizimar – uma mitsvá.

Com base neste Midrash, o Rambam atribui a Yitzchak a instituição do dízimo. (Yad Hilchs Melachim 9:1) O Raavad discorda, apontando que o conceito de dízimo já existia nos dias de Avraham; após a guerra contra os quatro reis, Avraham deu um décimo dos despojos a Malkitzedek, que era o sacerdote naquela época. (Gn 14:20) Portanto, o Raavad conclui que foi Avraham, e não Yitzchak, quem instituiu o dízimo. (Yad ibid)

Talvez o Rambam fizesse A seguinte distinção: Uma das funções do dízimo é mostrar que entendemos que tudo o que temos pertence a Hashem. Quando uma pessoa dizima, ela declara que o produto não é resultado de “kochi v’otsem yadi” – “a força das minhas ações”, mas sim uma bênção de Hashem. Os despojos que Avraham dizimou foram resultado de um acontecimento completamente milagroso, sua vitória sobre probabilidades incríveis. Pode-se pensar que é somente em tais circunstâncias que o dízimo seria necessário. A noção de que mesmo quando uma pessoa aplica seus próprios esforços de maneira natural, o produto ainda é uma bênção de Hashem, só fica clara quando Yitzchak dizima, pois Yitzchak planta e colhe de maneira não milagrosa. Portanto, a ele é atribuída a instituição do dízimo.

O Presente a partir do Passado

Porque Abraão obedeceu à Minha voz” (Gn 26:5)

O Rambam ensina que Abraão tinha quarenta anos quando tomou consciência de seu Criador. A partir dos quarenta anos, ele começou a pregar ao mundo sobre o monoteísmo, reunindo dezenas de milhares de alunos, até chegar a terra de Israel. Lá, ele continuou a proclamar o nome de Hashem para o mundo inteiro. (Yad Hilchos Avodah Zorah 1:3)

O Raavad cita um Chazal conflitante que afirma o seguinte: O valor numérico das letras da palavra “eikev” é equivalente a cento e setenta e dois, pelos cento e setenta e dois anos da vida de Abraão durante os quais ele obedeceu à voz de Hashem. Abraão morreu aos cento e setenta e cinco anos. Portanto, conclui o Raavad, Abraão tomou consciência de seu Criador aos três anos de idade. Além disso, o Raavad pergunta por que não há relatos de Sem e Éver, que dirigiam academias de aprendizado na terra de Israel, protestando contra a idolatria e pregando o monoteísmo como Abraão fez. (Ibid.)

A Mishná Kesef tenta responder à primeira pergunta do Raavad da seguinte maneira: Embora Avraham tenha começado a aceitar Hashem aos três anos de idade, o processo foi concluído aos quarenta anos. (Ibid.) No entanto, o Rambam afirma que Avraham serviu a ídolos desde que foi desmamado, no terceiro ano de sua vida, até os quarenta anos. (Ibid.) Portanto, parece que Avraham não começou a aceitar Hashem antes dos quarenta anos.

O Talmud ensina que um Baal Teshuva, um penitente, está em um nível superior ao de alguém que sempre foi justo. (Sanhedrin 99a) Isso deriva do versículo “shalom, shalom larachok v’lakarov” – “Hashem saúda aqueles que estavam distantes Dele antes daqueles que sempre estiveram próximos.” (Is 57:19) É difícil entender por que a Torah descreve um Baal Teshuva como um “rachok”, alguém que está distante de Hashem. Mesmo se interpretarmos o termo como o Talmud o faz, como alguém que “estava”, mas não está mais distante, ainda pareceria depreciativo associá-lo a ter estado distante de Hashem no passado. O Talmud deve estar nos ensinando que sua distância no passado é o que o torna maior.

Muitas vezes, descobrimos que uma pessoa que se reformou de um determinado comportamento agirá como um cruzado contra outros que exibem o mesmo comportamento. Por exemplo, a pessoa que será mais vocal sobre alguém em sua vizinhança fumando é um ex-fumante. Isso também pode acontecer com Baalei Teshuva. Às vezes, descobrimos que Baalei Teshuva podem ser os mais intolerantes com aqueles que se encontram na mesma situação em que já estiveram. A psicologia por trás desse comportamento é a seguinte: um ex-fumante pode ainda sentir vontade de fumar, e a maneira como ele reprime seus próprios sentimentos é tentando reprimi-los em todos os outros. No entanto, um Baalei Teshuva não deve tentar se dissociar do seu passado e reprimir tudo o que vivenciou. Ele está em uma posição que lhe permite se identificar com pessoas que estão passando pelas mesmas coisas que ele passou e, portanto, está mais bem preparado para ajudá-las a sair de suas situações. Um Baalei Teshuva é mais capaz de ser “megaleh kavod shamayim” – “revelar a glória de Hashem ao mundo”, pois ele consegue se conectar de forma mais eficaz com aqueles que estão distantes de Hashem. Portanto, a Torah se refere ao Baal Teshuva como alguém que era “rachok”, pois é precisamente isso que lhe dá a oportunidade de ser maior do que alguém que sempre foi um Tzaddik.

É porque Avraham cresceu em um ambiente de idolatria, e até mesmo esteve envolvido nela, que ele é capaz de impactar o mundo de forma mais eficaz do que Shem, que cresceu na casa de um Tzaddik. O Talmud não diz que Avraham serviu a Hashem desde os três anos de idade, mas sim que, nos últimos cento e setenta e dois anos de sua vida, ele serviu a Hashem. Uma vez que se aperfeiçoou, Avraham colocou todas as suas experiências anteriores em uso de forma positiva. Isso transformou todas as suas experiências passadas em mitzvot. O Talmud se refere a esse conceito como “zedonos na’asos lo k’zechuyos” – “pecados de rebeldia são transformados em mitzvot” – (Yoma 86a).

É importante que não vejamos nosso passado como tempo perdido, pois cada experiência que uma pessoa tem pode ser utilizada de forma positiva. Podemos ajudar outras pessoas que estão na mesma situação em que estávamos. Essa perspectiva permite que a pessoa se sinta mais positiva sobre quem ela é agora, pois o que ela foi pode ser usado para torná-la uma pessoa melhor.

Tradução: Mário Moreno

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