Apenas de Passagem
E ele lhes ordenou, dizendo: “Assim direis ao meu senhor, a Esaú: ‘Assim disse o teu servo Ia´aqov: “Permaneci (IM LAVAN GARTI) com Labão e permaneci até agora“. (Gn 32:5)

Permaneci: גַּרְתִּי. Não me tornei oficial nem dignitário, mas um estrangeiro (גֵּר). Não vale a pena que me odeiem por causa da bênção de seu pai, com a qual ele me abençoou (27:29): “Serás senhor sobre teus irmãos”, pois isso não se cumpriu em mim – Outra explicação: גַּרְתִּי tem o valor numérico de 613 (TARYAG). Ou seja: Vivi com o perverso Labão, mas cumpri os 613 mandamentos e não aprendi com suas más ações. Rashi
Ia´aqov está enviando uma mensagem contraditória a Esaú. Por um lado, ele mantém um perfil discreto e minimiza seu sucesso. O ódio de Esaú vem das bênçãos que Ia´aqov recebeu de seu pai, e ele quer que Esaú saiba que não obteve nenhuma vantagem com essa bênção. Por outro lado, Ia´aqov demonstra força. Sobrevivi a Labão e permaneci um servo fiel a HASHEM, cumprindo 613 mandamentos. Não comprometi nem um pouco meus princípios e valores fundamentais, apesar do ambiente hostil criado por Labão. Ainda sou digno e merecedor das bênçãos.
Por que a palavra que expressa a estadia de Ia´aqov (GARTI) é a mesma palavra que indica o cumprimento de seus 613 mandamentos (TARYAG)? Por que a palavra “GARTI” carrega ambas as mensagens? Qual a conexão entre ser um habitante temporário e cumprir 613 Mitzvot?
O Chovos HaLevavos, no Portão sobre Cheshbon HaNefesh, Autorreflexão, oferece 30 lentes e maneiras de contemplar e considerar nossa condição neste mundo. A 30ª é que somos, de fato, estrangeiros em terra estranha: …Ele deveria considerar sua condição como a de um estrangeiro que veio de uma terra distante e não conhecia nenhum dos habitantes do país para onde chegou, e nenhum deles o conhecia. O rei do país teve piedade dele por ser estrangeiro e o instruiu naquilo que promoveria seu bem-estar. Providenciou-lhe o sustento diário e ordenou-lhe que não se rebelasse contra suas leis e não transgredisse seus mandamentos. E informou-o sobre o benefício e a recompensa se o obedecesse e o assustou com os castigos (que receberia se o desobedecesse), apropriados para o tempo e o lugar. E o rei avisou o imigrante que chegaria o momento em que ele teria que partir dali, mas não lhe revelou quando seria esse momento.
Entre as condições às quais ele é obrigado: Submissão e humildade, e abandonar a arrogância, e distanciar-se do orgulho e da altivez… Estar preparado para a jornada e para seguir em frente, e não se acomodar e se estabelecer… como disse o Rei Davi: “Sou um estrangeiro nesta terra; não escondas de mim os teus mandamentos”
… Contentar-se com qualquer alimento que receber, e com qualquer casa e roupa que encontrar, e comportar-se em todos os seus modos de acordo com o mínimo necessário para a subsistência e não se esforçar (para acumular luxos)… Preparar-se para a jornada e considerar quais provisões precisará no caminho… Portanto, meu irmão, assuma as condições de ser um estrangeiro neste mundo, porque você é, de fato, um estrangeiro nele.
Conta-se que um vendedor ambulante veio a Radin para procurar o Chofetz Chaim e, ao espiar a modesta casa do Tzadik, ficou alarmado com a simplicidade dos móveis. Ele perguntou ao santo Rebe: “Onde estão seus móveis?” O Chofetz Chaim perguntou-lhe: “Onde está o seu?” O homem respondeu: “Sou um vendedor ambulante. Estou apenas de passagem.” O Chofetz Chaim disse-lhe: “Eu também estou apenas de passagem!”
Tradução: Mário Moreno

