Aproximem-se de suas realizações
“E Sarai era estéril; não tinha filhos” (Gn 11.30).

Formei-me na faculdade há mais de 46 anos e, na época, trabalhava no meu primeiro emprego de verdade: era orientador profissional e professor de um programa de conclusão do ensino médio para jovens porto-riquenhos que haviam abandonado os estudos, no Bronx. Para inspirar os alunos, costumávamos convidar palestrantes que pudessem explicar como conseguiram superar suas circunstâncias de origem e seguir em frente. Certa vez, fiz o convite a um homem — um cavalheiro elegantemente vestido e muito articulado. Ele aceitou, mas impôs uma condição: o encontro com os alunos deveria ocorrer no Metropolitan Museum of Art, onde ele havia trabalhado como curador. Concordei e, numa terça-feira de manhã, levamos 80 alunos em dois ônibus até lá. Eu mal sabia que minha vida estava prestes a mudar.
Ele nos mostrou exemplos de arte negra, indígena e espanhola. Depois, pediu que todos nos sentássemos no chão de mármore daquelas salas imponentes do Metropolitan Museum of Art e começou a falar com uma cadência quase de sermão. Com grande eloquência e profundidade, ele explicou: “Trouxe vocês aqui e apresentei estas culturas e suas artes porque a identidade porto-riquenha é composta por esses três elementos. Sei que, às vezes, ao se olharem no espelho, o lado negro em vocês não aceita o lado espanhol ou o indígena; o lado indígena rejeita o espanhol ou o negro; e o lado espanhol entra em conflito com o indígena e o negro que habitam em vocês. Se quiserem fazer as pazes com o mundo, precisam, antes, fazer as pazes consigo mesmos”. Eu estava fascinado, e os alunos também — notei isso ao observá-los de soslaio. Então, ele acrescentou, com profunda sabedoria: “Para saber para onde você vai na vida, precisa saber de onde você vem!”. Ele repetiu a frase com ênfase, virou-se para mim e disse a todos: “O Bobby, aqui, sabe de onde vem! Ele é filho de Avraham! Não é mesmo?!”.
Senti-me como um Bambi numa rodovia, com os faróis de um veículo vindo em minha direção. Eu não esperava ser o tema da fala dele, e Avraham não foi a passagem da Torah lida no meu Bar Mitzvah. Minha reação visceral foi a de que aquilo se tratava de um ataque antissemita, mas ele não disse nada pejorativo.
Num nanossegundo, com todos os alunos esperando que eu respondesse ao desafio da pergunta dele, lembrei-me de ter lido, na escola hebraica, um capítulo que começava com Avram e Sarai iniciando uma jornada a partir de Ur. Então, disse em voz alta e com confiança: “Exatamente!”. Antes de pronunciar uma palavra, você é dono dela; depois de dizê-la, ela passa a ser dona de você.
Corri para a casa dos meus pais, encontrei a Bíblia em inglês que ganhei por ocasião do meu Bar Mitzvah e comecei a procurar referências a Avraham — logo encontrei algumas. Lá estava ele, iniciando sua jornada aos 75 anos, com uma esposa estéril, incapaz de ter filhos. Lembro-me de pensar que, se estivessem no ensino médio, provavelmente seriam eleitos pela turma como o casal com “menos chances de chegar ao século XX ou XXI” — e, no entanto, aqui estamos nós. Depois, vi Avraham praticando atos de extrema bondade para com estranhos, o que me lembrou histórias que ouvi sobre meu próprio e querido bisavô — a quem cheguei a conhecer. Senti um impulso de saber mais.
Passei meses caminhando pelas ruas de Nova York, repetindo para mim mesmo: “Sou filho de Avraham e sei quem foi meu ancestral — trisavô, tetravô, e assim por diante — há 3.700 anos”. Então, percebi que estava encarando tudo da maneira errada; mudei a perspectiva, fiz a mim mesmo uma pergunta e comecei a escrever. Ao longo do caminho, deparei-me com a primeira de muitas respostas para a pergunta: “Como Avraham e Sara conseguiram se tornar relevantes 3.700 anos no futuro?” e “Que tipo de pai ou avô eu precisaria ser para que meus filhos ou netos se importassem, algum dia, com quem fui e pelo que vivi?”. Eis a primeira resposta que escrevi subconscientemente: “Pedrinhas em lagos são as nossas reflexões, mas rochedos em oceanos eram as concepções de nossos pais — cujas ondas ainda agitam o mar, cujas ondas ainda agitam o mar”. Percebi que isso pouco tinha a ver com o poderio militar ou a destreza política deles, mas sim com uma grande ideia; e, se eu pudesse descobrir mais sobre essa grande ideia, talvez pudesse começar a me aproximar de suas realizações.
Tradução: Mário Moreno.

