Devolver ao Remetente
Yitro é a porção na qual os Filhos de Israel chegam ao seu destino espiritual, intelectual e moral. É a porção na qual os antigos escravos hebreus escolhem se tornar o Povo Escolhido, assumindo as responsabilidades de 613 mitzvot e toda a sua responsabilidade. Esta semana, os judeus aceitam a Torah no Monte Sinai.

Não é fácil. Hashem precede a oferta com uma ordem poderosa. Ele envia Moshe para falar tanto aos homens quanto às mulheres. “Vocês serão para Mim um reino de ministros e uma nação santa” (Êx 19:6). Aceitar a Torah incluía as responsabilidades de uma nação santa — uma nova vara de discernimento moral para um mundo repleto de imoralidade. Mas eles estavam à altura do desafio e responderam como tal.
Eles não murmuraram sua resposta, nem resmungaram sua aceitação. Os judeus afirmaram sua concordância em uníssono com palavras que ressoam ao longo da história como o grito de guerra da fé judaica. Eles gritaram em uníssono: “Tudo o que Hashem ordenou, faremos!” (Êx 19:8). A resposta, declarando total submissão aos ditames da Torah, foi orgulhosamente registrada pelo Todo-Poderoso, concedendo aos judeus o status de nação escolhida em todas as suas provações.
Mas Moshe não olhou para o céu com um sorriso satisfeito, como se fosse um irmão orgulhoso compartilhando alegria com um pai que assistia das arquibancadas. A Torah nos diz: “e Moshe relatou as palavras do povo a Hashem” (Êx 19:9). Ele retornou ao Mestre do Universo e relatou as boas novas. Ele repetiu a resposta, palavra por palavra, a Hashem.
A pergunta é óbvia. Moshe sabia, talvez melhor do que qualquer ser mortal, que cada ação, gesto e pensamento de qualquer habitante deste planeta é devidamente registrado pelo Todo-Poderoso. Por que, então, ele relatou a resposta? Hashem estava bem ciente do entusiasmo e da aceitação voluntária do povo. Além disso, ao nos dizer que Moshe voltou a Hashem, a Torah não está abrindo uma caixa de Pandora? Será possível inferir que Hashem precisou que Moshe descobrisse a resposta? Obviamente, há uma lição mais profunda a ser aprendida!
No estado de Nova York, quando um bebê nasce, são realizados exames para determinar se ele tem alguma doença genética. Entre eles, estão os testes para histidinemia. Essa condição causa o acúmulo de níveis excessivos da proteína histidina no sangue, o que pode danificar o sistema nervoso e causar retardo mental. A doença deve ser tratada imediatamente. Um nível de histidina de 1 ou 2 pontos é considerado normal.
Dez dias após o nascimento de um bebê de um jovem casal, o hospital localizou freneticamente os pais para informá-los de que seu filho tinha um nível de histidina de 12! O hospital disse ao jovem casal para voltar correndo com o bebê. O pai imediatamente ligou para seu Rebe, Reb Yaakov Kamenetzky, que havia sido o sandek no bris do bebê apenas alguns dias antes.
Reb Yaakov disse que oraria pela criança, que parecia bem no bris. Então, ele disse para eles insistirem que o teste de histamina fosse repetido antes de qualquer tratamento ser administrado. Os pais correram de volta para o Hospital Bellevue, onde foram recebidos por uma variedade de médicos, enfermeiros, nutricionistas e terapeutas. A equipe queria internar o recém-nascido imediatamente. Eles alertaram que, se o bebê não fosse internado, poderia ocorrer dano cerebral permanente. Os pais insistiram que o teste fosse repetido, ao que os médicos responderam a contragosto: “Refaremos o teste, mas entendam”, resmungaram, “que esses testes são extremamente precisos. Nunca obtemos uma leitura falsa.”
Eles repetiram o procedimento e obtiveram um resultado totalmente diferente do primeiro. O nível de histamina estava um pouco acima de um! Após uma análise mais detalhada, perceberam que o primeiro teste não estava errado — o técnico estava! Ele colocou a vírgula no lugar errado. A leitura original não deveria ter sido 12, mas sim 1,2!
O casal, bastante perturbado com o susto e o trauma desnecessários, dirigiu-se com o bebê diretamente para a casa do Rabino Kamenetzky para informá-lo de que toda a provação havia sido um engano. Reb Yaakov, que ficou radiante com a notícia, abraçou o jovem pai e o beijou. “Obrigado por vir e me contar a notícia”, disse o sábio da Torah. “Tantas pessoas simplesmente me contam seus tzorus (problemas), pedem-me conselhos, até orações, mas quando as coisas melhoram, eu nunca fico sabendo. Acabo carregando o fardo de suas preocupações.”
Moshe sabia que Hashem ouviu a resposta da nação judaica tão alto, se não mais alto, do que ele. Mas ele foi enviado em uma missão e tinha a responsabilidade de transmitir as boas novas. Mas ele também queria enviar uma mensagem ao povo judeu. Ele ensinou ao seu povo que, antes de receber a Torah, é preciso ser um bom mensageiro. Tudo o que estudamos – tudo o que fazemos nesta terra – nada mais é do que uma mensagem que deve ser prestada a Hashem. Mesmo que Hashem saiba o que estamos fazendo, devemos retornar com um relatório de nossa realização. E Moshe nos ensinou que Derech Eretz não deve apenas preceder o estudo da Torah, mas também deve preceder também a sua entrega.
Tradução: Mário Moreno

