O Poder dos Salmos

Mário Moreno/ agosto 6, 2026/ Artigos

Recitar Salmos (Tehilim) é uma proteção poderosa contra pragas; além disso, todo judeu pode atrair milagres ao lê-los com simplicidade.

E quando oferecerdes um sacrifício de paz ao Eterno (Hashem), oferecê-lo-eis de modo a serdes aceitos” (Lv 19.5).

Durante a epidemia da Peste Negra no ano 5108 (1347), os judeus foram culpados pela praga, e espalharam-se mentiras de que eles haviam envenenado os poços. Isso levou a “pogroms” (massacres) contra as comunidades judaicas, e a maioria delas na Alemanha e na França foi destruída.

No livro “Sefer Emek HaMelech”, conta-se uma história surpreendente daquela época. Um fato notável ocorreu em uma cidade: ninguém ali atacou os judeus. Dois anos após o início dos “pogroms” na Alemanha, um judeu simples faleceu nessa cidade. Ele mal conseguia estudar um versículo da Torah (“Chumash”), mas recitava “Tehilim” (Salmos) constantemente. Após seu falecimento, ele apareceu em sonho ao rabino da cidade e pediu que alertasse os judeus para fugirem dali; a cidade estivera protegida até então graças à sua recitação de “Tehilim”, mas agora essa proteção havia cessado e um “pogrom” estava por vir. O rabino avisou imediatamente toda a comunidade; alguns partiram enquanto outros permaneceram. Pouco depois, ocorreu um “pogrom”, e apenas aqueles que haviam fugido foram salvos.

Essa história demonstra o imenso poder que todo judeu possui ao recitar “Tehilim”. Esse judeu, simples e sem instrução, protegeu toda a sua cidade por meio da recitação dos Salmos. Esse poder extraordinário dos “Tehilim” tem amparado nossos antepassados ​​e a nós mesmos em todas as gerações, atraindo bondades manifestas e proporcionando livramento daqueles que nos odeiam e de todo mal, com a ajuda de Hashem.

Sabe-se, pelas palavras de nossos Sábios, que o Rei Davi pediu a Hashem que, quando alguém recitasse “Tehilim”, isso fosse considerado equivalente ao estudo das leis de “Negaim” (lepra e pragas) e “Ohalot” (leis sobre tendas e a propagação de impureza ritual na presença de um cadáver). Com base nisso, os justos explicam que, por meio da recitação de “Tehilim” (Salmos), é possível ser poupado da necessidade de se submeter às leis de “negaim” (lepras/aflições) e “ohalot” (leis de impureza ritual relacionadas a tendas/habitações), pois a pessoa não será acometida por pragas ou doenças, não precisará ser colocada em quarentena como um leproso e ninguém morrerá em sua tenda — que Deus nos livre!

Por isso, nossa literatura sagrada ensina que é bom recitar alguns Salmos de “Tehilim” todos os dias, especialmente logo antes ou logo depois das orações, e de modo particular no Shabat. Da mesma forma, os “Tzadikim” (justos) ensinaram que, em tempos difíceis, é apropriado recitar mais Salmos.

Certa vez, quando uma epidemia de cólera se espalhou por Munkatch, meu santo ancestral, o Rebe Tzvi Hirsch de Ziditchov (“zy”a”), escreveu uma carta de encorajamento aos moradores da cidade, incentivando-os a lembrar, naquele momento, de confiar apenas em “Hashem”; ao final da carta, ele os instruiu a completar a leitura de todo o Livro de “Tehilim” a cada semana durante o período da epidemia, pois isso atrairia uma Proteção Divina superior.

Meu santo ancestral, o Rebe de Ziditchov (“zy”a”), também relata em sua santa obra “Ateres Tzvi” (na porção da Torah “Vayechi”) que recebeu uma tradição de seus mestres: se alguém estiver em apuros, deve recitar todo o Livro de Salmos de uma só vez, sem interrupções. Eles afirmavam que isso está implícito em um versículo dos Salmos (106.2) — “quem poderá narrar os feitos poderosos de “Hashem”?” —, pois a palavra “yemalel” (narrar/recitar) pode ser interpretada também como “esmagar”. Isso significa que, se alguém deseja esmagar os julgamentos severos que provêm de “Hashem” — “fazer ouvir todos os Seus louvores” —, deve recitar todo o Livro de Salmos e fazê-lo ser ouvido.

Por essa razão, tornou-se costume recitar “Tehilim” com mais frequência do que o habitual durante os meses de Elul e Tishrei, pois, nessa época, precisamos atrair uma misericórdia especial para sermos considerados inocentes no julgamento. Ouvi de meu pai, o anterior Rebe de Kalov (“zy”a”), que meu santo ancestral, Rebe Avraham Chaim de Linsk (“zy”a”), costumava recitar o Livro de Tehilim (Salmos) na íntegra 12 vezes no dia de “Shalosh Esrei Midot” (8 de Tishrei, dois dias antes de Yom Kippur, um dia especial de oração). Da mesma forma, outros “tzadikim” (justos) tinham o costume de recitar muitos Salmos durante esse período.

O poder principal da recitação de Tehilim reside na fé; pois, quando uma pessoa se volta para Hashem com gratidão pelo passado e oração pelo futuro — em meio à fé e à confiança —, ela se aproxima de seu Pai Celestial. Por esse mérito, torna-se digna de proteção contra todo mal, conforme registrado no “Sefer HaChinuch” (mandamento 512).

Certa vez, uma pessoa disse ao santo Rebe Pinchas de Koritz (“zy”a”) que não recitava Tehilim porque não conseguia, de forma alguma, concentrar-se no significado das palavras. O Rebe aconselhou-a a dizer a Hashem, antes de recitar os Salmos: “Não consigo me concentrar minimamente; no entanto, eis que recito estas palavras sagradas diante de Ti, Mestre do Universo — palavras compostas com “Ruach HaKodesh” (Espírito o Santo). Que Tu realizes tudo de que necessito em virtude desta simples devoção!” Recitar Tehilim é algo para todos, como explica o Rebe de Alexander na obra “Yismach Yisrael” (na porção da Torah “Ekev”): o Rei Davi compôs o Livro dos Salmos de tal maneira que ele ressoa com todo tipo de pessoa no mundo, até a vinda do Mashiach. Ele explica que é isso que se diz no Livro de Tehilim (Sl 145.21): “que a minha boca proclame o louvor de Hashem, e que toda carne bendiga o Seu Santo Nome para sempre!”, pois os louvores compostos pelo Rei Davi destinavam-se a todo ser humano, em qualquer situação e em qualquer geração.

Em nossos tempos, a oração pode ser comparada a um sacrifício, conforme está escrito: “e as ofertas de nossos lábios substituirão os touros” (Os 14.3); da mesma forma, nossos Sábios ensinaram que a liturgia de oração estabelecida foi instituída para corresponder aos sacrifícios diários (“Berachot” 26b). A inclusão voluntária de orações através da recitação de Tehilim assemelha-se a uma oferta de paz — que era facultativa —, realizada quando o coração de uma pessoa se mostra generoso para proporcionar alegria adicional ao Criador Bendito e para aproximar o indivíduo de Hashem; isso remete à própria ideia de “oferta de paz”, que traz harmonia e unidade entre o Povo Judeu e seu Pai Celestial.

É isso que encontramos aqui: Hashem instruiu os judeus de todas as gerações que, ao precisarem de salvação em meio a dificuldades, não se voltassem para ídolos — o que inclui a proibição de recorrer àqueles que acreditam poder realizar tudo por conta própria — nem fizessem para si mesmos imagens de escultura. Isso significa não transformar a si mesmo em um ídolo ao pensar que se pode organizar tudo sozinho; em vez disso, deve-se lembrar: “Eu sou Hashem, teu D-us”. Tudo está nas mãos de Hashem, e é a Ele que devemos recorrer.

Por isso, a Escritura prossegue dizendo: “quando oferecerdes uma oferta de paz a Hashem” — ou seja, ao recitardes Salmos, que equivalem a uma oferta de paz —, “sacrificai-a conforme a vossa própria vontade”. O propósito principal de um sacrifício é que haja boa vontade e um espírito generoso, acompanhados de fé e confiança; pois, assim, todo judeu pode realizar grandes feitos ao recitar Tehilim, trazendo salvação para si mesmo e… ao povo judeu.

Tradução: Mário Moreno.

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