Perdido no Egito
Negociar a redenção não é um processo simples. É preciso lidar com dois lados diferentes e enviar duas mensagens distintas para as partes opostas. Primeiro, é preciso falar com os opressores. É preciso ser exigente e firme. Não se pode demonstrar fraqueza ou disposição para negociar. Depois, é preciso informar os oprimidos. Isso deveria ser fácil: de maneira suave e reconfortante, dá-se a notícia de que eles estão prestes a ser libertados. Certamente, eles se alegrarão com o menor indício de que sua hora finalmente chegou. É por isso que me impressiona um versículo na porção desta semana que instrui Moshe a enviar exatamente a mesma mensagem ao Faraó e ao povo judeu, como se o Faraó e os judeus estivessem em sintonia, trabalhando em conjunto. Êxodo 6:13: “O IHVH falou a Moshe e a Arom e ordenou-lhes que falassem aos filhos de Israel e ao Faraó, rei do Egito, para que deixassem os filhos de Israel sair do Egito”. Sempre fiquei perplexo com este versículo. Como é possível abarcar a mensagem para os judeus e para o Faraó de uma só vez? Como comparar a forte exigência feita ao Faraó com a mensagem suave e persuasiva necessária para os judeus? O Faraó, que não quer ouvir falar de libertação, precisa ser advertido, castigado e até mesmo afligido por pragas. Os judeus deveriam se precipitar ao ouvir a menção da redenção! Por que, então, os dois são combinados em um único versículo e com uma única declaração? Há quem responda que os judeus neste versículo se referem, na verdade, aos capatazes judeus que foram nomeados pelo Faraó como kapos para oprimir seus irmãos. Assim, a comparação é claramente justificada. No entanto, gostaria de oferecer uma explicação mais homilética:

Há uma história maravilhosa sobre um pobre agricultor que vivia sob o domínio de um miserável poritz (proprietário de terras) na Europa medieval. O malvado proprietário de terras fornecia abrigo mínimo em troca de uma grande parte dos lucros do agricultor. O fazendeiro e sua esposa trabalhavam arduamente nas condições mais severas para sustentar a família com algumas galinhas poedeiras e uma vaca leiteira. Com o tempo, a dificuldade tornou-se a norma. O fazendeiro e sua esposa viviam uma rotina amarga e nunca esperavam por algo melhor. Certo dia, o fazendeiro voltou do mercado bastante perturbado. “O que houve?”, exclamou sua esposa. “Você parece ter passado por uma grande tragédia.” “Passou mesmo”, suspirou o fazendeiro aflito. “Dizem no mercado que o Messias está chegando. Ele nos levará para a terra de Israel. O que será da nossa vaca e das nossas galinhas? Onde vamos morar? Quem nos abrigará? Ai! O que será de nós?” Sua esposa, que tinha uma fé inabalável no Todo-Poderoso, respondeu calmamente. “Não se preocupe, meu querido marido. O Bom D-us sempre protege o Seu povo. Ele nos salvou do Faraó no Egito, nos redimiu do malvado Hamã e nos protegeu de decretos severos durante todo o nosso exílio. Sem dúvida, Ele nos protegerá também deste Messias!”
Hashem compreendeu que o povo judeu estava mergulhado no exílio há 210 anos. Eles haviam decidido suportar a escravidão em vez de abandoná-la. Moshe teve que ser tão enérgico com aqueles que ele planejava redimir quanto foi com aqueles que os escravizavam. Muitas vezes na vida, seja por escolha ou por acaso, entramos em situações em que não deveríamos estar. Com o passar do tempo, porém, nos acostumamos à situação, e nosso pior inimigo se torna a mudança. Devemos dizer ao Faraó dentro de cada um de nós: “Deixe meu povo ir!” Não continuemos no caminho confortável, mas sim sigamos o caminho correto. Essa mensagem deve ser dita à vítima dentro de nós com a mesma força e intensidade com que é dita à complacência.
Tradução: Mário Moreno

