Quem escreveu o Evangelho de Mateus?
Quem escreveu os Evangelhos Sinópticos? Seus títulos trazem os nomes de Mateus, Marcos e Lucas, mas será que esses homens realmente os redigiram? Estudos modernos têm questionado essa suposição anterior, com alguns chegando a afirmar que os homens cujos nomes adornam os livros já haviam falecido há muito tempo.

Regras Básicas
Ao escrever sobre um tema controverso como este, algumas regras básicas são necessárias para que esta discussão demonstre minha abordagem em direção a uma conclusão objetiva.
Primeiro, embora a atribuição falsa não fosse incomum na comunidade cristã primitiva [esta frase na realidade equivale às congregações judaico messiânicas; o texto foi preservado para que o leitor entenda que se trata dos primeiros crentes em Ieshua]; um exemplo disso está no Evangelho de Tomé, que não faz parte do cânone, é injusto que os críticos bíblicos simplesmente assumam que os Evangelhos canônicos foram atribuídos erroneamente e transfiram o ônus da prova para aqueles que defendem a autoria tradicional.
Segundo, o preconceito anti-sobrenaturalista deve ser deixado de lado. Um exemplo disso é a suposição de que Mateus (ou pelo menos o capítulo 23) teve que ser escrito após a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., porque Ieshua simplesmente não poderia ter profetizado a destruição do Templo. E esta suposição dos teólogos fere a condição de Ieshua ser o Criador do Universo e com isso tira d´Ele sua posição, inclusive de ser o Messias e segundo um antissupernaturalista, o autor de Mateus teve que incluir isso posteriormente.
Um exemplo ainda mais flagrante disso é a crença, entre estudiosos da literatura, de que as tradições míticas levam uma ou duas gerações para se desenvolverem; portanto, presume-se que os Evangelhos, que proclamam a condição de ser o Criador e controlador de todas as coisas de Ieshua, devem ter sido um subproduto dessa evolução. Logo, os Evangelhos foram escritos e compilados pelo menos uma ou duas gerações após a vida de Ieshua. Tal suposição é filosófica e preconceituosa.
Com essas preocupações em mente, prossigamos então com uma mente objetiva.
As Fontes dos Evangelhos
A tradição cristã primitiva, articulada por muitos, mas principalmente pelo famoso teólogo Agostinho, é que os Evangelhos Sinópticos foram escritos na ordem em que aparecem no Novo Testamento: Mateus, Marcos e Lucas. A erudição pós-Iluminismo desafiou essa suposição, e hoje estudiosos tradicionais e liberais defendem a visão de que Marcos foi o primeiro Evangelho escrito.
Além disso, estudiosos bíblicos tradicionais sustentam que Marcos baseou seu Evangelho em um documento fonte conhecido como “Q”. Não há absolutamente nenhuma evidência para qualquer documento Q, mas a análise literária das semelhanças sinópticas, juntamente com a tradição rabínica judaica (nomeadamente a prática de manter registros dos ensinamentos rabínicos), apoia a hipótese. Estudiosos do Novo Testamento acrescentaram duas fontes adicionais: “L” e “M” – para as quais, mais uma vez, não há evidências concretas. Presume-se que sejam vertentes da tradição oral.
Os autores de Marcos (primeiro) e, posteriormente, de Mateus e Lucas, teriam utilizado essas diversas fontes na elaboração de seus relatos evangélicos.
Mateus
Quem escreveu o Evangelho que aparece primeiro no cânone do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus? As dúvidas sobre a autoria de Mateus decorrem, em grande parte, do fato de que estudiosos do Novo Testamento agora acreditam amplamente que Marcos foi escrito primeiro. Será que Mateus, uma testemunha ocular da vida de Ieshua, se basearia nos escritos de Marcos, que não foi testemunha ocular?
Esse ceticismo, naturalmente, pressupõe que Mateus tenha utilizado principalmente Marcos, mas essa teoria da interconexão dos Evangelhos Sinópticos nunca foi comprovada de forma conclusiva, certamente não a ponto de tornar o autor de Mateus dependente do Evangelho de Marcos. Thomas Jefferson utilizou a Constituição da Virgínia de George Mason ao redigir a Declaração de Independência, mas a utilização não equivale à dependência absoluta. Nenhum historiador argumentaria que Jefferson estava impotente em sua tarefa de redigir o documento de independência dos Estados Unidos sem a contribuição de Mason. Portanto, mesmo que Mateus tivesse o Evangelho de Marcos à sua disposição, isso dificilmente desacreditaria a ideia de que o próprio apóstolo escreveu o Evangelho de Mateus.
A evidência mais forte que atesta a autoria de Mateus é o fato de que quatro fontes antigas, sem contar o próprio título, atribuem especificamente o Evangelho a Mateus, o discípulo de Ieshua. Essas fontes são Papias da Ásia Menor, Irineu da Gália, Panteno e Orígenes de Alexandria e Cesareia, todos líderes ou escritores importantes da comunidade cristã primitiva. Além disso, o Evangelho de Mateus circulava amplamente na congregação primitiva e era divulgado como um relato escrito por Mateus, sem questionamentos ou contestações aparentes.
Diante dessas fortes evidências da história antiga, Mateus, o discípulo de Ieshua o Messias, é o autor do primeiro Evangelho do cânone do Novo Testamento.
O Evangelho de Mateus foi o primeiro Evangelho escrito, composto antes de 70 d.C. e originalmente escrito em hebraico?
Tradicionalmente, as universidades do mundo ocidental ensinavam que o Evangelho de Mateus não foi o primeiro Evangelho escrito, que foi escrito em grego e que foi escrito depois de 70 d.C.
No entanto, à medida que mais e mais descobertas foram feitas, essas suposições se mostraram completamente erradas.
À medida que os pesquisadores examinam os escritos dos primeiros líderes da congregação, descobrem que o Evangelho de Mateus não só foi, sem dúvida, o primeiro Evangelho escrito (quase certamente antes de 50 d.C.), como também foi originalmente escrito em hebraico!
Veja o que alguns dos primeiros escritores da igreja, dos primeiros séculos, têm a dizer sobre o assunto:
Orígenes (Eusébio, H.E. 6.25.4): “Como aprendi por tradição a respeito dos quatro Evangelhos, que são os únicos inquestionáveis na Igreja de D-us debaixo do céu, o primeiro foi escrito, segundo Mateus, que outrora fora um cobrador de impostos, mas depois apóstolo de Ieshua o Messias, que o publicou para aqueles que vieram do judaísmo a crer, composto como foi em língua hebraica.”
Papias (Eusébio, H.E. 3.39.16): “Mateus compilou os oráculos (ta logia) em língua hebraica, e cada um os traduziu (ou interpretou) da melhor maneira possível.”
Irineu (Adv. Haer. 3.1.1): “Mateus também publicou um Evangelho escrito entre os hebreus em seu próprio dialeto, enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma e lançavam os fundamentos da Congregação.”
Eusébio (H.E. 3.24.6): “Mateus pregou primeiro aos hebreus e, quando estava prestes a ir a outros, transmitiu por escrito, em sua língua nativa, o Evangelho segundo ele mesmo, suprindo assim, por escrito, a ausência de sua própria presença àqueles de quem fora enviado.”
Epifânio (c. 315-403), bispo de Salamina, refere-se a um Evangelho usado pelos ebionitas (Panarion 30.13.1-30.22.4). Ele afirma ser o Evangelho de Mateus, chamado por eles de “Segundo os Hebreus”, mas diz que está corrompido e mutilado. Ele afirma que Mateus publicou seu Evangelho em letras hebraicas. Ele cita este Evangelho ebionita sete vezes. Essas citações parecem não provir de Mateus, mas de algum relato harmonizado dos Evangelhos canônicos.
Há também testemunhos antigos de que Bartolomeu, um dos doze apóstolos, levou consigo uma cópia hebraica do Evangelho de Mateus para a Índia. E por que ele teria levado um manuscrito hebraico para lá? A resposta é: porque havia uma comunidade judaica na Índia que precisava receber as boas novas sobre Ieshua. Dois dos primeiros historiadores da Igreja, Eusébio e Orígenes, escreveram sobre isso. “Relata-se”, escreveu Eusébio, “que entre as pessoas que conheceram Cristo, (Pantaeno) encontrou o Evangelho segundo São Mateus (que havia chegado mais de um século antes de Pantaeno). Pois Bartolomeu, um dos apóstolos, havia pregado a eles e deixado (na Índia) o manuscrito de Mateus em hebraico, que eles preservaram.” Em seu livro inovador, Uma História do Cristianismo na Ásia, o acadêmico e autor de Princeton, Samuel Moffett, revela que Pantaeno, um historiador da Igreja e missionário que viajou para a Índia em 180 d.C., descobriu a cópia do Evangelho de Mateus em hebraico que Bartolomeu havia levado consigo.
Existe uma tradição semelhante de que o apóstolo Barnabé, seguidor do apóstolo Paulo, também carregava consigo e foi sepultado com uma versão antiga do Evangelho de Mateus. Segundo a tradição, foi por meio de Barnabé que o Evangelho de Mateus foi transmitido e talvez até traduzido para o grego. Barnabé ensinava principalmente os judeus em Chipre e, segundo seus Atos, ele usava o Evangelho que recebeu pessoalmente de Mateus não apenas para ensinar, mas também para realizar milagres. Os Atos de Barnabé mencionam até mesmo a possibilidade de Mateus ter escrito seu Evangelho em pelo menos dois documentos: uma narrativa de milagres e outra de doutrinas. Se isso for verdade, pode ter sido Barnabé quem compilou os documentos de seu companheiro apóstolo. Após sua morte, o suposto autor dos Atos de Barnabé, João Marcos, salvou o Evangelho de Mateus e o escondeu no túmulo de Barnabé. Em 478, durante o reinado do imperador Zenão, o arcebispo Antêmio de Chipre anunciou que o local de sepultamento secreto de Barnabé lhe fora revelado em um sonho. Dizia-se que o corpo do santo havia sido descoberto em uma caverna com uma cópia do Evangelho canônico de Mateus sobre o peito; segundo o relato contemporâneo de Teodoro Lector, tanto os ossos quanto o livro do Evangelho foram apresentados por Antêmio ao imperador. Severo de Antioquia examinou esse Evangelho por volta do ano 500, buscando verificar se ele corroborava a passagem de Ieshua crucificado por uma lança em Mateus 27.49, como alguns ensinavam (o que não acontecia). De acordo com o historiador romano do século XI, Jorge Kedreno, um manuscrito uncial do Evangelho de Mateus, que se acredita ser o encontrado por Antêmio, ainda era preservado na Capela de Santo Estêvão, no Palácio Imperial. Se essa versão uncial for a cópia de Barnabé, podemos supor que ele a traduziu para o grego. Caso contrário, Barnabé pode ter sido sepultado com a versão original em hebraico. É claro que existe a possibilidade de ele ter possuído uma versão em grego escrita por Mateus.
Essa informação confirma ainda mais que Mateus, testemunha ocular dos milagres e eventos do ministério de Ieshua, foi de fato o autor do primeiro Evangelho e verifica tanto a origem judaica quanto a data antiga do primeiro Evangelho.
Mário Moreno

