Sobre Mares e Almas Gêmeas

Mário Moreno/ janeiro 29, 2026/ Teste

O Talmud faz uma afirmação bastante sinistra de que fazer um casamento arranjado é tão difícil quanto dividir o mar (Sotah 2a). Ao ouvir isso, a maioria das mentes imediatamente conclui que significa que, assim como é muito difícil dividir o mar, também é muito difícil unir duas pessoas.

O Talmud questiona isso porque em outros lugares somos ensinados que a união de um homem e uma mulher é anunciada no Céu quarenta dias antes do nascimento. O Talmud conclui, portanto, que a afirmação original se aplica apenas a casamentos subsequentes, caso se mostrem necessários. Encontrar a primeira alma gêmea precede o nascimento, mas encontrar almas gêmeas subsequentes é difícil.

O Arizal explica que “segundo casamento” significa com uma pessoa diferente na mesma vida. Significa com uma outra alma gêmea em um momento diferente (Sha’ar HaGilgulim, Introdução 20). Uma pessoa que chega ao mundo possui inocência espiritual com a qual os anjos podem trabalhar. Mas pessoa que já passou por uma experiência no casamento levará mais tempo para corrigir erros do passado e isso leva os anjos de ajudarem no shidduch.

A questão mais importante que parece não ser feita é: “Difícil para quem?” Certamente não para D-us. Ele só precisa pensar em algo e já é história. O mar se dividiu no momento em que D-us decidiu que deveria, assim, sem mais nem menos.

Portanto, talvez o que o Talmud realmente queira dizer é: “Assim como não é difícil para D-us dividir o mar, da mesma forma é fácil para Ele fazer o shidduch (shidduch é um sistema de encontros arranjados no qual solteiros judeus são apresentados uns aos outros em comunidades judaicas ortodoxas com o objetivo de se casarem) certo para uma pessoa.” E a pergunta e resposta do Talmud? Um contraponto, não uma argumentação, talvez apenas dizendo por que precisamos de uma afirmação se já temos a outra.

Certo, então por que tantas pessoas têm dificuldade em encontrar sua alma gêmea, e aquelas que têm dificuldade em mantê-la? Além disso, qual é a comparação? O problema de dividir o mar é pegar duas partes que já têm shalom bayit e separá-las uma da outra. Um zivug (alma gêmea) é sobre encontrar duas entidades separadas e muito diferentes e alcançar shalom bayit. Mas esse é o ponto, não é? É “difícil” para D-us dividir o mar, mas não porque seja difícil fazer o mar se dividir. É difícil porque D-us ama a unidade e desfazê-la é contrário à Sua natureza, por assim dizer. Então, quanto mais D-us estaria preparado para ajudar estranhos a se tornarem um só, cuja luta contra o maligno os mantém separados?

Isso é aludido, diz o Talmud, pelas palavras “ish—homem” e “ishah—mulher”. Elas têm um Aleph e um Shin em comum, que soletra “esh—fogo”. O que elas não têm em comum é o Yud de ish e o Heh de ishah, as duas primeiras letras do Nome mais sagrado de D-us. A mensagem: enquanto D-us estiver em um casamento, haverá shalom bayit. Quando Ele não estiver, o casamento será consumido por esh (Sotah 17a), que muitas vezes significa raiva.

E aí reside a “dificuldade” para D-us em fazer um zivug. Poucos casamentos começam perfeitos, e menos ainda terminam assim. Mesmo assim, D-us está disposto a fazer com que Seu Nome indelével se dissolva na água para produzir mei sotah (Água Sotah, não Água com Gás) para promover shalom bayit, a paz no lar. Da mesma forma, Ele permanece ao lado de um casal em dificuldades o máximo de tempo possível para ajudá-los a apagar seu “fogo” e alcançar shalom bayit.

E há também o outro lado da história, as pessoas que lutam para encontrar seus zivug, às vezes por anos. Isso também é difícil para D-us, que prefere ver todos casados ​​e felizes. Mas nossa ideia de perfeição é claramente diferente da de D-us às vezes, que faz tudo perfeitamente enquanto nós raramente fazemos.

Talvez essa seja também parte da mensagem do Talmud. Talvez esteja nos dizendo que, não importa qual seja a sua situação em relação ao zivug, D-us sabe de tudo… faz tudo… se preocupa com tudo. Isso pode não lhe dar a “paz no lar” que você esperava, mas, em uma escala cósmica, estamos todos no mesmo barco, tentando alcançar a perfeição pessoal e um relacionamento pessoal com D-us, assim como Ele está conosco, independentemente do estado civil atual. Precisamos apenas trabalhar com o que temos, fazer o melhor que pudermos e os resultados virão por si mesmos.

Tradução: Mário Moreno

Share this Post