Ambição Cega
O amor é cego. Assim como o ódio e qualquer princípio que comece a obscurecer o intelecto com emoção. Esta semana, no que parece ser a pior divisão ideológica do povo judeu desde o Êxodo, um teste decisivo da natureza humana provou que a grande divisão se baseava mais no ego do que em princípios.

Korach, primo de Moshe e um homem brilhante por direito próprio, iniciou uma rebelião que desafiou a liderança e a designação divina tanto de Moshe quanto de Arão. Além de sua própria família, as ações iconoclastas de Korach inspiraram 250 líderes judeus a denunciarem publicamente a liderança de Moshe e Arão. Entre os autoproclamados detratores, destacavam-se dois homens com um histórico de atividades vingativas contra Moshe: Datan e Abirão. No Egito, quando Moshe matou um capataz egípcio que estava espancando um judeu inocente, esses homens ameaçaram informar as autoridades egípcias.
Mas Moshe queria lidar com eles. Como líder de dois milhões de pessoas, ele poderia ter rido das queixas de uma pequena fração da população, mas não o fez. Ele procurou Datan e Avirão e pediu que viessem discutir suas queixas com ele. Seu pedido foi recebido com uma enxurrada de insultos.
“Mesmo que nos arranquem os olhos, não nos encontraremos!”, responderam eles (Nm 16.14).
Sempre me surpreendi com essa resposta tão arrogante. Por que esses homens, que obviamente eram teimosos, arrogantes e presunçosos, responderam de maneira tão autodepreciativa? Por que sugeriram a horrível prática de arrancar os próprios olhos? Não bastaria responder, mesmo aos piores inimigos, “não iremos”? Que relação a perda da visão tem com a recusa deles?
Reb Gimpel, um vendedor ambulante, adoeceu em uma pequena vila longe de casa e recebeu uma prescrição de cura que envolvia o consumo de alimentos não kosher. Sendo estrangeiro naquela cidade, ele decidiu perguntar ao rabino local se tinha permissão para tomar o remédio.
O médico não judeu não sabia onde o rabino morava e sugeriu que Reb Gimpel perguntasse ao açougueiro local. Reb Gimpel entrou no açougue. “Com licença”, perguntou ele ao corpulento vendedor de carne, “você sabe onde posso encontrar o seu rabino?” “O rabino!” zombou o açougueiro, “por que um homem de aparência respeitável como você precisaria do nosso rabino?” O homem ficou perplexo, mas continuou a explicar. “Gostaria de lhe perguntar algo.” “Pergunte algo a ele!” zombou o açougueiro. “Nosso rabino não sabe a diferença entre um cavalo e uma vaca! Você está perdendo seu tempo! Pergunte ao chazan onde ele mora, não tenho motivo para lhe dizer.”
O homem chocado foi até a casa do chazan. “Com licença”, perguntou ele. “Você sabe onde o rabino mora?”
“O rabino?” “Por que você iria querer encontrar esse ignorante? Certamente você não quer lhe fazer uma pergunta! Eu não gostaria de ser cúmplice do seu infortúnio. É melhor perguntar ao mohel.”
Frustrado, o pobre homem foi até a casa do mohel, onde mais uma vez foi recebido com uma enxurrada de insultos e humilhações. Finalmente, porém, o mohel cedeu e indicou ao homem a casa do rabino. O homem entrou pela porta e, antes mesmo de apertar a mão do rabino, exclamou: “Escute, eu não o conheço, e você não me conhece. Vim aqui para fazer uma pergunta, mas vou lhe fazer algo totalmente diferente. Por que você é o rabino aqui? O açougueiro pensa que você é um ladrão, o chazan pensa que você é um ignorante e o mohel o detesta. Por que você continua sendo o rabino desta cidade?”
O rabino ergueu os olhos dos seus óculos bifocais e sorriu. “Ah! Os insultos, os abusos e as críticas. Mas sabe de uma coisa? Por um pouco de honra, tudo vale a pena!”
Como os proverbiais agitadores de todos os tempos, Datan e Aviram pregavam uma profunda compreensão das leis da arrogância. Quando alguém está empenhado numa missão autoinfligida de contendas, tão corrupto e pervertido quanto for o seu julgamento, também o será a sua visão. Ele é cego para os críticos, cego para o mundo e, pior de tudo, cego para si mesmo. Uma vez que um homem está cego, você pode arrancar-lhe os olhos e ele não notará. Somente aqueles com um puro senso de missão valorizam a visão que lhes permite ver uma situação de todos os ângulos. Mesmo que não seja a sua própria. Enquanto Moshe, o líder de toda a nação, pede para se encontrar com seus piores inimigos e discutir suas queixas, eles se recusam e preferem ser cegos a qualquer crítica.
Tradução: Mário Moreno

