A Magia Negra de Balaão

Mário Moreno/ junho 26, 2026/ Teste

A jumenta viu o anjo de D-us.” (Nm 22.23)

Os rabinos Yitzchak e Yossi conversavam: se Balaão era tão grandioso, por que a jumenta viu [o anjo] e ele não? E como a Torah poderia testemunhar sobre o fato de ele [Balaão] “cair em um transe meditativo com visão mística”? Estaria ele em um nível superior ao de todos os outros profetas? Seria possível que esse indivíduo desprezível, que não passava de um praticante de magia negra, tivesse realmente contemplado o esplendor celestial do Santo, a santidade do Mestre do Mundo?! Os rabinos decidiram procurar o Rabino Shimon bar Yochai para obter esclarecimentos sobre essas questões.

Ao chegarem até o Rabino Shimon, começaram citando o conhecido Midrash que relata que, antes de D-us criar o Homem, Ele pediu a opinião dos anjos. O versículo diz: “Que é o homem mortal, para que Te lembres dele, e o mais nobre dos seres humanos, para que o consideres?” (Sl 8.5)

“Ele convocou vários grupos de anjos e fê-los sentar-se…”

Aprendemos que, quando o Santo decidiu criar Adão, Ele convocou vários grupos de anjos e fê-los sentar-se diante d’Ele. Ele lhes anunciou: “Desejo criar Adão”. Os anjos responderam com um versículo dos Salmos: “Apesar de toda a sua honra, se o Homem não compreender, ele se assemelha aos animais irracionais.” (Sl 49.21) O Santo estendeu o dedo e os consumiu pelo fogo! Ele fez com que outros grupos se sentassem diante d’Ele e disse: “Desejo criar Adão”. Eles responderam: “Que é o homem mortal, para que Te lembres dele, e o mais nobre dos seres humanos, para que o consideres?” — isto é: “Qual é a natureza deste homem? [Parece que tens grandes esperanças nele, mas não está revelado diante de Ti que é quase inevitável que ele caia?]” Ele lhes respondeu: “[Eu o criarei] à vossa semelhança angélica, e a sua sabedoria superará até mesmo a vossa. [isto é: Eu lhe darei todas as vantagens e a esperança de que ele triunfe, apesar das provas a que o submeterei.]”

Mas, quando Ele finalmente criou Adão, Adão pecou e foi expulso de Sua Presença. Aza e Azael manifestaram-se diante do Santo: “Nossa alegação original foi confirmada. Eis que o Homem que Tu criaste pecou diante de Ti.” Ele lhes respondeu: “Pensais que teríeis agido melhor na situação dele?” O que fez o Santo? Ele os precipitou de seu nível de santidade.

Assim que desceram, a Inclinação para o Mal entrou neles e também os dominou, conforme está escrito: “Tomaram para si [quaisquer, muitas] delas como esposas, dentre aquelas que escolheram.” (Gn 6.2) Como resultado de seu pecado [de arrogância e presunção], foram removidos e banidos de sua santidade anterior. (Zohar Bereishit I:37a)

“A santidade só habita onde existe um recipiente adequado para recebê-la…”

[O Rabi Shimon bar Yochai ouviu o que eles perguntavam e aonde queriam chegar.] Ele respondeu: Primeiro, quanto à vossa pergunta original: Como poderia a Torah ter testemunhado a respeito de Balaão que ele “caía em transe meditativo com visão mística”? Temos uma regra: a santidade só habita onde existe um recipiente adequado para recebê-la. Este homem, obviamente, não era digno! [Como, então, poderia ele ter tido uma verdadeira visão mística?!] Para vos responder, relacionarei este problema com a vossa pergunta sobre Aza e Azael. O que aconteceu com esses dois depois que o Santo os expulsou do céu? Eles perseguiram mulheres e levaram as pessoas ao erro.

Como mencionamos em relação ao versículo “Ele faz dos espíritos Seus anjos mensageiros” (Sl 104.4), esses dois eram anjos. Como, então, puderam existir no plano terreno? Na verdade, nenhum dos anjos celestiais pode existir sem receber sua força vital por meio do esplendor celestial. Se esse esplendor lhes for negado, eles não podem existir. Isso é ainda mais verdadeiro no caso daqueles dois que o Santo precipitou e, assim, separou de Seu esplendor celestial. O próprio esplendor deles se alterou e, quando desceram, a atmosfera deste mundo os dominou, fazendo com que sofressem uma mudança drástica de nível.

“O Santo… acorrentou-os com correntes de metal nas montanhas das trevas…”

Venha e veja. O Maná no deserto desceu de um nível muito elevado, do nível do esplendor celestial. Ao descer pela dimensão espiritual, ele nutria a todos. Era o próprio alimento dos anjos. No entanto, assim que descia com o orvalho da manhã e a atmosfera deste mundo o envolvia, ele se tornava denso e coagulava. Seu brilho mudava e ele parecia totalmente físico. O mesmo ocorre com os anjos — e ainda mais intensamente —, pois eles provêm de um nível inferior ao do próprio Maná. Quando descem, a atmosfera deste mundo os envolve e domina, e eles se transformam, afastando-se de seu nível original.

Ora, quanto a esses dois anjos, o que fez o Santo? Ele viu que eles estavam desviando as pessoas do caminho correto. Ele os acorrentou com correntes de metal nas montanhas das trevas… As pessoas que descobriam onde eles estavam iam até eles, e eles ensinavam a essas pessoas as artes ocultas. A Torah chama essas montanhas das trevas de “Harerei Kedem” [“Antigas Montanhas do Oriente” — baseando-se no duplo sentido de *Kedem*, que significa tanto “oriente” quanto “antigo” —, conforme diz o versículo: “Balaque, rei de Moabe, trouxe-me de Arã, das Antigas Montanhas do Oriente, [dizendo-me] para vir amaldiçoar Ia´aqov e invocar a ira divina contra Israel” (Nm 23.7).

“Quando o mundo foi criado, as trevas precederam a luz…”

Elas são chamadas de “Antigas Montanhas do Oriente” porque, quando o mundo foi criado, as trevas precederam a luz, como afirmam os versículos que descrevem os seis dias da Criação: “Houve tarde e houve manhã [nessa ordem]…” Labão [sogro de Ia´aqov, em Arã] e Balaão [em uma outra manifestação humana como de Labão, literalmente, e também porque Balaão seguia o exemplo de Labão ao ser um mestre em magia] aprenderam as artes ocultas com esses anjos caídos.

É por isso que Balaão disse sobre si mesmo: “É a palavra daquele que ouve as palavras de D-us, que vê uma visão do Todo-Poderoso” (Nm 24.4). Pois Aza e Azael haviam lhe ensinado as palavras secretas de D-us, que eles tinham ouvido quando ainda estavam no céu. É por isso que se diz “…ouve as palavras de D-us”, e não “…ouve a voz de D-us” — isto é, as palavras que ele ouvira de Aza e Azael. Ele também disse: “É a palavra daquele que ouve as palavras de D-us e conhece a vontade do Altíssimo” (ibid. 24:.16). De Aza e Azael, ele aprendeu a discernir os momentos mais propícios para praticar sua arte. Ele continuou dizendo: “Que vê uma visão do Todo-Poderoso enquanto caído [em transe meditativo], com percepção mística” (ibid.).

“Feliz é a nação de Israel, que foi santificada…”

Quem são aqueles que veem uma visão do Todo-Poderoso? *Nofel* [literalmente, “Caído”] e *Galui Eynayim* [“Percepção Mística”], isto é, Aza e Azael. Aza é chamado de “Nofel” porque, além de ter sido precipitado do céu uma vez, o Santo o forçou a descer ainda mais para as profundezas da escuridão. Azael é chamado de “Galui Eynayim” porque não provocou a ira do Santo tanto quanto Aza. Balaão costumava ir aos Montes Antigos do Oriente todos os dias. Foi por isso que ele disse: “Balaque… trouxe-me… dos Montes Antigos do Oriente…”

O Rabi Shimon disse: Quantas vezes repeti isso, e ninguém presta atenção! O Santo não permite que Sua Presença repouse senão em um lugar de santidade que seja adequado. Portanto, o Santo adverte repetidamente: “Não se encontre entre vós quem faça passar seu filho ou filha pelo fogo, quem pratique a adivinhação por varas, quem determine tempos propícios, quem pratique a adivinhação por presságios, quem pratique feitiçaria, quem use encantamentos, quem consulte médiuns e oráculos, ou quem tente comunicar-se com os mortos.” (Dt 18.10-11) Pelo contrário, feliz é a nação de Israel, que foi santificada para que Ele permita que Sua Presença habite entre eles, conforme está escrito: “D’us faz Sua Presença conhecida em vosso acampamento… Portanto, que vosso acampamento seja santo.” (ibid. 23.15)

Tradução: Mário Moreno

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