Definindo Nossas Prioridades

Mário Moreno/ julho 7, 2026/ Teste

Um Pedido Controverso

Matot e Masei — as duas últimas porções do Livro de Números — são geralmente combinadas e lidas em conjunto. Matot contém a narrativa de um pedido extraordinário feito por duas das Doze Tribos — Rúben e Gade — para se estabelecerem nas terras a leste do Rio Jordão, fora da Terra Santa. Possuidoras de grandes rebanhos, elas se dirigiram a Moshe e apresentaram sua solicitação:

A terra que o Senhor conquistou diante da congregação de Israel é uma terra propícia para o gado, e nós, teus servos, temos rebanhos. Se for do teu agrado, que esta terra nos seja dada como herança; não nos faças atravessar o Jordão.1

A lógica delas parecia sólida. Elas possuíam consideravelmente mais gado do que as outras tribos, e o povo judeu acabara de conquistar a terra montanhosa e fértil dos amorreus — perfeita para a criação de gado. Por que atravessar o Jordão em direção a Israel propriamente dito, quando aquela terra atendia tão bem às suas necessidades?

Moshe, por sua vez, não ficou nada satisfeito. Esse pedido indicava que as tribos de Rúben e Gade não estavam interessadas em entrar na Terra Santa, e trazia uma lembrança desconfortável do pecado dos Espiões — o trágico episódio que levou o povo judeu a vagar pelo deserto por 40 anos como punição.

Além disso, Moshe estava preocupado com a ideia de que duas tribos pudessem cuidar confortavelmente de seus rebanhos enquanto as outras dez tribos travavam batalhas para conquistar a terra de Canaã:

Acaso irão vossos irmãos à guerra enquanto vós permaneceis aqui? Por que desencorajais os filhos de Israel de atravessar para a terra que o Senhor lhes deu?2

As tribos de Rúben e Gade, no entanto, dissiparam as preocupações de Moshe, assegurando-lhe que não ficariam inertes enquanto seus irmãos guerreavam contra os cananeus, nem desencorajariam ninguém de conquistar e povoar a terra. Em vez disso, construiriam cidades fortificadas para suas esposas e filhos, garantindo a segurança deles, e então se juntariam à batalha na Terra Santa, permanecendo lá até que a conquista estivesse completa. Moshe sentiu-se aliviado:

Se fizerem isso, se se armarem para a batalha diante do Senhor… ficarão livres de sua obrigação para com o Senhor e para com Israel, e esta terra se tornará a sua herança diante do Senhor.3

Moshe então oficializou a decisão, concedendo as antigas terras dos amorreus às tribos de Rúben e Gade e, curiosamente, também à metade da tribo de Manassés.

Prioridades Equivocadas

Durante o diálogo com Moshe, os representantes das tribos de Rúben e Gade cometeram um erro sutil, porém significativo. Moshe percebeu isso imediatamente e apontou-lhes o erro, ensinando a eles — e a todos nós — uma lição de vida valiosa.

Os homens disseram a Moshe:

Construiremos currais para o nosso gado aqui e cidades para os nossos filhos; depois, nos armaremos rapidamente [e iremos] à frente dos filhos de Israel até tê-los conduzido ao seu lugar.4

Rashi, citando o Midrash,5 explica que Moshe detectou prioridades equivocadas nas palavras deles. “Construiremos currais para o nosso gado” e, só então, “cidades para os nossos filhos”. Como mencionaram os currais antes das cidades, parecia que a riqueza era mais importante para eles do que as suas famílias. Estavam mais preocupados com as suas posses — o seu gado e as suas ovelhas — do que com os seus filhos e filhas!

Ao analisar a resposta de Moshe, na qual as cidades são mencionadas primeiro, percebemos o que ele estava ensinando: “Parece que tudo gira em torno do dinheiro. Aceitaremos a ideia de vocês, mas coloquem as prioridades em ordem. Construam lares e cidades para os seus filhos. Quando tiverem certeza de que as suas famílias estão bem cuidadas, então — e somente então — construam currais para o seu gado”.

Essa lição é atemporal. Trazendo-a para o contexto atual, vivemos uma época em que matricular nossos filhos em escolas judaicas pode ser um grande desafio devido aos custos. E, no entanto, precisamos priorizar isso. Não cuide primeiro das suas ovelhas para só depois pensar no bem-estar dos seus filhos. Precisamos dizer: “Vou matricular meu filho em uma escola judaica; vou encontrar uma maneira de pagar a mensalidade. Talvez eu precise negociar, talvez precise reduzir as férias ou cortar luxos — mas temos de colocar nossos filhos acima de nossos rebanhos”.

Muitos anos atrás, a comunidade de um certo “shtetl” (pequena vila judaica) no Leste Europeu buscava contratar um novo “shochet” (profissional responsável pelo abate ritual). Certo dia, um homem apareceu e candidatou-se à vaga. Ele se saiu bem no processo de seleção, mas, antes de contratá-lo, pediram-lhe referências para confirmar se ele era uma pessoa temente a D-us.

Como ainda não existia e-mail, disseram ao “shochet”: “Enviamos cartas às suas referências e esperamos receber respostas dentro de alguns meses. Nesse meio-tempo, o “melamed” (professor) da nossa escola viajou para tratar de assuntos pessoais, e precisamos de um substituto. Você aceitaria substituí-lo por algumas semanas e ensinar nossas crianças?”

“Na verdade”, disse o “shochet”, profundamente decepcionado, “retiro minha candidatura. Não tenho mais interesse em ser o “shochet” desta cidade”.

Chocados, os anciãos da cidade aguardaram sua explicação.

“Vocês compreendem a implicação da oferta que me fizeram?” continuou ele. “Querem esperar para ouvir minhas referências antes de decidir se podem confiar a mim seus animais, mas, para cuidar de seus filhos, eu já sirvo?! Esse não é o tipo de comunidade em que desejo viver.”

Prioridades. Devemos colocar nossos filhos em primeiro lugar.

Agricultores versus Pastores

O Rebe falou extensamente sobre a semelhança entre os Espiões e os membros das tribos de Rúben e Gade.6

Espiritualmente, os Espiões tinham boas intenções. “Se entrarmos na Terra, estaremos ocupados com a agricultura e não teremos tempo para o estudo da Torah; se permanecermos no deserto, continuaremos livres para estudar a Torah dia e noite!” Eles acreditavam que uma vida de agricultor — acordar cedo para ordenhar vacas e trabalhar a terra — não valia a pena se significasse abrir mão da vida de êxtase espiritual no deserto, onde todas as suas necessidades eram supridas milagrosamente por D-us.

Os membros das tribos de Rúben e Gade, aparentemente, compartilhavam de uma visão semelhante: “Por que deveríamos entrar na Terra, onde teremos de travar guerras, colonizar o território e, depois, nos ocupar como agricultores do amanhecer ao anoitecer? Somos pessoas muito espirituais. Seria melhor se pudéssemos continuar como pastores e passar o dia sentados, estudando e meditando sobre assuntos espirituais.” E eles tinham bons exemplos a seguir na profissão que escolheram: os Patriarcas, os 12 filhos de Ia´aqov — progenitores das Doze Tribos — e Moshe eram todos pastores.

Por que o argumento deles não foi aceito? O Rebe explica que isso não se alinha ao plano de D-us para a criação. D-us não quer que sejamos eremitas, escondendo-nos em cavernas e evitando o materialismo. O mundo de D-us trata justamente de nos envolvermos com o materialismo! O plano de D-us para nós inclui fazer parte do mundo — casar-se, ter filhos, ter cartões de crédito, assumir financiamentos imobiliários — e, ainda assim, servir a D-us; plantar, cultivar e colher, transformando o mundo material ao longo de todo esse processo.

Trata-se de integrar-se à realidade física e elevar o materialismo ao serviço de D-us.

Qual era a diferença entre os Espiões, cujas ideias foram prontamente rejeitadas, e Rúben e Gade, cujo pedido acabou sendo atendido?

A diferença reside no fato de que Rúben e Gade não disseram: “Este é o único caminho”. Eles disseram: “Este é um caminho para certas pessoas. Isso funciona para nós. O povo judeu precisa de estudiosos da Torah, mas nem todos serão estudiosos da Torah. Nós queremos ser esse grupo seleto, mas ainda haverá outras dez tribos. Apoiamos o plano referente a Israel e à Terra Santa, bem como a conexão com o mundo material. Mas gostaríamos de ser nós os estudiosos”. Uma Influência Positiva Permanente

Por fim, Moshe não apenas concordou em atender ao pedido das tribos de Rúben e Gade, mas também incluiu metade da tribo de Manassés, concedendo-lhes uma parte das terras a leste do Rio Jordão.

Embora Moshe compreendesse a lógica por trás do desejo de se estabelecer nas terras recém-conquistadas dos amorreus, ele também percebeu uma falta de apreço pela santidade da Terra de Israel. Assim, decidiu incluir metade de uma tribo que havia demonstrado claramente um amor apaixonado e apreço pela Terra de Israel: Manassés.

Por que Manassés? As cinco filhas de um homem chamado Zelofeade, da tribo de Manassés, procuraram Moshe com uma profunda preocupação quanto à sua ligação com a Terra Santa. Zelofeade havia morrido no deserto, e suas filhas temiam não receber uma parte na Terra de Israel. Por isso, recorreram a Moshe e pediram que lhes fosse concedida a terra que, de outra forma, teria sido dada ao pai delas. Diante do impasse, Moshe consultou a D-us, que concordou! A partir de então, ficou estabelecido que as filhas herdariam a terra quando não houvesse filhos homens.

Como essa tribo demonstrava um amor tão apaixonado pela Terra de Israel, Moshe optou por posicioná-la estrategicamente ao lado de Rúben e Gade, para que exercesse uma influência positiva permanente e servisse como um lembrete constante do amor que todo judeu deve nutrir pela Terra de Israel.

Notas de rodapé

1. Números 32:4-5.

2. Números 32:6-7.

3. Números 32:20, 22.

4. Números 32:16-17.

5. Tanchuma Matot 7.

6. Likkutei Sichot, vol. 8, pág. 186 (Matot II)

Tradução: Mário Moreno.

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